Boa Esporte contrata Bruno

Boa Esporte contrata Bruno
Boa Esporte contrata goleiro Bruno

Por solidário, de Kleber Vieira

Publicado em 14 de Março de 2017

Desde que anunciou a contratação do goleiro Bruno Fernandes, o Boa Esporte Clube, de Varginha, Minas Gerais, passou a ser alvo da reação contrária da opinião pública, como noticiado amplamente pela mídia. Clube de pouca expressão no cenário nacional, o Boa, que joga a Série C do Campeonato Brasileiro, dá chance do primeiro trabalho ao jogador, que acabara de sair da prisão, em contagem, onde cumpria pena pelo assassinato da modelo Eliza Samúdio.​

Muitos se questionaram por quê?

Para o presidente do Boa Esporte Clube, Renê Moraes da Costa, o goleiro é um jogador livre e o clube tem direito de contratar quem quiser. Na página oficial, o dirigente defende essa prerrogativa e diz ser uma ação para reintegrar um ser humano à sociedade.​

“O Boa reitera que sua postura é a favor da reintegração social e que o goleiro Bruno merece uma nova oportunidade como profissional. O clube não tem relação com as ações pessoais de Bruno, tampouco com seu passado, tendo contratado somente o profissional. Diante desses argumentos podemos afirmar que o Boa Esporte Clube não foi o responsável pela soltura e liberdade do atleta Bruno, mas o clube e sua equipe, enquanto empresa e representada por seres humanos, dotada de justiça e legalidade, podem dizer que tentam fazer justiça ajudando um ser humano, mais, cumprem a legalidade dando trabalho a quem pretende se recuperar. O Boa Esporte Clube não esta cometendo nenhum crime conforme a legislação Brasileira e perante a lei de Deus”.

​Mas há quem enxergue um oportunismo e uma grande jogada de marketing. Intencional ou não, aConstatação é a de que o inexpressivo Boa Esporte Clube foi um dos mais comentados na internet, nas redes sociais e na imprensa. O uniforme do clube passou a ser procurado nas lojas de Varginha, cidade

mais conhecida pela suposta aterrissagem de um disco- voador, trazendo um ser extra-terrestre – há, Inclusive uma estátua de um ET na praça principal de Varginha.​

Graças à conturbada contratação de Bruno, o clube mineiro é citado com destaque no noticiário Esportivo,justamente na semana em que grandes equipes brasileiras, como Flamengo, Botafogo, Palmeiras e Chapecoense, entre outras, jogam pela Copa Libertadores da América, competição mais importante do continente. Se era jogada de marketing, foi bem-sucedida.​

Efeito colateral

Mas se trouxe mídia, a chegada de Bruno se revelou uma grande dor de cabeça para o Boa, que viu a debandada de seus principais patrocinadores, inclusive o fornecedor de material esportivo. O Grupo Gois e Silva pediu a retirada de suas marcas das camisas, redes sociais e canais de comunicação. Mas como não dá para limpar o uniforme de uma hora para a outra, houve um acordo para o clube apresentar, em um período determinado, a na camisa sem as marcas.​

“o Bruno fica triste, mas tem certeza de que virá um (patrocinador) máster melhor do que o que saiu”, disse Lucio Mauro, empresário do jogador.​

Nada normal

Mas se todos se esforçam para mostrar que a rotina de Bruno é a de um jogador normal, a presença de uma viatura policial ao primeiro treino mostrou que a normalidade passava longe dali. Conforme relatado pelo jornalista Leslie Leitão, repórter especial da revista Veja, o carro em que o goleiro foi levado ao CT do Boa Esporte teve, de longe, a escolta da viatura de número 20847, do 24º Batalhão da Polícia Militar de Minas Gerais, sob o comando do tenente Barros.​

Na matéria, o jornalista – que escreveu o livro Indefensável*, sobre a morte de Eliza Samúdio – contou que um dos dirigentes, Rildo Moraes, cochichou com um policial para que deixasse o carro com Bruno ir mais à frente, para não parecer que ele estava sendo escoltado ao Centro de Treinamento, que em tempos remotos, era o campo do Flamengo de Varginha.​

“Depois, vocês vão mais atrás”, disse o dirigente.​

Perguntado pelo site da Veja, se era necessária a escolta, o empresário de Bruno, se esquivou.​

“Isso é com o clube. Decisão deles aí… Não temos nada a ver com isso. A recepção ao Bruno das pessoas na cidade está sendo ótima”, disse Lúcio Mauro à Veja.​

Coletiva concorrida

Nesta terça-feira, pela manhã, Bruno concedeu sua primeira entrevista coletiva como jogador do Boa Esporte Clube. A presença de jornalistas foi grande, mas a assessoria de imprensa tratou de blindar o jogador, proibindo perguntas sobre o crime pelo qual ele foi sentenciado a 22 anos, mas que vai responder em liberdade, até o julgamento do recurso em segunda instância.​

Já na primeira pergunta, “se achava digno voltar a vestir a camisa de um clube” a recusa.​

“Eu não vou te responder”, enfatizou o goleiro.​

À pergunta seguinte, respondeu mais tranquilamente, sobre o sentimento que tinha por voltar a jogar:

“Estou muito feliz pela oportunidade dada. Eu venho me preparando há alguns anos. As pessoas correm de mim pelo que aconteceu no passado. O Boa está abrindo as portas. Estou muito feliz, motivado. Agradeço a vocês por estar aqui. Deus está abrindo as portas para a gente. Tenho certeza que é Deus”.​

Bruno cita Edmundo

Sobre a pressão que vai encontrar de torcedores contrários à sua volta aos campos, Bruno respondeu citando o ocorrido com o ex-jogador e hoje comentarista Edmundo, que passou ao parte da carreira sendo chamado de ‘assassino’, por ter dirigido embriagado e provocado um acidente, ocorrido em dezembro de 1995, em que houve três vitimas fatais, ferimentos em outras três, com lesão permanente em uma delas. Condenado a três anos e seis meses de reclusão, Edmundo chegou a ser preso em 2011, mas não passou mais do que algumas horas na cadeia.​

“Eu pego alguns exemplos do passado, meu caso não é único. Tive colega de profissão, que passou por uma situação como essa a carreira toda. O Edmundo, assim como outros cantores, artistas, pessoas públicas, que passaram por isso, superaram e venceram… assim espero que seja a minha trajetória também. A pressão sempre vai existir, ela vai existir sempre. E se eu não estiver preparado para essa pressão, eu posso levantar daqui e ir embora”.​

*Indefensável – livro escrito pelos jornalistas Leslie Leitão, Paula Sarapu e Paulo Carvalho