‘Baile’ de Tóquio faz 35 anos

Zico com a taça do mundial no flamengo. foto: Divulgacao

De Solidarário, por Kleber Vieira, com colaboração de Paulo Cesar Soares

Publicado em 12 de Dezembro de 2016

Em 13  de dezembro de 1981, o poderoso time do Liverpool, base da seleção da Inglaterra e campeão da Copa da Uefa (atual Champions League) perfilava ao lado do Flamengo, vencedor da Taça Libertadores da América, no acesso ao campo do estádio Nacional de Tóquio. A expressão dos integrantes do time inglês era de altivez, até de uma certa arrogância, diante da desconhecida – para eles – equipe brasileira.

Mas bastaram 45 minutos, para que a empáfia dos súditos de ‘Sua Majestade’ se rendessem ante o poderio ofensivo e o repertório de jogadas do Flamengo. O placar registrava 3 a 0, gols de Nunes (2) e Adílio, e o Liverpool estava tonto, de tanto rodar, sem sucesso, atrás de Zico & Cia.

Os japoneses, que viam, em seus domínios, a importante decisão de um título entre duas equipes de fora, estavam felizes. A organização distribuiu bandeirolas dos dois times. Mas ao final, somente uma delas foi sacudida freneticamente pelos nipônicos; e um jogador teve seu nome gritado e ovacionado: “Djico! Djico!”. O camisa 10 Zico deu passe para os três gols do Flamengo, e foi eleito o melhor em campo.

Aula de futebol

De volta ao Brasil, os jogadores foram recebidos pela torcida no aeroporto e desfilaram em carro do Corpo de Bombeiros até a sede da Gávea. Enquanto isso, na Inglaterra, os vice-campeões do Liverpool, tendo à frente o capitão Souness e o astro escocês Kenny Dalglish, diziam aos incrédulos jornalistas britânicos, que tiveram “uma aula de futebol”. Segundo eles, este jogo foi o marco para que ‘os reds’ retomassem o rumo das vitórias e dos títulos – estavam em baixo na tabela, mas foram os campeões da temporada local.

Para celebrar

Nesta terça-feira, o Flamengo vai comemorar a data com uma festividade e no Centro de Treinamento George Helal, mais conhecido como Ninho do Urubu, em Vargem Grande, na Zona Oeste. Haverá uma série de homenagens aos jogadores que escreveram a página mais importante da história rubro- negra. Eram dez formados na base (sete titulares), entre eles, Adílio, que fala daquele dia, com muita emoção.

“O Liverpool era famoso e muito bom, ganhou quase tudo na Europa, e os jogadores viam a gente com certo desprezo. Nós fizemos o jogo ficar do nosso jeito, eles foram sendo envolvidos e os gols vieram. Com 3 a 0, a gente só administrou. Quando fui para Tóquio, disse lá, na Cruzada São Sebastião, onde nasci e fui criado, que voltaria campeão mundial. O pessoal ficou acordado, o jogo passou de madrugada. E foi a maior alegria, quando eu voltei: o garoto que pulou o muro do Flamengo, para tentar jogar futebol, agora era campeão mundial! Foi a maior alegria”.

Adílio ainda faz um agradecimento importante.

“Não posso esquecer que o ‘capitão’ Claudio Coutinho foi o nmentor disso tudo, ele programou que em dez, 15, 20 anos a gente ganharia o Mundial. Botou isso na nossa cabeça, e agora, 35 anos, estamos comemorando. Até hoje, fico emocionado, passam os lances daquele jogo… e até mesmo o Liverpool se lembra dessa data. Eles dizem que lá também passam aquele jogo como uma referência. Para nós, aqui, é festa”, disse Adílio, que torce para que o Flamengo, de volta à Libertadores, possa repetir aquela façanha e disputar o Mundial.

Segundo Zico, desde a conquista do Campeonato Brasileiro, em 1980, eles tinham claramente o fato de valorizar todas as competições que disputaram.

“Enquanto a gente não havia vencido um Brasileiro, na época, se falava muito que o melhor era ganhar outro Carioca. Depois que fomos campeões brasileiros, tomaram o gostinho. Aí, foi uma sucessão: brasileiro, Libertadores, Mundial, e o Flamengo, pela repercussão que tem na mídia, é lógico que deu uma guinada importante para a valorização dessas competições. Aí, virou objetivo de todos, a frase ‘rumo a Tóquio’, que o Flamengo usou”.

O Galinho, que foi o melhor jogador e, por isso, ganhou um carro da patrocinadora Toyota, sempre fala com carinho daquele título.

“É a maior conquista, a mais importante e, com logicamente, a gente se emociona. Mas não temos só de viver das emoções passadas. É bom claro, mas é preciso que o Flamengo possa formar outras equipes que possam chegar aonde nós chegamos, jogadores comprometidos e que possam sonhar com uma conquista dessa grandiosidade”.

Os campeões mundiais

Time: Raul Leandro, Marinho, Mozer e Júnior, Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Técnico: Paulo Cesar Carpegiani.

Reservas: Cantarelli, Figueiredo, Peu, Anselmo, Nei Dias e Baroninho.

36 anos do Baile de Tóquio- Título Mundial do Flamengo
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Onde você estava?

 

Antonio Augusto Dunshee de Abranches (presidente em 1981)

Ex presidente de 81 antonio augusto dushee de abrantes. Foto de Gilvan de Souza/Lancepress –

“Eu estava em Tóquio e levei meus filhos todos para lá. Foi uma emoção incrível! Sempre fui um dirigente amador, então aquilo ali, me criava uma sensação de vitória, de grandes coisas. Agora, com 80 anos, sou um torcedor de carteirinha.

Hoje Temos um novo Flamengo, que pensa para a frente. Sou muito agradecido ao pessoal que está lá, ao presidente (Eduardo Bandeira de Mello), que é uma pessoa excelente.”

Eduardo Bandeira de Mello (presidente atual)

“Eu tinha 28 anos, estava vendo o jogo em casa (no Rio), e não podia nem pensar em ir para o Japão, primeiro, porque eu não tinha dinheiro, depois porque minha mulher estava grávida e viu o jogo comigo. Começou à meia-noite, terminou às 2h da manhã e, é claro que eu não consegui mais dormir. O jogo foi tão fácil que não deu nem para chutar o balde, com 3 a 0, terminou o primeiro tempo eu já comecei a comemorar. Estou comemorando até hoje”.

Marcelo Gorodicht (publicitário/Agência X-Tudo)

“Eu estava em Tóquio. Tinha exatamente 20 anos, estava duro e vendi o carro para poder comprar a passagem e ir para o Japão. Foi muito louco. Primeiro, porque foi uma viagem pobre, cheia de emoções no caminho, e muito engraçada. Naquela época, os japoneses não entendiam nada de futebol. Para eles, Brasil futebol e samba eram a mesma coisa. Tipo, o cara cobrava um tiro de meta, eles aplaudiam como se fosse um gol. Era uma coisa totalmente louca. Foi,a te então, o melhor primeiro tempo da história do futebol mundial, foi espetacular! Foi o time dos sonhos. No final, juntamos os brasileiros que estavam lá, os japoneses caíram na nossa alegria, ali começou a idolatria deles ao Zico, muito legal… muito legal!”

Ficha técnica

Data: 13 de Dezembro de 1981

Local: Estádio Nacional – Tóquio – Japão

Público: 62.000 pessoas

Árbitro: Rúbio Vazques (Mex)

Gols: Nunes, aos 13min, Adílio, aos 34, e Nunes 41min do primeiro tempo.

Flamengo: Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Andrade; Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Técnico: Paulo César Carpegiani.

Liverpool: Grobbelaar; Neal, R. Kennedy, Lawnson e Thompson; Hansen, Dalglish e Lee; Johnstone, Souness e McDermott (Johnson). Técnico: Bob Paisley.

Curiosidades (fonte: Flamengo)

Fuso horário

A adaptação ao fuso horário foi gradativa. Uma semana antes da decisão, o Flamengo passou uma semana em Los Angeles, Estados Unidos, para melhor se adaptar ao fuso horário japonês.

Treinar pra quê?

No período de adaptação ao fuso-horário, nos Estados Unidos, os jogadores do Flamengo foram liberados para irem até a Disney conhecer os parques e os personagens de desenhos animados.

Lua de mel

O único jogador a não ficar junto com o time no período de adaptação, nos Estados Unidos, foi Adílio. Como havia se casado dias antes, o camisa oito curtiu sua lua de mel e, no dia do embarque para o Japão, encontrou-se com o elenco no aeroporto de Los Angeles. Ele e Zico foram os únicos que viajaram com as esposas para o Mundial.

Goleada

A vitória do Flamengo diante do Liverpool é o maior placar de uma final de Mundial Interclubes desde que os times passaram a jogar em campo neutro (pós 1979). Inter de Milão, em 2010, Estrela Vermelha, em 1991, e Milan, em 1990, também venceram seus jogos por 3 a 0. No entanto, nenhum deles ‘matou’ o adversário no primeiro tempo como o  Flamengo de 1981.

O craque

Zico foi o primeiro brasileiro a levar o prêmio de melhor jogador do Mundial Interclubes. A eleição passou a ser feita em 1980.

Risadas

Apesar de muito disse me disse, os jogadores do Flamengo esclarecem que entenderam, e bem, as risadas dos adversários do Liverpool, tanto na hora em que chegaram ao estádio quanto no momento de entrar em campo. De acordo com eles, os ingleses apenas estranharam a tranquilidade rubro- negra e a corrente feita antes de pisar no gramado. Nada demais, mas o suficiente para entrar no hall dos mitos do futebol.

Convidado especial

O atacante Anselmo, que foi expulso no último jogo da Libertadores ao entrar em campo e dar um soco em Mario Soto, foi ao Japão como convidado mais que especial da delegação rubro-negra. E não foi por nenhum motivo técnico.

O cartão vermelho recebido diante do Cobreloa impedia o jogador de estar presente na decisão do Mundial.

Hino do título

Acostumados a fazerem suas batucadas antes e depois das conquistas, os jogadores do Flamengo saíram do estádio, com as taças do Mundial, cantando o samba da Portela de 1981: “Das maravilhas do mar, fez-se o esplendor de uma noite”

Junior, que é mangueirense, comandava o ‘bloco’ com o pandeiro, seguido de Zico (que é Beija-Flor), com tamborim e Adílio, com chocalho.