A festa da firma

Carla Giffoni - Arte Rafael Sarrasqueiro
Ilustração André Barroso

E Tobias se prometeu que, na festa da firma, faria diferente dos outros anos e que nunca mais repetiria o vexame que deu na última empresa em que atuou.

No último ‘trampo’, Tobias sofreu com uma ressaca homérica, que foi comentada até a Páscoa pelos colegas de trabalho, que não esqueceram – e não o deixaram esquecer também – facilmente o vexame.

Mas o pior não foi isso: por mais de seis meses, o jovem mancebo teve que correr toda vez que a estagiária míope, de perna fina, vinha ao seu encontro com olhares de enamorada. Tobias “pegou” a garota e acabou levando-a para dormir em seu apartamento. Devido à amnésia alcoólica, ele não se lembra de nada até hoje, mas a garota logo ficou imaginando flores de laranjeira e igreja enfeitada.

Resultado: o pseudo-Romeu, no final das contas, acabou saindo do emprego e procurando outro, devido não só à míope trabalhada na ilusão casamenteira, como também à gozação que sempre surgia sobre a fatídica noite. A troça era em qualquer tempo.

Por tudo isso, Tobias jurou de pés juntos que este ano seria diferente. A primeira providência que tomou foi trocar de emprego – e até de cidade, para que o chato do ex- cunhado não viesse novamente passar o réveillon trazendo a mulher, os gêmeos e o primogênito, o Darth Vader Kid, a tiracolo.

Tobias se preparou psicologicamente o ano inteiro para enfrentar a festa da firma com classe, distinção e serenidade. Seria um lorde inglês, desses que tomam pontualmente o chá das cinco. Seria discreto, elegante e diplomático. Ficaria apenas uma hora no local e depois sairia à francesa da festa. O objetivo principal era fazer o networking necessário para a ascensão profissional.

Foi com essa meta que entrou na festa da firma, jurando e confiante de que esse ano tudo seria diferente. Tudo.

Contudo, no dia seguinte, quando dá por si, está nu na caminha do Zé, seu vira- lata de estimação, compartilhando o acolchoado. O filhote o acorda lambendo a baba que sai da boca do dono.

Com dificuldade, Tobias consegue se levantar do chão, onde está a caminha do Zé. Ele vai até a cozinha e faz um café forte para repor as energias. Ao tomar os primeiros goles, sente-se melhor e começa a tentar se lembrar do que realmente aconteceu na festa.

Tobias espreme, espreme, espreme as lembranças, mas nada, nadica de nada mesmo, o faz trazer à memória o que realmente aconteceu. Recorda-se apenas de entrar no salão de festas onde havia um arco de bolas com as cores da firma e uma grande faixa em letras douradas saudando o próximo ano: “Seja bem-vindo, 2016!” Tobias lembra que entrou e logo veio um garçom lhe servir uma taça de champanhe, a qual recursou sabiamente, preferindo um copo de água Perrier.

Sentindo-se inadequado no ambiente chique e distinto, Tobias não recusou quando o garçom passou novamente, agora oferecendo uma batidinha de vinho. Ele ainda perguntou se a bebida era leve, e o garçom garantiu que sim, que a tal bebida era uma das preferidas da mãe do diretor executivo da empresa. Tobias começou a bebericar a tal batida, confiante de que uma bebida preferida por uma senhora de mais de oitenta anos não o deixaria em perigo. É até aí que vão suas lembranças: quando tomou o primeiro copo da tal batida de vinho.

Como não consegue lembrar com clareza os fatos ocorridos na noite anterior, Tobias vai para a sala, onde está seu laptop, para ler os comentários feitos no Facebook pelos colegas da empresa.

Ao abrir sua página, a primeira imagem que vê é um vídeo que o mostra em cima de uma mesa, com gravata, mas sem camisa, sensualizando com a gostosa do almoxarifado. Abaixo do vídeo, a legenda: “O que pode fazer uma batida de ‘Pau nas Coxas’!”. Tobias leva um susto, não só pela cena em si, mas, também, e principalmente, pelo número de curtidas: passavam de um milhão e meio.

Desesperado, Tobias vai clicando nos outros vídeos postados pelos colegas de trabalho, e em todos aparece ele – justamente ele! – como ator principal, fazendo alguma graça e pagando um orangotango colossal. Cada vez mais aflito, Tobias vai vendo as gracinhas que foi capaz de fazer: apertou as bochechas rosadas da mãe do diretor executivo e, não satisfeito, dançou com a velhota um tango no maior estilo Gardel. Ao final, tascou na senhora da terceira idade um beijo no estilo desentupidor de pia, desses que se fazem nos filmes pornôs.

Mas o vexame não acaba aí! Em outro vídeo ele aparece indo até o chão, dançando um pancadão Proibidão. Ao seu lado, o diretor de Marketing da firma aproveitou para soltar a franga reprimida e fez par com ele.

São mais de trinta vídeos nos quais Tobias atua, e cada um pior que o outro! Mas o derradeiro é o que o mostra fazendo chifrinho atrás do diretor executivo da empresa, na hora do discurso do todo-poderoso. Realmente, seu destino já está traçado.

– Nada poderá ser pior do que isso! – murmura Tobias, inconsolável.

Nisso, ele ouve um barulho e olha para trás.

Na soleira da porta do quarto está o diretor de Marketing, em um roupão e com o cabelo molhado, lançando olhares gulosos em sua direção.

– Fodeu!