​A RENÚNCIA DO PRESIDENTE

– Jornalista, vou lhe dar uma notícia exclusiva em primeira mão!

– Ôpa! Notícia exclusiva é comigo mesmo! Desembucha, Sr. Floriano!! Vou postar no meu blog e nas minhas plataformas multimídias nas redes sociais!

– Pensei bem e irei renunciar à Presidência da República.

– Mas o Sr. não é o presidente da República…

– Aí é que está o ‘furo’ de reportagem, Jornalista! Ninguém sabe ainda que eu sou o Presidente da República.

– Sr. Floriano… Isso é uma coisa muito séria. E, se não me engano, assumir uma identidade ou profissão nos passando por outra pessoa, é crime de falsidade ideológica.

– Eu sei, eu sei. É uma coisa muito séria mesmo. Mas eu fui eleito numa votação secreta, lá no Congresso.

– Entendo…

– Vim parar aqui na Casa para me salvaguardar, contra os golpistas.

– Tem razão… Hoje em dia há muitos por aí…

– Sabe, na minha gestão encaminhei algumas medidas provisórias e decretos Lei. Um tanto quanto impopulares. Por isso assinei as medidas com o codinome de Bem-te-vi…

– Por que Bem-te-vi?

– Por causa da tal delação premiada… Sendo Bem-te-vi eu mando recado para possíveis delatores: “Bem-te-vi, vossa excelência… Bem-te-vi… Quem diria, hein?!”.

–Faz um certo sentido… Mas quais medidas que o senhor tomou? Foram na área econômica?

– Reformas.

– Da Previdência Social, Trabalhista… Reforma política? As medidas contra a corrupção? A anistia ao caixa dois?

– Não, Jornalista. A minha bancada é minoria no Congresso. Não passariam, pois no momento careço de capital político.

– E o que seriam então?

– Bom… Uma delas é privatizar o Congresso e o Palácio do Planalto. E também o Ministério Público e a Polícia Federal. Precisamos de dinheiro em caixa. Tá ruim pra todo mundo, Jornalista…

– Mas o Congresso é a Casa do povo, Sr. Floriano… Digo… Sr. Presidente… E privatizar o MP e a PF é impensável e inadmissível. E o que mais o senhor encaminhou para votação?

– Temos que ser pragmáticos, Jornalista. E relativos. Portanto, o grande projeto da minha gestão é privatizar os trabalhadores.                                                                                                                                                                                     

– Sr. presidente, por que o senhor não privatiza o senhor?

– Porque eu irei renunciar. E essa moda de manifestações incomoda a minha vizinhança.

– Mas por que renunciar?

– É uma questão de oportunidade. Os brasileiros ainda não sabem que eles votaram num presidente, mas fui eu que recebi a faixa presidencial. Se eu renunciar agora, ninguém nunca saberá quem era o ‘Bem-te-vi’.

– Presidente… O senhor é o Floriano, mas não é o Peixoto… Desce desse ‘disco voador’…

– Jornalista, você quer ser o meu vice? Com a minha renúncia você assumiria…

– Infelizmente não vai ser possível, Sr. presidente. Estou em tratamento. E até onde eu sei… O senhor também.

– O meu psiquiatra é da Interpol. Eles pensam que irei deixar o país. Jornalista, você não está gravando a nossa conversa, né?

– Não podemos usar gravadores aqui, esqueceu? Nem computadores e telefones celulares.

– Então ouça, meu vice. Já tenho até um jingle para você:“Vote no jornalista, vote no jornalista… Ele é diferente, ele está com a gente e não está na lista, Vote no jornalista”…

– Vou pensar no assunto…

– Ótimo. Se você aceitar o cargo eu seria a sua eminência parda…

– Presidente… O senhor já tomou banho hoje?

– Ainda não, meu caro vice.

– Então aconselho o senhor a ir ao banheiro e tomar um banho gelado para despertar… Ah… E não se esqueça… Se Lava a Jato, porque eu não sou baú… E volte com as mãos limpas.​