500 anos da Reforma Protestante

Em 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero afixou na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, na Alemanha, suas 95 teses, onde deixou explícito seu descontentamento com determinadas questões doutrinárias da Igreja Católica, entre elas, a venda das indulgências – a venda do perdão. Com o seu gesto corajoso, diga-se de passagem, Lutero, monge agostiniano, escreveu seu nome na história do Cristianismo. Lutero, que liderou uma revolução religiosa que mudou o mundo ocidental, afirmava que o perdão divino não poderia ser comprado e vendido, pois Deus o oferece gratuitamente.

O Papa autorizou a venda das indulgências, desde que a metade do dinheiro arrecadado fosse usado para a construção da Basílica de São Pedro, em Roma. O homem designado para conseguir o dinheiro foi João Tetzel, que bolou o esquema das indulgências. “Faça com que os seus entes queridos, que já partiram, saiam do purgatório por uma pequena taxa e ganhe algum crédito adicional para os seus pecados” – era o mote da campanha. Tetzel foi um monge dominicano e pregador. Tornou-se comissário das indulgências e viajava de cidade em cidade divulgando-a. “ A Reforma foi, acima de tudo, um grito de liberdade no coração da Europa, no fim da Idade Média e começo da Era Moderna. Um grito de liberdade de uma cristianismo esquecido de sua dimensão fontal: o Deus vivo da tradição bíblica. Um grito do espírito humano sufocado por uma religiosidade opressiva e incapaz de oferecer respostas à nascente modernidade. Tal grito “espiritual” catalisou insatisfações de todas as ordens: políticas, econômicas, sociais e etc. Tornou-se o fio condutor a costurar todos os grandes movimentos por liberdade e igualdade que moldaram o mundo ocidental a partir do século XVI” – explica o pastor da Igreja Presbiteriana de Ipanema, Zona Sul do Rio de Janeiro, Edson Fernando , autor do livro Dores que nos transformam – quando frágeis, então somos fortes, editora Mauad, em parceria com o saudoso pastor Jonas Rezende.

Lutero estabeleceu uma nova fase para o cristianismo. Rebelava-se contra toda a corrupção que reinava na igreja e pressionava para uma nova visão da autoridade do papa e das escrituras fosse adotada. Teztel morreu em 1519, mas Lutero prosseguiu. Anote-se que, mesmo antes do seu nome ganhar projeção, a insatisfação com a igreja era grande. Pulsava uma vontade de mudança para combater desvios, como por exemplo, a exacerbada burocracia e excessos praticados pelo clero. Toda essa insatisfação com os rumos da igreja já existia antes do século XVI, o que em nada tira a importância e o brilho dos reformadores, cujo foco principal foi na questão doutrinal.

Pré-reformadores importantes, como John Wycliff e John Huss, realizaram trabalhos importantes no campo litúrgico. Huss acabou excomungado e queimado na fogueira. O alto clero não tinha nenhum interesse em discutir questões doutrinárias, pois isso poderia abalar o seu poder. Lutero visava uma pregação de um evangelho ético e libertador.

Outros dois nomes que também se destacaram em relação ao assunto em tela foram Ulrich Zuínglio e João Calvino. Zuínglio começou a Reforma Protestante em solo suíço. Entre os anos de 1512 e 1515 atuou em batalhas ao lado da juventude suíça e, em 1522, nomeado pároco, prega contra os abusos religiosos e políticos, a reforma da missa e dos sacramentos. Incentiva os jovens aos estudos e proíbe que os mesmos integrem exércitos mercenários. Ao enfrentar a oposição católica, incorporou-se às tropas de Zurique como soldado. Foi morto durante a Batalha de Kappel. Seu corpo foi esquartejado pelos soldados católicos.

Calvino nasceu em Nyon, França, em 1509. Em função do prestígio do seu pai, que ocupava cargos importantes no governo, o bispo de Nyon, com o apoio da família de Calvino, o ajudou na carreira religiosa. Aos 12 anos ganhou um cargo eclesiástico, que foi renovado quando completou 18 anos. Mas, a despeito disso, Calvino – formado em Direito – converteu-se ao protestantismo. Os motivos da mudança não são conhecidos. Para escapar das perseguições, foi primeiro para a Basileia, depois para Genebra, onde recebeu um convite para exercer as funções de leitor das Sagradas Escrituras. Não havia literatura protestante. Dedicou-se ao estudo da Bíblia. E, em 1536, Calvino publicou sua obra mais famosa, a Instituição da Religião Cristã – mais conhecida como as Institutas. Foi um homem de fé e ação.

A data comemorativa é um bom momento para algumas reflexões a respeito do universo evangélico e seus problemas atuais, entre eles, a intolerância religiosa que, não raro, têm sido divulgados nas páginas policiais dos jornais. “ Toda forma de intolerância é inadmissível e inaceitável, especialmente quando desencadeada por cristãos. O protestantismo brasileiro tem em sua história inúmeros relatos de perseguição sofrida nos tempos do Brasil Império. Só isso já seria motivo mais que suficiente para que se colocasse sempre a favor da liberdade religiosa. Some-se a isso o fato de que uma das características do movimento da Reforma do século XVI foi sua estreita identificação com os ideais humanistas. Pode-se dizer que a liberdade de consciência e o protestantismo histórico estão imbricados. Não se pode pensar num dissociado do outro. Se fiel às suas raízes, todo evangélico deve ser um convicto e ardoroso defensor da liberdade de culto para todas as pessoas. Os fatos que volta e meia nos assustam relacionados à intolerância religiosa podem estar vinculados à uma mentalidade arcaica que não se permite reconhecer outras formas de fé como sendo igualmente legítimas as suas. O cristianismo do futuro é, no meu modo de entender, aquele que se sabe seguidor da verdade, mas não seu dono. A verdade de Cristo é nosso alvo, mas nós a apreendemos de modo parcial e partilhado. Isso nos comunica um elevado grau de humildade e respeito às outras formas de culto” – analisa o pastor e professor Levy Bastos, doutor em Teologia Sistemática. Ele ressalta algumas virtudes do protestantismo brasileiro, que tem dado sentido à vida de muita gente e tem sido de muitas formas um grande auxílio no processo de formação de cidadania. E cita que a prova mais evidente disso são as inúmeras e valiosíssimas instituições de ação social dirigidas por evangélicos. Muitas delas – talvez a maioria – gratuitas. Mas adverte que isso não pode esconder a necessidade que o protestantismo seja mais aberto às discussões e práticas relacionadas ao ecumenismo. “Lamentavelmente, e por razões históricas, o protestantismo que aportou no Brasil foi sempre de corte muito conservador. Pouco feito ao diálogo inter-religioso. É preciso que esse reafirme que alguém que tenha convicções profundas não é (nem precisa ser) alguém intolerante com outros credos Uma fé viva e intensa não é incompatível com o diálogo com aqueles que pensam diferente. A diversidade pode ser sim, um ganho” , assegura o pastor Levy Bastos que, durante muitos anos viveu na Alemanha como pastor da Igreja Metodista.

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Entrevista com o pastor Alexandre Cabral. Doutor em Filosofia pela UFRJ e bacharel em Teologia pela Universidade Santa Úrsula. Milita nas áreas de metafísica, filosofia da religião, fenomenologia, mística e pensamento medieval. Especialista sobre Heidegger e Nietzche.

“A BANCADA EVANGÉLICA É A EXCRESCÊNCIA E A CARICATURA DA FACE SÓRDIDA DA POLÍTICA NACIONAL”

Diante do fundamentalismo e das bizarrices reinantes no nosso país e também no exterior, como por exemplo, nos Estados Unidos, não estamos precisando de uma outra Reforma?

Diante do mundo atual, sobretudo do cenário nacional (mais do que do cenário estadunidense que possui diversas formas de resistência que nós não possuímos), é mais que urgente que o espírito da reforma nos arrebate e nos conduza. Isso não significa promover qualquer tipo de reformismo. A reforma protestante seria um desserviço, caso se reduza a um simples reformismo. O que importa, na minha opinião, é afirmar o caráter protestante da reforma. Isso significa fazer da transgressão um poderoso veículo de criação de novas formas de convivência, que promovam o direito de ser da multiplicidade em uma cultura que ainda é saudosa de diversos processos de homogeneização. Vale lembrar que o termo “protestantismo” é fruto direto de um conhecido protesto de seis príncipes alemães e quatorze cidades livres realizado contra a dieta imperial ocorrida em Spira, em 1529, com o intuito de reestabelecer a liberdade de culto na Alemanha, ameaçada pelo imperador Carlos V, que queria recatolicizar a Alemanha e proibir o avanço da reforma cristã. O espírito protestante, que é mais importante que a reforma protestante do século XVI, atua justamente que rejeitamos os obstáculos culturais para a plena afirmatividade do direito de ser da pluralidade. Mais: penso que o espírito protestante, diferente do que pensou o teólogo Paul Tillich no seu conceito de princípio protestante, se caracteriza por afirmar a criatividade do múltiplo, ou seja, o caráter autoinventivo de uma vida que só se determina por meio da pluralidade de elementos heterogêneos inter-relacionados. A imbecilidade desinibida de muitos atores e atrizes sociais brasileiros, que visam a promover o silenciamento político, ético, econômico e religioso da multiplicidade de brasileiros e brasileiras exige de nós a retomada crítica do espírito protestante. Essa reforma só poderia ter repercussão se não fosse obra clerical; tampouco se fosse tão-somente cristã. A força libertadora do espírito protestante não está somente no fato de ser cristão; está sobretudo no fato de ser criativo emancipador. Essa criaçãoemancipação não pode ser somente fruto de uma releitura bíblica, como muitos acham que foi no século XVI. Nos dias atuais, o espírito protestante deve ser antropo-cósmico. Deve visar a abrir espaço para que a totalidade da vida possa encontrar seu curso autocriativo, sobretudo da vida humana, com sua multiplicidade de culturas, religiões, valores, formas de exercer afetos etc. Os grupos que conseguirem produzir isso, certamente, podem ser considerados reformadores, sejam eles cristãos ou não.

Uma reforma hoje teria a mesma repercussão?

Para mim, o maior avanço da reforma do século XVI foi o de ter desconstruído radicalmente a relação metafísica entre signo e sentido. Se é a fé o índice no qual o sentido da salvação e da liberdade se manifesta; se, conforme assinalou Lutero em 1520 (no escrito Da liberdade do cristão), o termômetro da fé é o amor desinteressado, que não objetiva sequer o céu, mas simplesmente amar e servir o outro; se o sentido da fé não pode ser reconhecido pela simples adequação entre comportamento humano e prescrição moral, então não podemos inferir a presença de Deus/Cristo na vida de alguém pelo conjunto de seus comportamentos. Isso rompe com o poder de classificação moral e institucional dos indivíduos e abre espaço para a produção de relação de gratuidade e sem julgamentos e enquadramentos morais. Em outros termos: o ser do outro é irredutível aos meus esquemas dogmático-morais de interpretação. Apesar de as tradições reformadas nunca terem de fato levado essa intuição adiante (pois se moralizaram e dogmatizaram rapidamente), esses elementos ainda estão presentes, mesmo que de modo oculto. Por outro lado, gosto da separação produzida por grande parte dos reformadores entre Igreja e Poder civil (ou, posteriormente, Estado). Um Estado cristão é uma idiotice incomensurável. Consequentemente, a laicidade (independentemente do que isso queira dizer) é uma conquista importantíssima da reforma. Nesse sentido, a bancada evangélica brasileira além de ideologicamente estúpida é um signo evidente de traição ao espírito protestante.

Na sua visão, que tipos de avanços mais significativos que a Reforma representou? Além de Lutero e de Calvino, cite outros nomes importantes – os pré-reformadores, por exemplo 

Dos movimentos pré-reformadores que mais me atraem, certamente, é a “reforma” franciscana a mais fecunda. São Francisco de Assis é, para mim, o mais evangélico dos reformadores. Ele não se ateve às epístolas de Paulo, como o fez a reforma do século XVI. Sua fonte teológica é a vida de Jesus tal qual presente nos quatro evangelhos canônicos. A reforma do século XVI é paulinista, apesar da invenção do termo “evangélico” por parte de Lutero. Por outro lado, São Francisco não somente introduziu a ecologia como eixo da vida cristã, mas posicionou a Bíblia para que não fosse mais um ídolo, como parece ter sido em muitos momentos da reforma do século XVI. Para ele e sua ordem, a vida é o lugar em que o significado do texto bíblico deve ser compreendido. Isso certamente freou o reducionismo protestante, que enclausura a vida na Bíblia. Por isso, a reforma de São Francisco é muito mais criativa que a dos protestantes. Ganharíamos muito se repensássemos a reforma cristã nos dias de hoje tendo em mente São Francisco de Assis.

Fale um pouco sobre Erasmo de Roterdã

Sobre a oposição de Erasmo e Lutero o principal ponto é a existência do livre-arbítrio ou do servo-arbítrio (este último pensado por Lutero à luz do pensamento final de Agostinho). Trata-se, contudo, ao meu ver de uma oposição sem sentido. Erasmo nunca disse expressamente o que Lutero afirmou dele. Basta ler sua Diatribe, para perceber que a doutrina da cooperação humana com a graça divina não anula a iniciativa de Deus na relação com o ser humano e não transforma o pecado original (conceito agostiniano muito importante para todo protestantismo) em mero engodo. Atualmente, muitos estudiosos estão reparando isso que considero um equívoco.

A bancada evangélica votou a favor das modificações da CLT, numa total omissão em relação ao direitos adquiridos dos trabalhadores. O que isso significa para a imagem dos evangélicos perante a opinião pública?  

A bancada evangélica é a excrescência e a caricatura da face sórdida da política nacional. Moralista, arrogante, fundamentalista, persecutória, a opinião pública homofóbica, misógena. Só defende o interesse político-econômico do capital. Ela transformou o céu em um inferno para a democracia nacional. É uma pena que parte da opinião pública aplaude esse absurdo.