Tecnologia na gestão da limpeza pública

Do Solidário, por Saulo Andrade

Descobrir o bairro com maior índice de “sujões”, avaliar se coincide com o que tem o maior investimento em educação e realocar as equipes de fiscalização passa a ser uma atividade que demanda menos de cinco minutos. Tudo isso será possível com o Sigelu, um sistema voltado a gestores da limpeza urbana que reúne tecnologias de big data, geolocalização e aplicativos móveis.

Sergio Rodrigues, criador do aplicativo Sigelu

Em junho, a Lemobs – startup responsável pelo aplicativo – apresentou o Sigelu a um prêmio voltado à promoção de ideias que contribuam para a consolidação de cidades inteligentes e conectadas: o Connected Smart Cities, no Rio. “A ideia do aplicativo é tornar a gestão do lixo mais eficiente, possibilitando a identificação de regiões críticas por meio de relatórios e ações educativas com infratores. Neste sentido, há a possibilidade de notificar e até mesmo multar quem descarta lixo de maneira irregular” , explica o CEO Sergio Rodrigues, proprietário da Lemobs, uma das residentes da Incubadora de Empresas da COPPE/UFRJ. Nesta entrevista ao Portal Solidário, Sergio fala sobre meio ambiente, o problema do lixo e como a tecnologia pode ser uma parceira em soluções para a gestão de resíduos.

 Solidário – O SIGELU chegou a ser apresentado a alguma administração pública? Já há gestores municipais interessados? Se sim, de quais municípios e ou estados?

Sergio – A ideia do SIGELU surgiu dos ótimos resultados obtidos pelo programa Lixo Zero, do município do Rio de Janeiro. O sistema que deu suporte ao programa carioca foi desenvolvido em parceria com a COPPE/UFRJ e contou com a participação de estudantes bolsistas, que hoje fazem parte da equipe da Lemobs. O sucesso do sistema sob medida nos inspirou a desenvolver um produto mais flexível e personalizável, que sirva como base para projetos similares em qualquer município. Várias pesquisas embasaram o desenvolvimento do Sigelu e hoje oferecemos uma solução integrada original, otimizada para a melhor experiência do usuário e mais eficiente que qualquer outro sistema do mercado.

Conversamos com diversos municípios desde o começo do desenvolvimento do Sigelu. Foram muitas viagens e reuniões. Chegamos à etapa final do desenvolvimento do sistema com negociações em andamento em diversos estágios, dos iniciais aos mais avançados. Ainda não podemos divulgar os municípios que estão negociando conosco, mas acreditamos que quanto mais cidades adotarem o Sigelu, mais serão as cidades-modelo na gestão da limpeza urbana no Brasil.

 Solidário – Como se dá, tecnicamente, o trabalho da tecnologia big data, de geolocalização e aplicações móveis, no sentido de tornar a gestão do lixo mais eficiente?

Sergio – Os maiores problemas da administração pública são a burocracia e a descentralização das informações. A tecnologia de big data já vem revolucionando a eficiência de diversas empresas privadas, ao reunir todas as informações de interesse das empresas em bancos de dados unificados. Assim, é possível comparar rapidamente informações que antes constavam em arquivos diferentes ou mesmo em livros que demandam muitas horas para a busca e análise de informações. Uma grande aliada da tecnologia de big data é o armazenamento de dados na nuvem. Chegamos ao ponto em que é possível armazenar uma quantidade gigantesca de dados em servidores externos, que podem ser acessados de qualquer ponto com conexão à internet. Ou seja: descobrir o bairro com maior índice de “sujões”, avaliar se coincide com o bairro com maior investimento em educação da população e realocar as equipes de fiscalização passa a ser uma atividade que demanda menos de cinco minutos. Antes dessas tecnologias, seria necessário encomendar uma pesquisa, aguardar a organização dos dados e trabalhar com informações que já estavam desatualizadas quando chegavam às mãos do gestor. Hoje, a atualização do banco de dados acontece em tempo real, permitindo que o gestor tome decisões a partir de informações referentes ao momento em que a análise é efetuada.

As vantagens da geolocalização são fáceis de explicar, já que agora contamos com diversas ferramentas cotidianas que utilizam a tecnologia. Da mesma maneira que você consegue identificar a sua localização exata e traçar a melhor rota para seguir com o seu carro, o Sigelu também permite o monitoramento em tempo real das equipes de limpeza, coleta e fiscalização. Assim, é possível acompanhar a movimentação dos profissionais na cidade e identificar rapidamente o desvio das rotas previstas. Quando as ocorrências são automaticamente registradas com os dados sobre a localização, também fica muito fácil identificar tendências regionais. Uma curiosidade: certa vez, na fase de testes do Sigelu, notamos que um agente passou muito tempo parado no mapa. Enviamos um supervisor ao local e o rapaz foi encontrado em uma igreja, dormindo. Essa situação dá uma ideia clara do potencial impacto dessa tecnologia na eficiência das equipes.

Por fim, as aplicações móveis são muito úteis para acabar com os bloquinhos de anotações, que além de demandar tempo para seu preenchimento, ainda demandam mais tempo para que as informações coletadas sejam cadastradas e disponibilizadas para a avaliação do gestor. Com os aplicativos móveis, cada registro efetuado nas ruas é atualizado imediatamente no banco de dados e pode ser confrontado com outras bases de dados, como a do Serasa, para verificar a veracidade das informações dos indivíduos. De uma forma geral, o Sigelu reúne as tecnologias mais revolucionárias da atualidade em uma solução que transforma definitivamente a experiência do gestor público.

Solidário – Há outras Incubadoras de Empresas da COPPE/UFRJ envolvidas em empreitadas da categoria soluções em gestão pública?

Sergio – A Incubadora de Empresas da COPPE/UFRJ é um ambiente criado para o estímulo de negócios inovadores e de alto valor agregado. Atualmente, o espaço conta com 26 empresas residentes, que recebem acompanhamento individualizado e ocupam escritórios localizados no Parque Tecnológico da UFRJ, na Ilha do Fundão. Como toda startup, as empresas residentes na Incubadora da COPPE lidam com recursos escassos e grande volume de trabalho. Isso dificulta um pouco o acompanhamento do trabalho das empresas vizinhas. Mas uma coisa é certa: tem muita coisa boa sendo desenvolvida por lá! Vale a pena ficar atento!

Solidário – Vocês têm números de empreendedores produzindo aplicativos desse tipo no Brasil?

Sergio – É difícil estipular um número. Projetos tecnológicos similares podem ser desenvolvidos por núcleos de tecnologia das próprias empresas e até mesmo encomendados diretamente a desenvolvedores de sistemas. São projetos demorados, que podem levar meses e até mesmo alguns anos. Nas nossas pesquisas, não identificamos nenhum concorrente que tenha desenvolvido um sistema integrado de gestão “customizável” e que atenda aos principais pré-requisitos de usabilidade e performance do mercado. A grande vantagem do nosso sistema é que ele já está praticamente pronto e necessita apenas de pequenas adaptações rápidas para funcionar em qualquer município. As mesmas tecnologias estão sendo empregadas nos mais variados projetos, destinados aos mais diversos públicos e objetivos. A combinação de tecnologias e ideias criativas permite o desenvolvimento de soluções infinitas. Essa é a característica mais fascinante do setor.

O Sigelu foi o terceiro colocado do Prêmio Connected Smart Cities.