Cinema de Guerrilha da Baixada Fluminense

Do Solidário, por Carla Giffoni

Publicado em 21 de Novembro de 2016

Foi no final do século XIX, em 1895, na França, que os irmãos Louis e Auguste Lumière inventaram o cinema. Em 1897, ou seja, apenas dois anos depois de o cinematógrafo ser criado na Europa, o Brasil iniciou sua aventura cinematográfica, que já dura 119 anos, o que demonstra quão grande é avocação nacional para o audiovisual. Porém, nem tudo são flores. Cineastas dizem aos quatro ventos que é preciso “matar não somente um leão por dia,mas uma família inteira desses felinos a cada 24 horas”. Que o diga o cineasta, roteirista,escritor e açougueiro (sim!)fluminense Ricardo Rodrigues, “pai” do Cinema de Guerrilha da Baixada(CGB). Advogado e empresário no ramo de carnes, Ricardo começou a lidar com cinema em 2010. Casado, nascido e criado em São João de Meriti e pai de duas meninas, Manuela (cinco anos) e Joana (um ano), fez vários cursos de roteiro de teatro na Faculdade de Cinema de uma universidade carioca. Seu reconhecimento profissional não é apenas como cinema, pois venceu o Concurso Nacional de Contos pela Academia de Letras e Artes Buziana (Búzios/RJ) e foi um dos fundadores da Academia de Letras e Artes de São João de Meriti/RJ.

Sua paixão pelo audiovisual e literatura começou ainda na infância. “Lia muito gibi, de todos os tipos. Desde Maurício de Souza a superherois, como Hulk. Além disso, também quando pequeno, fazia quadrinhos. Na adolescência, poesia e letras de músicas para bandas de garagem. Depois, escrevi em jornais e revistas da cidade”, relembra.Desde a tenra idade, a cada dia seu nomese firma como cineasta independente no cenário nacional. Já alcançou a impressionante marca de participações em 332 festivais, como Jornada da Bahia, Festival de Vanguarda e CineCufa, em todos os cantos do Brasil. Sua trajetória também esteve além das terras tupiniquins. Mostrou suas histórias em países como EUA, Portugal, México, Peru, Colômbia e Argentina, tendo escrito e produzido 63 curtametragens, sendo que 22 deles foram agraciados com premiações.

Ricardo contaque, na busca por aprimorar as técnicas do cinema,estudou roteiro com Jorge Duran – diretor e roteirista de filmes como Pixote e É Proibido Proibir – e também como escritor e novelista Walcyr Carrasco. “Fiz Faculdade de Cinema. Gosto muito do nacional, desde filmes de Braz Chediak a José Padilha. Mas meu favorito é Cacá Diegues, a quem considero ´o antropólogo da sétima arte`”, diz.Apesar da vocação demonstrada na infância, Ricardo iniciou sua atuação na direção de cinema somente no início dos anos 10 do século XXI, ao produzir seu primeiro curta, O mendigo.Um ano depois, fundou o Cinema de Guerrilha da Baixada (CGB),junto com também diretor Vitor Gracciano. “O CGB surgiu logo após finalizar Enterro de anão. Sou especialista em roteiros, por isso assino a história de quase tudo o que produzimos. Estamos fazendo o documentário Fernandão, o gigante daalegria, que fala da trajetória de Fernando Silva, também fundador do CGB, falecido após inalar gás nas manifestações políticas do Rio de Janeiro, em 2013”, conta.

A parceria com Vitor Gracciano tem sido constante, não apenas na produção dos curtas, mas também em outras áreas em que atua. “Praticamente fazemos tudo juntos: a produção dos curtas, a realização do programa Vem pra Baixada, as oficinas de cinema e o Cineclube de Guerrilha.Nos conhecemos numa caravana da torcida pelo filme O mendigo, em Petrópolis/RJ. Depois dei um a ele um personagem no filme Enterro de anão e formamos a banda de mesmo nome para fazer a trilha sonora do filme”, relata.

 

Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça

Ricardo ri ao ser questionado por que escolheu o cinema para se expressar. “Acredito que foi o cinema que me escolheu!É precisomostrar biografias e histórias que nos dão sustos, sejam de alegria, tristeza ou esperança.São temas que não podem deixar de ser explorados, senão a vida vira uma ficção científica”, crê. Ele explica que o nome Cinema de Guerrilha da Baixada foi escolhido justamente para provar que é possível contar uma história com poucos recursos. “O real significado é demonstrar que com uma câmera da mão e uma ideia na cabeça – como afirmava Glauber Rocha – ainda é possível fazer um bom cinema e contar excelentes histórias. E ainda ser reconhecido por isso, como o fez Cacá Diegues em sua biografia lançada recentemente!”, comemora.

Sua experiência com longametragem começou em 2013, ao participar do “longa coletivo”Rio em Chamas, com os principais cineastas independentes do país. “Esta película ficou no circuito dos cinemas, mas não participou de festivais”, observa.            O cineasta e roteirista explica que tipos de filme gosta de fazer: “o quemerece ter uma história contada, principalmente das minorias, como aconteceu emVozes do mundo, onde pude dar falas a quem não tem ressonância; histórias de biografias, como em O evangelista; e relatos que não aparecem nas estatísticas, como emO perdão, que mostra o desespero de uma mãe que resgata sua filha ‘especial’ após abandoná-la debaixo de uma passarela”, revela.Suas histórias alcançaram o renomado Festival de Cinema Brasileiro, em Los Angeles, Estados Unidos. Em 2011, participou com seu curta O mendigo; em 2013,com Gigantes da alegria;e, em 2014, comO perdão. Seu filme O evangelista foi selecionado no ano passado para o festival e teve boa repercussão.Ele acredita queesta seleção aconteceu porque o filme mostra uma história diferente: a saga diária de um senhor de 75 anos que está preocupado em salvar seu semelhante.“É um conto universal, capaz de tocar o espectador em todas as partes do mundo”, argumenta.

 

A vida cultural da Baixada em série

O cineasta tem se dedicado ultimamente aoCGB Filmes e à produção deVem pra Baixada, série do CineBrasilTV. Esta última trata da vida cultural da Baixada Fluminense, mostrando pessoas que influenciam seu desenvolvimento. “A série foi ao ar pela primeira vez em 2014, com cinco episódios, que foram reprisados por todo o ano passado, em dias e horários diversos. Fiquei surpreso ao saber que os telespectadores brasileiros entraram em contato com a emissora cobrando novas histórias!Agora estamos produzindo 30 novos programas com temas diversos sobre a cultura na Baixada”, afirma.O cineasta explica que o objetivo da série é mostrar que na região não há somente o que a grande mídia demonstra. “Desde 2010, em minha militância artística por aqui, tenho dito que esta localidade não é somente pobreza e violência. Na BF tem gente fazendo cultura nos mais diversos segmentos, sendo um grande polo de efervescência cultural”, enfatiza. Mas qual seria a diferença entre trabalhar em cinema e televisão? “Utilizamos o mesmo formato de cinema, que é a nossa escola. E assim funciona bem, tem sido uma experiência sensacional. É um programa de 25 minutos em que mostramos o material de cobertura dos eventos da BF. Filmávamos sem pretensão e atualmente virou sucesso”, sorri Ricardo.

 

O que falta para o Brasil ganhar o Oscar?

Para ele, a nova Lei do Audiovisual, que determina uma maior produção brasileira nos canais pagos, é um avanço para as produtoras. “Acho imprescindível para a sobrevivência das produtoras, sendo elas responsáveis por empregar artistas, movimentando o cenário cultural do país. Canais que antes compravam programas da Austrália e Bélgica – programas ruins por sinal, para preencherem suas grades -, hoje precisam comprar conteúdo produzido aqui”, explica.Mas uma pergunta entra em foco: o que falta ao Brasil para ganhar o Oscar? Os argentinos levaram a cobiçada estatueta com os filmesA história oficial (1985) e O segredo dos seus olhos(2010), sem contar com as seis indicações que aquele país sulamericano teve ao longo dos anos: “A verdade é que se têmproduzido filmes que ninguém assiste. Parece uma operação caça-níquel: a pessoa consegue a verba para fazer a película, todos ganham,mas o produto final fica em segundo plano!Os filmes de comédia, hoje, são os grandes arrebatadores de bilheterias nacionais. Porém, para ganhar o Oscar, é preciso ter preocupações relevantes, contar outro tipo de história. Faz-senecessário mostrar outros ´Brasis`, como aconteceu em Central do Brasil e O quatrilho, por exemplo”, enaltece. E os planos? “Prefiro não fazer, mas tenho sonhos: que o longaCiçochegue logo aos cinemas e ser roteirista numa emissora de televisão. Deve ser o máximo ver sair da boca de um ator consagrado como Lima Duarte, por exemplo, uma frase pensada por mim”, imagina o guerreiro da Baixada.

 

 

 

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Carla Giffoni: Jornalista, escritora e roteirista.
Atuando há 20 anos como jornalista nas Editorias dePolítica, Polícia, Economia, Cultura e Cidades, em revistas, jornais, sites e emissora de TV, entre eles:
Tribuna da Imprensa, Revista Menorah, repórter do Portal de Notícias SolidáRio, TV Bandeirantes (BM), jornal A voz da Cidade, Rádio do Comércio. Colaboradora do roteirista José Carvalho no filme “Vidas partidas”; colaboradora do roteirista Doc Comparato para o projeto “Peritos da Verdade”. Pós-graduada em Jornalismo Cultural e em Roteiro para Cinema e TV (UVA); graduada em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo – e
também em Letras/Formação de Escritor (PUC-RJ).

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