Carnaval aquece a economia criativa

Do Solidário, por Manoel Tupyara e Daniele Fernandes

Publicado em 23 de Dezembro de 2016

Responsável, todos os anos, por uma receita milionária quase sempre aboncanhada pelo Poder Público e iniciativa privada, o Carnaval começou também a ser fonte geradora de uma economia solidária ligada às principais estrelas do “maior espetáculo da Terra”, as escolas de samba.

Centenas de pessoas de comunidades carentes têm também conseguido trabalho e renda durante todo o ano por meio da principal festa popular do País.

A Associação de Mulheres Empreendedoras do Brasil (Amebras), fundada pela empresária Célia Regina Domingues em 27 de maio de 1998, é uma entidade sem fins lucrativos para beneficiar prioritariamente pessoas do sexo feminino, mas que atualmente atende indivíduos do sexo masculino. Sem distinção de raça e religião.

Tudo surgiu do encontro entre 17 amigas que faziam mensalmente um almoço de confraternização,  quando conversavam sobre vários assuntos, inclusive a falta de mão de obra qualificada para as empresas, a necessidade de matérias primas mais em conta e altos impostos. Depois de muito debate foi criada a Amebras. No primeiro ano de existência a Amebras qualificava as pessoas para o comércio, indústria e escritórios e, depois visualizou o Carnaval.                   

O grupo viu na indústria da folia a saída para qualificar o pessoal, moradores das comunidades, que desfilam nas agremiações, independentes delas serem grandes ou pequenas. Vivem no entorno das quadras das Escolas de Samba e são as pessoas mais carentes e necessitadas.

A Estação Primeira de Mangueira foi a pioneira na visão empresarial. “Na Mangueira, quando o Elmo foi presidente, nós fizemos toda uma reformulação administrativa na escola para que ela pudesse se levantar, ressurgir das cinzas, porque  estava falida. Fiz um projeto administrativo para a escola, o Elmo e a diretoria aprovaram, e a gente tocou. Em 1995, quando o Elmo assumiu a escola, ela estava quebrada e as escolas todas não tinham uma visão empresarial, empreendedora, as direções não tinham projeto de gestão. A Mangueira foi pioneira, por quê? Porque o Elmo tem uma visão e eu como esposa dele    assumi um cargo na escola como vice-presidente social na minha área administrativa. Colaborei com o meu conhecimento. Então, existe uma Mangueira antes, e uma depois do Elmo e existem escolas estruturadas a partir da Mangueira”, explica Célia Domingues.

Depois da escola do coração foi a vez de viajar pelas coirmãs e oferecê-las qualificação. Célia foi pelas quadras das escolas de samba fazendo uma capacitação, para que as pessoas pudessem trabalhar nos barracões. E depois avançou um pouco para que se tornassem realmente profissionais da economia e da indústria do carnaval. Viu cidadãos sem capacidades, sem empregos e  qualidade de vida.


A Amebras não tem recursos públicos, mas durante algum tempo teve parceria com os governos municipal, estadual e federal. Contou também com o apoio de empresas privadas. Fez um projeto administrativo para ficar autônoma e criou um núcleo que denomina negócios e oportunidades. Esse processo é composto pelas atividades de workshop, palestras de motivação profissional, produção de figurino para teatro, elabora festas temáticas, realiza capacitação e consultorias em outros estados e ministra aulas para grupos de empresários. Criou também linhas de souvenirs de carnaval e de escolas de samba que pagam todos os artesões, que são os fornecedores, cuja margem de lucros é revertida para a instituição. Têm hoje seis funcionários com carteiras assinadas e abriga também estagiário.

A entidade tem uma rede de artesões que trabalham em casa. 70% do público da Amebras são mulheres. Porque elas têm múltiplas jornadas, trabalham, cuidam e educam. E tem aquelas que não podem sair de casa por uma série de motivos. A Associação tem uma rede de quase 4.000 artesões produzindo em casa de onde ganham a sua renda principal.   A empresa qualificou 28.000 profissionais em 18 anos. Em 2010 a Amebras teve 72% dos qualificados profissionais inseridos no mercado de trabalho.

A presidente da Amebras nasceu na comunidade da Mangueira, desfila na escola de samba desde os oito anos. Já passou por vários seguimentos da agremiação e é conselheira benemérita da Estação Primeira.  Atualmente, está ajudando o departamento cultural da escola, revitalizando o Centro de Memória, resgatando muito material.               

Aos 59 anos, é mãe de três filhos. São eles; Rodrigo Domingues de 35 anos, que é produtor de eventos, Wallace Souza, de 34, passista e também coreógrafo de um grupo da Mangueira, e o caçula Elmo Jr., de 17, que é ritmista da Mangueira do Amanhã e se prepara para passar para a escola mãe.

Os filhos são incentivadores e admiradores do trabalho da gestora. Eles não nasceram no morro, mas sempre participaram dos projetos da comunidade.

Elmo dos Santos, ex-presidente da Mangueira (1995 – 2001), hoje diretor de carnaval da Liesa, é um torcedor do trabalho da Amebras. Indiretamente,  Elmo contribui para o fortalecimento da Associação.

A presidente da Amebras tem formação superior em Administração de Empresas e já ocupou cargo de secretária executiva na empresa Leite de Rosas. Foi proprietária da Quartzo Confecções de Uniformes, quando deu por encerrado as suas atividades, criando assim a Amebras.

A pesquisadora de Cultura brasileira e Carnaval e doutora em Filosofia Helena Theodoro, diz que “Célia foi especialista na arte do Carnaval. Tenho uma admiração grande pelo trabalho da Célia. Participo da Diretoria da Amebras sempre que tem alguma conferência. Ela começou trabalhando com uniformes, mudou a concepção, fazendo com que as pessoas se orgulhassem da roupa que estavam vestindo. Como presidente da Amebras deu oportunidade às pessoas que não tinham qualificação a se profissionalizarem e com isso ingressarem no mercado de trabalho” – ressalta.

Colaborou com produções dos figurinos e alegorias do show de abertura dos XV Jogos Pan Americanos de 2007, e também participou do encerramento das Olimpíadas de 2016, ambos assinados pela carnavalesca Rosa Magalhães. Contou com uma equipe de 220 artesões que confeccionaram 2.060 peças dos 33 figurinos da cerimônia.

A instituição tem uma rede de artesões que trabalham em casa. 70% do público da Amebras são mulheres. Porque elas têm múltiplas jornadas, trabalham, cuidam e educam. E tem aquelas que não podem sair de casa por uma série de motivos. A Associação tem uma rede de quase 4.000 artesões produzindo em casa de onde ganham a sua renda principal.   A empresa qualificou 28.000 profissionais em dezoito anos. Em 2010 a Amebras teve 72% dos qualificados profissionais inseridos no mercado de trabalho. “Eu fico muito feliz que minha comunidade me vê como referência, como as pessoas falam: case de sucesso. Não é que seja um case de sucesso, na verdade eu venci, eu transpus barreiras e venci desafios. Mas eu não fiz isso sozinha. Na minha época, lá na Mangueira,  fazia parte de um grupo muito pequeno, que conseguia se destacar através do trabalho, do estudo, do crescimento e tal. Mas, hoje não! Hoje tem muita gente boa, tem muita gente que não só seguiu este caminho, mas também sempre teve boa cabeça e tinha projeto de vida e toca bons projetos. Graças a Deus a minha comunidade me vê como eu gosto de ser vista: como um deles. Embora não more mais lá, eu sou de lá, então,  faço parte daquela comunidade, sou um deles e eles me veem dessa forma. Uma  pessoa que gosta de somar, uma pessoa solidária,uma pessoa que gosta de estar com todo mundo na comunidade. Quando sai da favela não foi nenhuma discriminação, mas a gente quer sempre melhorar. Mas a tia Célia como referência é maravilhoso, me faz bem e enriquece o espírito”- conclui, satisfeita.