Conversa no elevador – Episódio: Natal

Por Carla Giffoni

Publicado em 24 de Dezembro de 2016

Vigésimo segundo andar. Um casal de idosos entra no elevador.

– …. aí eu disse para ela que neste Natal eu não vou ficar me matando na cozinha enquanto a belezoca da Zumira fica na sala como se fosse uma visita muito importante! Eu, não.

Nunca mais.

O marido abre a boca, mas logo é interrompido pela mulher.

– Onde já se viu! Lembra do ano passado, quando a Ruth foi fazer as compras para a ceia às seis horas da tarde?! O peru ficou um horror, com gosto de sangue na boca, lembra?! – olha para o marido com impaciência – Você nunca lembra de nada mesmo, né, Adamastor? – diz bufando.

Adamastor mais uma vez tenta responder, mas é interrompido novamente pela mulher.

– A palhaça aqui este ano está aposentada, isso eu garanto! – diz indignada.

O marido dá um longo suspiro. A mulher olha para ele com raiva.

– Não acredita, não?! Pois eu garanto que este ano serei visita na casa da Ruth, não moverei uma palha. E não adianta você querer chegar mais cedo para ver o jogo na TV a cabo, que só sairemos de casa depois das nove horas da noite, talvez só depois da novela! Onde já se viu! Todo ano é assim, eu e Isabel nos matamos na cozinha, a Ruth correndo igual a uma barata tonta, deixando para comprar tudo na última hora, e a lindeza da Zumira lá no bem-bom! O pior é que traz aquelas pragas de netos, filhos e noras que não têm nenhuma educação!

O marido olha para visor e nota que estão na metade do caminho. A mulher continuaco m sua metralhadora giratória.

– Lembra que no ano passado a neta da Zumira chegou para a ceia com um tipo mal encarado? Lembra? O rapaz era todo tatuado e cheio de… como é mesmo o nome daqueles negócios que as pessoas dependuram na orelha, nariz, colocam na boca? Como é o nome, Adamastor?!

Adamastor arrisca falar, mas é mais uma vez interrompido pela mulher:

– Você não sabe de nada mesmo, né, Adamastor?! – diz, bufando – Bem, não importa.

Você sabe do que estou falando. Sinceramente, eu não sei por que hoje isso  tá na moda.

Uma perdição, isso sim. Artista faz isso porque é artista, quer chocar, e aí vem um Zé Ninguém e faz o mesmo. Ridículo, isso sim! Todo mundo agora quer ser artista hoje em dia.

O marido olha para o relógio e depois confere o visor do elevador. Faltam quatro andares. Dois segundos de silêncio.

– Ah, não me deixa esquecer de comprar as passas para a farofa e o arroz à grega, viu, Adamastor?! Não vai esquecer, 'tá? No ano passado você não me lembrou e ficou faltando a ameixa preta e a dondoca da Zumira logo disse que…

O elevador chega ao térreo e o marido sai rapidamente, sendo seguido pela mulher, que apressadamente anda atrás dele.

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Carla Giffoni: Jornalista, escritora e roteirista.
Atuando há 20 anos como jornalista nas Editorias dePolítica, Polícia, Economia, Cultura e Cidades, em revistas, jornais, sites e emissora de TV, entre eles:
Tribuna da Imprensa, Revista Menorah, repórter do Portal de Notícias SolidáRio, TV Bandeirantes (BM), jornal A voz da Cidade, Rádio do Comércio. Colaboradora do roteirista José Carvalho no filme “Vidas partidas”; colaboradora do roteirista Doc Comparato para o projeto “Peritos da Verdade”. Pós-graduada em Jornalismo Cultural e em Roteiro para Cinema e TV (UVA); graduada em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo – e
também em Letras/Formação de Escritor (PUC-RJ).

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