A desempregada e o Circo

Chris Adibê era uma dessas pessoas determinadas, cuja vocação era nunca deixar a peteca cair. Arquiteta de formação e guia de turismo por vocação, acabou passando por aquela fase em que todos estão experimentando no momento de crise aguda: o desemprego. Passou grande parte dos seus três meses de folga forçada, enviando e-mails, visitando grupos de oportunidades no Facebook, procurando chances no WhatsApp e um belo dia, ei-la aceitando uma vaga inesperada em sua vida: Artista de circo. O que iria perder? Com vale transporte, alimentação no local, treinos e convivência com pessoas com sentimentos livres. Parecia ser bom, apesar de não ter nenhuma idéia do que poderia fazer. Aliás, nunca foi dada ao mundo das artes, apesar de lembrar de ter feito uma ponta de cobrador de presença, numa peça de teatro da 5ª série, em sua antiga escola. No dia seguinte, tomou seu tradicional café com leite e um pedaço de costela, e após um grande suspiro, foi decidida a mudar de vida. O mais importante, era focar na idéia que precisava quitar meses de aluguel atrasado. Foco! A visita ao circo Gran Orlando, foi emocionante e foi recebida de braços abertos pelo dono e apresentador do espetáculo Seu Alfredo.

– Meu nome é Chris Adibê Soares Lima. Adibê em homenagem a minha avó mineira. Vim fazer um teste para trabalhar no Circo. Fui indicada pela Marcinha…

– Sim, sim! A Marcinha. O que você sabe fazer exatamente?

– Para falar a verdade, posso fazer qualquer coisa. Afinal, sempre fui boa em Educação Física. Nunca trabalhei no Circo, mas estou precisando de uma chance urgente e estou muito desesperada…posso fazer a assistente do mágico, que tal?

– Impossível, querida. Ontem, durante o espetáculo, ele fez seu grande número de serrar ao meio uma pessoa da plateia. Até agora ele está no hospital tentando juntar as partes de uma senhora da plateia. Os coelhos ficaram aqui para receber os recados e os pombos estão dando o depoimento na polícia, mas o delegado já falou que não quer saber de pessoas avoadas prestando esclarecimento no inquérito levantado pela família.

– Entendo…então que tal trapezista. Poderia me balançar a 20 metros de altura.

– Tenho uma notícia muito triste. O trapezista faleceu. Ontem, anunciou ao público que iria fazer um salto mortal. E foi mortal! Que homem de palavra…

– Jesus! E todo mundo viu ele se espatifando no chão?

– Claro que não! Ele deu um salto direto em um balde dágua!

– Minha nossa!

– Minha Nossa digo eu! Esqueceram de colocar água…

– E o engolidor de espadas? Que tal eu segurar as espadas para ele?

– Ontem, depois de engolir 7 espadas, não conseguiu engolir o desaforo de uma pessoa da plateia e do jeito que estava partiu para cima do infeliz com ódio no coração. Acabou passando mal e foi levado ao hospital. Nesse momento deve estar na mesa de operações, afinal, certas coisas só são amargas se a gente as engole…

– Nossa…parece até sabotagem. E que tal o homem forte? Poderia ficar ao lado dele de maiô. Tenho um corpo bonito.

– Isso vai ser complicado…o homem forte na verdade é a biba forte. Da irmandade. Não tolera mulheres a pelo menos 10 metros de distância. Certa vez, uma foi ver a apresentação na primeira fila. O homem forte deu um chilique tão grande, que ficou desacreditado e saiu do picadeiro na mesma hora. Até hoje está trancado no seu trailer, com trauma e chorando muito. Estamos mantendo ele a base de chocolates e maratona de Mother Family.

– Já sei! Já sei! O que realmente o Circo está precisando é de um dono do circo! Esse é a ocupação que devo ter neste trabalho!

No dia seguinte, Seu Alfredo estava começando a enviar e-mails, visitando grupos de oportunidades no Facebook, procurando chances no WhatsApp…