A “nuvenzinha” da deprê

– Bom dia, Horácio!!!

– … Jornalista… Por que você é tão otimista assim?

– Ora, desejar ‘bom dia’ não é simplesmente uma questão relativa a um posicionamento otimista perante a vida… Simplesmente é…

– Jornalista, para morrer basta estar vivo.

– A bem da verdade a equação da vida é essa mesmo. Mas não podemos pensar no final das nossas trajetórias. A vida é um ato contínuo. E olha só o sol que está fazendo lá fora, Horácio!

– Jornalista, está vendo aquela nuvenzinha lá do outro lado?

– Sim… Uma nuvem anã, linda, singela e inofensiva perdida na beleza do infinito…

– Pois ela irá encobrir o sol, acoplada a outra nuvenzinha, anexada a outra nuvenzinha, que irá parir outra nuvenzinha… E vai chover em diversas plataformas climáticas.

– Bom, a chuva é necessária para abastecer nossas reservas de água, irrigar o solo, lavar a alma…

Ilustração André Barroso

– Por outro lado transborda rios, alaga cidades, causa acidentes, prejuízos materiais…

– Vamos lá, Horácio! Qual é o motivo da deprê?

– Jornalista, qual é o motivo da sua euforia hiper realista?

– Vou preparar um café. Você está precisando de cafeína para despertar.

– Não preciso de café, necessito de caos.

– Caos? Por que?

– Porque há padrão no caos.

– E qual é a significância dessa sua tese?

– O caos organiza a bagunça implantada pela mídia oficial burguesa em meu complexo cerebral, levando à estafa meus sistemas complexos e dinâmicos, o que causa a instabilidade na minha capacidade não-linear de interpretar realidades refugiadas nos tambores da minha mente.

– Horácio, o que você anda lendo… Ou tomando??

– Jornalista, você não consegue perceber a maldade significativa que existe nas entranhas daquela nuvenzinha que agora me atormenta. Ela foi parida pelo acaso mas pode, a qualquer momento, ser desmascarada por equações matemáticas.

– Como você pode desenvolver esse emaranhado ilógico na cebeça?

– A minha cabeça é um canteiro de obras. Um sistema dinâmico, complexo e adaptativo, ao contrário do seu ‘cabeção’ pragmático de jornalista.

– Olha, Horácio! Veja! A nuvenzinha está se dissipando! Vai fazer sol o dia inteiro, meu amigo!

– Engano seu. Ela é cínica e dissimulada. E consegue enganá-lo como se fosse uma mulher.

– Peraí, Horácio! Mulher não me engana não!

– Mas e aquela nuvenzinha linda e singela, Jornalista?

– Hummm… Ela parece ser cínica mesmo… Horácio!

– Sim. Estou ouvindo.

– Tá me dando uma coceira no nariz. Acho que vai chover.

– Por que você ficou tão pessimista assim, Jornalista?

– Porque para morrer basta estar vivo. E eu estou vivo, portanto, sou um morto em potencial.

– Caro amigo sorumbático e macambúzio Jornalista… A equação da vida é essa mesmo… Mas, por enquanto, olha só que sol bonito está fazendo lá fora…