A Falação de Boca

Continuou falando depois de morto

Pois sempre fora tagarela.

Uma coisa da fala sobrevivente

Ainda resistia indolente fera

No corpo em adiantado estado de decomposição

Do cara que um dia teve a alcunha

de João Montevidéu Sapucaí da Unha.

Sua boca-bicho remexia tagarela

Falações de outros mundos pela goela:

‘bem-te-vi’, ‘bem-te-vi’, ‘bem-te-vi’!

Mandando recados aos que ficaram

Por enquanto por aqui, por aí, por acolá?

Um vozeirão em erupção nascia teimoso

No corpo estirado no sofá

Do barraco triplex lá no morro da Mangueira.

“Lalalalaiá, lalalalaiá, lalalalaiá”

Cantava a boca do falecido fulminado

Depois de uma noite de bebedeira.

Seu coração cansado e o seu fígado esverdeado

não aguentaram

As exigências das farras

E das sequenciais saideiras.

Pois era então um mistério para a ciência

A boca que insistia em não morrer

No morto que já era, de vez anoitecido.

Um padre ortodoxo cismou em incorporação

maléfica

E teve rezadeira, jogação de água benzida,

Procissão, pulação, desmagnetização,

Pra calar a boca tétrica não falecida.

“Alalaô ôôô ôôô”,

continuava a boca no sábado de Carnaval

do morto que, em vida, fora puxador de samba

do bloco ‘Unidos-do-Ioiô-da-Iaiá-e-do-iskindô-iskindô-dentro-do-elevador-meu-amor-ôôô-é-só-alegria-nos-quatro-dias-de-folia-por-que-eu-sou-bamba’.

Em meio a tal quadro de esquisitice

A boca continuava falando versos

Submersos em apocalipses

Enquanto o resto do corpo jazia

Apressadamente

No tempo e no espaço

No caos da carne e da energia

Desfazendo-se nesse colapso

De ex-gente, lapso de ausência

De alegria. ‘Vixe’ Maria!

E a boca?

A boca louca, essa boca-louca-Maria,

Estava descontrolada, desregulada,

ou coisa parecida

Faladeira

Absurdamente viva

Independente do corpo do qual fazia parte.

“Blablablá, blablablá, blablablá”

deitava a boca a falar coisas

e segredos guardados violados transmitidos

fofocas, assovios, palavrões sem sentido.

De vez em quando cantava a boca

Pagodes de improviso, sambas de raiz,

Realmente – ninguém podia negar –

Era uma boca danada e muito feliz

E até que era bom escutar.

Boca impávida, hoje tão diferente

Do João Montevidéu Sapucaí da Unha

Que agora morto da silva

Não serve sequer para ser testemunha

Desse enredo para lá de sobrenatural.

Por volta da meia-noite desse mesmo Carnaval

Quando a Mangueira entrou na avenida

A estranha boca da morte banida

Cantou um samba-de-enredo triste, de saudade,

Entrou em transe de evolução e harmonia,

Deu um grito de guerra que era de paz,

E a boca silenciosamente desencantou-se da voz,

Despediu-se de nós, para nunca mais.

Seu João agora tinha a boca calada

Como devem ser as bocas das pessoas mortas.

Não convém ficar falando danações

Depois do falecimento.

Não é bom praticar doidices sem explicação

Que jurado vivo sente medo e não entende desse enredo.

Mas há quem diga

Que a tal boca do João

Agora no Cemitério do Caju

Continua falando, ecoando a voz,

Na quarta-feira de Cinzas,

Para longe do barracão,

Na avenida da ilusão – e de nós –

A cantar um samba eterno

Em meio ao silêncio da multidão.

Coisas de Carnaval.

Contos de assombração.