A Instrumentalização da Religião

O saudoso Millôr Fernandes (1923-2012) dizia: “Desconfie do homem que lucra com o seu ideal”. Lembrei dessa frase quando estava lendo o livro Religião e Política – medos sociais, extremismo religioso e as eleições 2014, uma parceria do Instituto de Estudos da Religião – ISER – e da Fundação Henrich Böll Brasil.

O livro analisa a primeira candidatura confessional evangélica à presidência da República, cujo candidato foi o pastor Everaldo Dias Pereira, do Partido Social Cristão – PSC -, e discute também outras duas candidaturas: de Anthony Garotinho, do Partido da República – PR -, e Marcelo Crivella, do Partido Republicano do Brasil – PRB. Autores do livro: a doutora em Ciências Sociais e mestre em Antropologia e Sociologia, Christina Vidal Cunha; Janayna de Alencar Lui, doutora em Antropologia Cultural, e Paulo Victor Leite Lopes, cientista social e doutor em Antropologia.

O pastor Everaldo foi o coordenador do Programa Cheque Cidadão, clientelismo evangélico no governo Garotinho. É membro da Assembleia de Deus – AD – de Madureira, Zona Norte do Rio, amigo de longa data do ex-deputado federal Eduardo Cunha, também evangélico, que deixou a Igreja Sara Nossa Terra e se transferiu para a AD de Madureira. Após ter sido eleito presidente da Câmara dos Deputados, em fevereiro de 2015, Cunha foi agraciado com o título de membro honorário da igreja de Madureira. ( Em março último, o ex-deputado foi condenado a 15 anos e quatro meses de prisão pelo juiz da Operação Lava Jato, Sergio Moro, pelos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão fraudulenta de divisas.)

A primeira atividade do pastor Everaldo na campanha foi uma caminhada pela favela e pelo bairro de Acari, Zona Norte do Rio. Depois foi presença fácil em eventos evangélicos e cultos em igrejas, fato que deixou à mostra a falta de estrutura do partido – que não dispunha de palanque nos principais colégios eleitorais do Brasil – e também, obviamente, do candidato.

Os debates entre os candidatos mostraram sua falta de preparo técnico e político. Era visível o seu desconforto diante de certas perguntas. Não raro, respondia de forma lacônica. Só sabia falar sobre família.

” Contrapondo-se ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, afirmou que a família que defende e que deve ser legalmente considerada pelo Estado é a que está na Constituição, que prevê o casamento apenas entre homens e mulheres. Do mesmo modo, faz parecer que sua perspectiva é inclusiva e respeitadora das demandas e posicionamentos sociais, mas em sequência, deixa transparecer que a questão do casamento igualitário estaria no mesmo hall de desvios morais que a realização de “gatonet” ( gatonet é o nome popular dado às ligações clandestinas de TV por assinatura ) Ou seja, se inicialmente ele argumenta que, na democracia brasileira, todos serão respeitados em seus direitos, a conexão estabelecida na continuação da resposta revela o posicionamento defendido pelos evangélicos no Congresso Nacional, que ainda hoje operam por uma retorsão dos argumentos, nos termos de Pierucci (1990). (Páginas 54 e 55, com explicação de pé de página) – Esse uso do argumento do outro adaptado à defesa de posições contrárias é identificado como um “efeito de retorsão” definido por Taguieff, segundo Pierucci (1990) como um contendor se coloca no terreno discursivo e ideológico do adversário e o combate com as armas deste, as quais, pelo fato de serem usadas com sucesso contra ele, deixam de pertencer-lhe, pois que agora jogam pelo adversário. A retorsão opera assim de uma só vez, uma retomada, uma revirada e uma apropriação-despossessão de argumentos: ela tem por objetivo impedir ao adversário o uso dos seus argumentos mais eficazes, pelo fato mesmo de utilizá-los contra ele (Taguieff, 1986b; Angenot, 1982), (Pierucci, 1990)

No meio evangélico mais politizado, o candidato do PSC, que de social não tem nada, muito menos de cristão, ficou conhecido como o candidato das bandeiras reacionárias, que defendeu com veemência. Entre elas, a redução da maioridade penal, oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, e a privatização. ” Vou privatizar tudo que for possível. Vou privatizar a Petrobras, uma empresa que foi orgulho nacional e hoje é foco de corrupção, com uma dívida de mais de R$300 bilhões” – disse o pastor em entrevista ao portal UOL.

Adepto da meritocracia e de discursos com viés moralista, preconceituoso e fundamentalista, a participação do candidato do PSC como candidato à presidência da República foi risível.

Só serviu para desgastar ainda mais a imagem dos pastores evangélicos perante a opinião pública.

Neste ano, por ocasião dos 500 anos da Reforma Protestante, talvez seja o momento para a realização de uma outra Reforma.