Chacrinha: Um guerreiro incomparável

Chacrinha apresentando seu programa de calouros e Rita Cadilac .

Não importa se você curte ou não programas de auditório, o fato é que Chacrinha é um mito, que dia 30 de setembro completaria 100 anos. Este pernambucano da cidade de Surubim começou sua carreira como comunicador no rádio, mas foi na televisão que ele fez história com seus bordões inesquecíveis: “Alô, alô Terezinha!” e “Quem não se comunica se trumbica!”

Teve uma infância difícil, morou com sua família em algumas cidades grandes do nordeste como Campina Grande e Recife e aos 19 anos conseguiu ingressar na faculdade de medicina. Além de estudante, trabalhava como locutor da Rádio Club Pernambuco e foi baterista do Bando Acadêmico do Recife, mas uma cirurgia do apêndice mudou a trajetória da sua vida.

Após a convalescência da operação, Chacrinha foi convidado para trabalhar como baterista num cruzeiro pela Europa, mas com o começo da II Guerra Mundial, acabou desembarcando no Rio de Janeiro onde trabalhou em várias emissoras e começou a carreira de locutor na Rádio Tupi.

Durante a época de ouro do rádio, os programas noturnos tocavam boleros e lia-se poesias, que segundo Chacrinha, estes programas colocava a audiência pra dormir e ele inventou um pra acordar o povo. Chacrinha lançou em 1943 na Rádio Clube de Niterói o programa de marchinhas de carnaval “Rei Momo na Chacrinha”, o título do programa se deve ao fato que a emissora ficava numa chácara. E durante o seu horário, as buzinas e sirenes eram tocadas frequentemente a ponto de ganhar fama como o “louco de Niteroi”. O carnaval acabou, mas o programa continuou com o nome “Cassino do Chacrinha”, em que apresentava os grandes cantores da época, dentre eles “Estúpido Cupido” na voz de Celly Campello. Devido ao grande sucesso do seu trabalho nas emissoras, Abelardo foi “batizado” de Chacrinha.

“Na televisão nada se cria, tudo se copia”

Dá pra imaginar o diretor de uma emissora de televisão vendo um apresentador de programa dizer que nada se cria na tv, que tudo se copia? O apresentador adaptou para a televisão todas as maluquices que ele fazia no rádio para frente das câmeras. Apesar da total informalidade e até um certo caos, a audiência era cativa e o sucesso garantido.

Se no rádio ele atiçava a imaginação dos ouvintes com sua irreverência e sonoplastia, na televisão conquistou o público como ninguém, servindo de inspiração para outros apresentadores até hoje. Foi nesta época que ele lançou o bordão ” Alô, alô Therezinha!” e a plateia respondia: “uh hu!”

Nas inúmeras entrevistas que concedeu ao longo de sua trajetória, Chacrinha explicava que nos tempos em que trabalhou no rádio, o programa era patrocinado pela água sanitária Clarinha. E ele percebeu que a audiência gostava quando ele dizia o bordão com o nome do produto. Quando ele foi pra tv, não existia mais a Clarinha, então ele adaptou para Terezinha.

Chacrinha começou na Rede Tupi em 1956 com o programa Rancho Alegre onde interpretava o xerife. Entre as décadas de 60 e 70, ele percorreu várias emissoras como TV Excelsior, TV Rio,TV Bandeirantes e Rede Globo sempre com o mesmo estilo de programa apresentando calouros e cantores consagrados, além dos concursos mais inusitados desde a mulher mais bonita até a pessoa que conseguisse ficar debaixo d´água por mais tempo. E por incrível que pareça, no começo de sua carreira televisiva, ele apresentava os programas de terno e gravata, mas o “menino levado da breca” resolveu mudar o figurino, e aí ele vai para o trono ou não vai? Ele foi.

Chacrinha se fantasiava de tudo o que se possa imaginar: baiana, noiva, mulher maravilha e sempre acompanhado de sua implacável buzina, que era o verdadeiro terror dos calouros. O uso do apetrecho foi inspirado no Harpo, um dos irmãos Marx. Além da buzina, tinha o troféu abacaxi e Russo, o seu assistente de palco, que não parava com o microfone a ponto dos candidatos fazerem uma ginástica pra conseguir cantar.

Segundo o escritor Denilson Monteiro, um dos autores da biografia sobre Chacrinha, o apresentador tinha a cultura popular como fonte inspiradora e não se colocava acima do público, sabia como ninguém o que sua plateia queria e como agradá-la. Ele foi também uma grande fonte inspiradora para os tropicalistas, que assim como Chacrinha faziam uma geleia geral misturando o chique com o popular. Apesar da grande audiência, ele foi muito criticado pelos intelectuais brasileiros, que o menosprezavam por conta da “bagunça” que eram os seus programas, mas bastou o filósofo francês Edgar Morin classificá-lo como fenômeno da comunicação de massa, que passou a ser olhado de outra maneira. E na década de 80 ele foi convidado para dar uma palestra no 2º Congresso Brasileiro de Psicanálise, isto nem Freud explica, mas como diria o próprio Chacrinha: ” Eu não vim pra explicar, eu vim para confundir!”

Neste seu jeito único de comunicador, o lançamento de gêneros alimentícios para o público se tornava um show a parte. Sobre este fato, há algumas curiosidades: a namorada do patrocinador do programa era a secretária de palco do Chacrinha e ele pedia para que ela furasse os sacos de farinha de trigo, assim ao jogá-los em cima da plateia, a bagunça ficaria completa. E numa outra ocasião, um estoque de bacalhau encalhou e Chacrinha adorou a ideia dopatrocinador, que era dono de um supermercado, que sugeriu de jogar o bacalhau pra plateia e isto agradou em cheio.

Sem espaço para censura

A anarquia era a sua marca registrada e por mais que o programa tivesse um roteiro, os clássicos bordões eram criações dele que saiam de improviso e para completar o cenário, ele esbanjava suas frases de duplo sentido na companhia das Chacretes, apelidadas com nomes exóticos como Rita Cadillac, India Potira, Fernanda Terremoto, entre outras, que dançavam de maneira provocativa frente às câmeras. Sem contar os rebolados do cantor Wanderley Cardoso, que junto com Jerry Adriani arrancavam gritos histéricos das moças. Um comportamento, que nada agradou aos censores da época e por causa disso seu contrato foi recindido na TV Tupi.

Rita Cadilac: ganhou notoriedade e ainda hoje hoje é lembrada entre o grande público

Numa das diversas entrevistas que seu filho Leleco Barbosa deu, ele conta que em 1978 na TV Bandeirantes, Chacrinha foi preso após o programa por ter se exaltado com os censores que o perseguiam. Chacrinha escreveu para censura federal reclamando do desrespeito com que fora tratado por estas autoridades, mas foi graças a interferência de uma das suas juradas, a jornalista Consuelo Badra, que esta situação teve um final feliz. Consuelo era próxima do general Figueiredo, presidente do Brasil na época, e arranjou um encontro entre os dois em Brasília. Segundo Leleco, o encontro duraria apenas 15 minutos na Granja do Torto, ele e Chacrinha chegaram às 5 da tarde, mas sairam de lá à meia-noite, Figueiredo caiu nas graças do velho guerreiro. Deste dia em diante, Chacrinha nunca mais teve problemas com a censura.

Para os artistas, pisar no palco do Chacrinha era ter a certeza que na semana seguinte sua música estaria nas paradas de sucesso das rádios, fosse do romântico brega ao rock, ele foi um grande marqueteiro musical com sua incrível habilidade de identificar ídolos da música.

As marchinhas de carnaval também foram eternizadas nos seus programas como “Maria Sapatão” e ” Bota a camisinha”. E em 1987, ele foi homenageado pela escola de samba Império Serrano com o enredo “Com a boca no mundo: quem não se comunica, se trumbica” ao lado das Chacretes, Russo e Elke Maravilha. E neste mesmo ano, recebeu do presidente José Sarney o grau de comendador.

O último programa

Chacrinha sempre dizia que morreria trabalhando e no final da década de 80 a saúde do velho guerreiro deu sinais de que não ia bem. Um câncer no pulmão o fez se afastar do palco por um período sendo substituído pelos humoristas João Kléber e Agildo Ribeiro. Ainda em junho deste mesmo ano, Chacrinha voltou ao estúdio da Rede Globo mesmo sem estar totalmente restabelecido e precisou da ajuda de João Kléber. Em 30/06 ele morreu vítima da doença.

O ícone da comunicação foi velado e venerado pelos ídolos da música que ajudou a projetar e principalmente pelo seu público fiel. Um cortejo fúnebre que levou uma multidão às ruas, que saiu da Câmara dos Vereadores na Cinelândia, onde aconteceu o velório, até o cemitério São João Batista em Botafogo. O corpo foi transportado no carro do corpo de bombeiros, a população aplaudia e jogava pétalas se despedindo do velho guerreiro, que deixou uma grande lacuna nos estúdios da tv e entrou pra história.