A voz que vem do cárcere

Por Ricardo França

O direito penal do indivíduo é justo quando o detento é um traficante, acusado de assassinatos? Esse tema é o fio condutor do livro “Marcinho, Verdades e Posições. O Direito Penal do Inimigo”, de autoria do traficante Marcio Santos Nepomucemo e do jornalista Renato Homem. A obra, polêmica, que expõe os pontos de vista de um bandido, será lançada neste sábado, dia 21, às 10h, na quadra da Gres Estação Primeira da Mangueira. A publicação é da Editora Gramma, 358 páginas, será vendida por R$ 29,90.

Um dos chefes da facção criminosa Comando Vermelho, preso há 21 anos, Márcio, atualmente com 41 anos de idade, cedo entrou para o mundo do crime. Foi preso aos 20 anos de idade, em agosto de 1996. A sua casa passou a ser uma cela úmida em Bangu 1. Atualmente, reside numa cela de segurança máxima num presídio federal, em Mossoró. Renato Homem escreveu o livro a partir de 200 cartas escritas por Marcinho VP, durante dois anos.

Todas as cartas tiveram que passar pelo crivo do Serviço de Inteligência do presídio, para, então, serem repassadas à Homem. O jornalista, nesse período, teve cinco contados pessoais para entrevistas com Marcinho VP, com cerca de três horas cada, através de um vidro de segurança, no parlatório da prisão. Marcinho foi condenado a 34 anos de prisão por um duplo homicídio que ele nega ter cometido.

O criminoso revela uma nova versão para a execução do jornalista Tim Lopes, em 2002, e tece críticas ao estado e ao Sistema Penal. Elogia a Operação Lava-Jato e o juiz Sérgio Moro.Critica o ex-governador Sérgio Cabral, preso por corrupção e formação de quadrilha, a quem chama de “traidor”, e critica as UPPs.

Segundo uma investigação da Polícia Civil, Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, chefe do tráfico na Rocinha, só foi aceito na facção de Marcinho, com a sua permissão.

“Sei que ter escrito um livro dando voz a um criminoso me deixa sujeito a críticas e ao preconceito, inclusive de colegas jornalistas. Mas a obra não é uma biografia e lança luz sobre a real recuperações de apenados no país”, salienta Renato.

Abaixo, segue um depoimento do jornalista a respeito do trabalho.

DEPOIMENTO

Por Renato Homem

“O Direito Penal do Inimigo é em resumo um grito contra aquilo que Marcio Santos Nepomuceno considera como injustiça. Minha participação no projeto começou em fins de 2015, quando fui procurado por um dos seus advogados,que me conhecia da época em que frequentei delegacias como repórter de polícia.

Ajudar na concretização desse projeto, que já se arrastava por cerca de dez anos, foi muito gratificante, porque, além de permitir que eu mergulhasse num universo desconhecido, me fez refletir sobre a força do sistema.

Marcio está com 41 anos, 21 deles preso, distante do mundo externo, e ainda assim consegue se manter lúcido o bastante para produzir um livro que, ao meu ver, possui um conteúdo instigante, por retratar um universo desconhecido das pessoas.

Atravessar metade da vida atrás das grades deixa marcas profundas, a maioria delas irreparáveis, mas também proporciona um conhecimento que o autor demonstra ter absorvido no cárcere.

Marcio não se faz de vítima, admite seu erros passados, mas aponta as incongruências de um sistema decadente, abatido pela corrupção e que insiste em promover a cultura do encarceramento, tão penosa para os milhares de jovens, a maioria flagelada, oriunda de famílias desestruturadas, que dificilmente conseguirão se reabilitar ao final de suas penas.

Escrever o livro foi prazeroso, pois nos permitiu conhecer as entranhas do universo de uma pessoa que vive uma realidade dificilmente experimentada por qualquer um de nós.

Marcio é lúcido e dono de uma memória que eu adjetivaria como prodigiosa ao extremo. Pai de seis filhos e casado há pelos menos 20 anos com a mesma mulher faz do autor uma pessoa no mínimo diferente. Diferença essa que, sem dúvida alguma, ao meu ver, atrairá as pessoas a conhecer mais profundamente aquilo que pensa o autor.”

Renato foi um dos principais jornalistas de sua geração

​Formado em Comunicação Social pela Universidade Estácio de Sá, Renato Homem de Almeida Neto, tem vasta experiência e passagens por redações de jornais e em assessoria de imprensa. Foi repórter especial e chefe de reportagem do jornal O DIA, na década de 80, e repórter da Editoria Rio, do Infoglobo (O Globo e Extra). Renato também atuou como editor/repórter do site LANCEBizz, produto do Jornal LANCE, com enfoque em marketing esportivo. E diretor da agência Teclas&Textos Comunicação Ltda.

Na política coordenou a assessoria de imprensa do PR, durante as eleições majoritárias de 2014. De setembro de 2012 a janeiro de 2013, trabalhou como assessor do comitê de imprensa do então candidato do PT à Prefeitura de Niterói, Rodrigo Neves. Em 2008, integrou o comitê de imprensa da campanha da então candidata Jandira Feghali (PCdoB) à Prefeitura do Rio de Janeiro.

Em 2002, fez parte do Comitê de imprensa da campanha do PSB à Presidência da República. Em 2007 e 2008 foi responsável pelo gerenciamento de conteúdo do blog do ex-governador e deputado federal, Anthony Garotinho, e fez parte do Comitê de imprensa do PMDB (RJ) durante as prévias para a escolha do candidato à Presidência da República, em 2005.

Nas eleições de 2010, exerceu a função de assessor de Imprensa do Partido da República (PR/RJ) e do candidato ao Governo do Estado do Rio de Janeiro, Fernando Peregrino. Renato homem também teve passagens pela assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (SEAP/RJ). De 2002 a 2006 foi coordenador de produção da Secretaria de Comunicação Social do Governo do Estado do Rio de Janeiro e assessor de imprensa da Secretaria de Estado de Segurança Pública do Rio de Janeiro.

O autor, entre agosto a dezembro de 2015, coordenou a comunicação da Chapa Branca durante a campanha presidencial do Clube de Regatas do Flamengo. Na academia, entre maio de 2010 a abril de 2012, foi professor do curso de Pós-Graduação de Comunicação Empresarial da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).