A Incógnita Trump

Do Solidário, por Edison Corrêa e Aiula Eisfeld

Publicado em 07 de Dezembro de 2016

A vitória do republicano Donald Trump nas eleições norte-americanas provocou variadas reações de líderes internacionais. Alguns ministros de relações exteriores e representantes europeus mostraram apreensão. No entanto, os mandatários da Rússia, Vladimir Putin, e das Filipinas, Rodrigo Duterte, se apressaram em demonstrar suas intenções em melhorar as relações com os Estados Unidos. Putin, inclusive, quer restaurar plenamente seus vínculos com Tio Sam. “Temos esperança de tirar ambos os países desta situação crítica”, declarou o mandatário russo, ressaltando que será iniciado um diálogo construtivo entre Moscou e Washington.

 Já Duterte enviou “calorosas felicitações” a Trump e expressou, em nota, seu desejo de “trabalhar com a administração futura para melhorar as relações entre Filipinas e EUA baseadas no respeito mútuo, benefício mútuo e o compromisso partilhado rumo a ideias democráticas e o Estado de direito”. 

 Até mesmo o sisudo líder chinês, Xi Jinping, revelou estar “ansioso” para trabalhar com Donald Trump “sem confrontação”. “Concedo uma grande importância às relações chino-americanas e estou ansioso para trabalhar sem conflito ou confronto, com base nos princípios de respeito mútuo e de cooperação”, declarou Jinping. Theresa May, primeira-ministra britânica, felicitou Trump pela “árdua campanha” e lembrou da relação histórica entre os dois países. “Nossas nações têm base nos valores da liberdade e da democracia. Continuaremos a ser parceiros fortes e próximos em matéria de comércio, segurança e defesa”, disse May.

 

Período de Incertezas

 Porém, nem todos ficaram satisfeitos com o destino das urnas norte-americanas. François Hollande, presidente francês, afirmou que “o triunfo de Trump abre um período de incertezas”, uma acirrada crítica ao governo que sucede ao de Barack Obama. Outro a torcer o nariz para a vitória de Trump foi Ursula von der Leyen, ministra de Defesa da Alemanha, que revelou estar “chocada” com a vitória do republicano. “Acho que Trump sabe que não foi um voto para ele, mas sim contra Washington, contra o establishment”, ironizou. Carl Bildt, ex-ministro das Relações Exteriores da Suécia, declarou que 2017 será um ano de um desastre duplo para o Ocidente.  “Apertem os cintos!”, brincou o sueco. 

“Não será fácil”, ponderou Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu. Segundo ele, a campanha eleitoral norte-americana foi marcada por elementos de protecionismo e palavras preocupantes sobre mulheres e as minorias. “Mas minha experiência também é a de que as campanhas eleitorais são diferentes da política real durante o mandato de um presidente, então espero que ele retorne para uma cooperação racional”, salientou.

Bolsonaro Presidente em 2018?

 No Brasil, Michel Temer soltou uma nota protocolar sobre a vitória de Trump. Nela, o presidente disse que a eleição do republicano não modifica a relação entre Brasil e Estados Unidos. Segundo ele, o vínculo entre os dois países é “institucional”, de “estado para estado”. “Tenho certeza que lá as coisas irão muito bem,. A vitória de Trump não muda nada a relação Brasil e Estados Unidos”, afirmou o presidente.

 A surpresa ficou por conta do deputado federal Jair Bolsonaro, que parabenizou Donaldo Trump pela vitória numa eleição, de acordo com Bolsonaro, “em que lutou contra tudo e todos”. O parlamentar finalizou sua postagem em rede social afirmando que “em 2018 será o Brasil no mesmo caminho”, deixando no ar a possibilidade de uma candidatura a presidente da república daqui há dois anos.

 

Panorama nos EUA

 Passeatas, protestos, confusão. Esse era o panorama dos Estados Unidos no dia seguinte às eleições norte-americanas. A vitória de Donald Trump não agradou aos chamados milennials, geração que sucedeu a denominada “Geração X”. Mas, se tanta gente era contra, como Trump foi eleito? Mesmo com Hillary ganhando disparado nas urnas populares, onde teve cerca de um milhão de votos a mais do que o adversário, valeu a votação do colégio eleitoral, composto por 538 votantes. Nesta votação, oficial, Hillary perdeu sua chance de comandar a maior democracia do mundo.

As manifestações aconteceram simultaneamente em diversas cidades, como Nova Iorque, onde cinco mil pessoas se aglomeraram na frente da Trump Tower com cartazes que diziam “Trump nao é meu presidente”. Chicago, Filadélfia e Los Angeles também tiveram atos contra o novo presidente. Mesmo com a promessa de uma política acirrada contra os imigrantes ilegais, a população hispânica da Flórida e vários estrangeiros residentes nos Estados Unidos votaram no magnata da construção civil. 

 

Um brasileiro em Vegas 

“Eu votei no Trump porque a família Clinton me parece corrupta e ele será melhor para o país. Ele abriu mão do salário de presidente porque não precisa dele”, explicou o estilista brasileiro Aldo Mencatto, que mora em Las Vegas e é radicado há nove anos nos Estados Unidos. O novo mandatário norte-americano é temido principalmente pelos imigrantes mexicanos. A proposta da construção de um grande muro na fronteira dos Estados Unidos com o México, nos moldes do Muro de Berlim, alarmou a todos. “A população mexicana de Las Vegas está muito apreensiva, pois há muitos imigrantes ilegais”, contou Mencatto. Segundo o brasileiro, foram os mexicanos que começaram a construção de um muro para evitar imigrações ilegais. “Foi construído na fronteira com a Guatemala e Belize”, acrescentou.

O radicalismo do presidente eleito arrefeceu e abrandou no primeiro encontro oficial com o presidente Barack Obama na Casa Branca. Nele, os dois apertaram as mãos e Trump solicitou a Obama sua colaboração após Trump assumir o cargo. Se é jogo de cena, humildade ou vontade de modificar rumos, o tempo dirá.