À busca de Macron

A vitória contundente de Macron nas eleições francesas não é mera alternativa de preferências eleitorais, mas uma nítida “virada de página” na condução política do país. Não há só a falar do aumento da volta das mulheres às urnas, nem dos jovens, numa clara contrapartida a 1968. E a continuação do sucesso mostra que não se tratava apenas de bloquear um possível êxito de Le Pen e da radical fascistização do país. Na vitória do “Em Frente!”, depara-se, de saída, o inédito abate das esquerdas num futuro imediato francês pelo mínimo de votos, queda essa tanto do Partido Comunista, quanto da histórica vigência do socialismo em França. Da mesma forma, mal se rearticula um tradicionalismo político, num alinhamento para o futuro imediato.

A lição vai a um paradigma, inclusive, para o caso brasileiro, em que o clamor pelas “Diretas Já” em nada esconde, no nosso atual protagonismo político, o vácuo programático e a completa ausência de lideranças emergentes. O que seriam as direitas se esfarela em núcleos municipais, estritos consumidores das verbas do federalismo do status quo. O que mais espanta é a falta de qualquer mobilização de novos protagonistas de esquerda, de par com a clara obsolescência, entre as figuras nacionais remanescentes, de Marina Silva. Doutra parte ainda, e não obstante a avalanche dos propinodutos, manifesta-se a completa falta de qualquer novo nome, a evidenciar o cansaço cívico com o moralismo.

Em contracampo à permanência de Temer durante os próximos meses, a lição de Macron para o nosso futuro vai ao fortalecimento da candidatura de Dória, a refletir o presidente francês no que possa ser, neste nosso vácuo político, a confluência para um centro liberado de qualquer tentação ideológica.

Ao contrário do que ora suscita Macron, entretanto, a nossa diferença está no que continua, para nós, e originalmente, a fidelidade do “povo de Lula”, o qual, depois de todos os escândalos, mantém a preferência de 45% do eleitorado nacional.