Saga americana

Do Solidário, por Manoel Tupyara e Daniele Fernandes

Publicado 22 de Novembro de 2016

O espírito aventureiro levou um casal chileno a deixar sua terra natal em 1995 e percorrer vários países com um único objetivo: desbravar o norte do continente americano. Destino inicial? Canadá. Para chegarem em terras canadenses, Maria Cecília Rubio e Orlando Sergio Rojas, naturais de Santiago, passaram por uma verdadeira via-crúcis.

O casal chileno Cecília e Orlando e seu Maurício, ex-morador  de rua

O casal já tinha duas filhas quando resolveu se arriscar mundo afora. Cruzaram o Peru, Equador e Colômbia sem problemas. Mantinham-se vendendo bens pessoais que levaram de seu país, como brincos, pulseiras, relógios, etc. Mas, a partir do Panamá,  tiveram que interromper a jornada, porque daí em diante começava a rigidez da polícia de imigração norte-americana. Então, foram obrigados a descerem para a Colômbia e, segundo Cecília, a passagem por esse país foi maravilhosa.

Sem dinheiro e carregando duas crianças, encontraram um senhor que ofereceu abrigo sem conhecê-los. Ele preparou para o casal e as crianças uma sopa com ovos e caldo Knorr, pois era o que tinha para se alimentar. O homem solidário, cujo nome Maria Cecília não se lembra, também era humilde e tinha dois filhos. Nesse dia, o dono da casa deixou de dormir em sua cama de casal para oferecê-la aos cônjuges e suas filhas. Ele simplesmente foi dormir no chão. “Isso aconteceu no condado de Ipiales O povo colombiano é muito correto. Se a pessoa ficar neutra, não se meter em política, fica tudo bem”, explica. O casal ficou três anos na Colômbia e, após 18 meses, inauguraram a lanchonete Rincon Chileno, que significa cantinho chileno.

 

ACIDENTE

 

A Colômbia não reservou só rosas para Cecília e Orlando. Em uma festa escolar, uma das filhas foi vítima de um acidente com balões de gás. As bolas estouraram e a menina teve sérias queimaduras nas mãos, orelhas, rosto e sobrancelhas. Foram 18 crianças acidentadas, algumas, como a filha dos chilenos, em estado grave. “Minha filha foi internada e na enfermaria ao lado havia um guerrilheiro (à época o país ainda sofria com a guerrilha) e eu tinha medo de qualquer reação contrária e com isso pudesse atingir a minha menina”, diz Cecília.

O pior, porém, ainda estava por vir. Após deixar o hospital, a polícia de imigração invadiu a residência dos chilenos para deportá-los, sem direito a defesa. Eles tiveram que partir deixando tudo que conquistaram para trás. “Acredito que foi o prefeito da cidade de Villieta que denunciou para não pagar a indenização, já que a Prefeitura é que foi a responsável pelo festejo no educandário, lembra a chilena. A família saiu da Colômbia em uma situação precária e a reserva financeira era de aproximadamente R$ 8 mil. Desesperada, Cecília pediu ao policial que a deixasse trocar a fralda da filha de três anos e conseguiu colocar o único dinheiro que restava entre as duas fraldas que a criança vestia. Essa foi a única maneira que encontrou para levar essa quantia na viagem de volta a Santiago.

Ao voltar ao país de origem, Orlando foi trabalhar na lavoura, colhendo peras. Mais tarde, conseguiu emprego num abatedouro de suínos onde trabalhou por dois anos. No meio de todas as dificuldades, o casal tem mais duas crianças. Cecília já tinha um filho de outro relacionamento, mas Orlando sempre enfatiza que, mesmo não sendo seu filho biológico, Brian é muito parecido fisicamente com ele. Hoje, aos 30 anos, Brian é naturalizado norte-americano e mariner (fuzileiro naval dos Estados Unidos).  Lutou na guerra do Iraque. “Todos comentam o quanto ele se parece comigo. Para mim é meu filho e ponto final”, enfatiza Orlando. Cecília conta que, quando engravidou da quarta filha, foram para o Paraguai, país com o qual, segundo ela, não teve a menor afinidade. “É um lugar que tem muita miséria. O paraguaio é um povo mal-educado, trocava o espanhol pelo guarani, quando conversavam conosco. Eu acho que era para que nós não entendêssemos o que eles estavam falando”, enfatizou Cecília.

Passando dificuldades no Paraguai, conheceram um brasileiro que os convidou para vir ao Brasil, dizendo que não passariam fome. A família de aventureiros, seguindo o conselho de mais um “anjo”, desta vez, brasileiro, resolveu colocar novamente o pé na estrada, entrando em solo brasileiro por Foz de Iguaçu, com destino a São Paulo. Isso em 2001. Como estavam em má situação financeira, a Prefeitura de Foz de Iguaçu, financiou as passagens para a capital paulista. Quando chegaram ao destino, sem falar uma palavra em português, com três crianças e outra prestes a nascer, tiveram de passar uma noite na rodoviária e, com o pouco dinheiro que tinham, compraram pãezinhos para enganar a fome das crianças.

Nas condições em que se encontravam, chamaram o cônsul do Chile, Samuel Ossa, que repreendeu Orlando por ter vindo ao Brasil naquelas condições, trazendo a família. Mesmo contrariado, Samuel levou-os no carro oficial do consulado para um abrigo de imigrantes. Na ocasião deu apenas R$ 10. Aa família que ficou três meses no albergue, onde Cecília deu à luz a uma menina brasileira. Logo após o nascimento do bebê, um amigo compatriota, Fernando Soto, convidou Orlando para um emprego, dizendo que precisava de um funcionário. Com o salário desse emprego tiveram condições de alugar um apartamento. Ficaram mais de um ano em São Paulo, onde Orlando também desempenhou a função de pedreiro.

 

RIO DE JANEIRO

 

Certa vez, Orlando foi à padaria e avistou um saco de lixo aberto por um cachorro. Observou que dentro havia retalhos de couro; levou os retalhos para casa, mas não sabia o que fazer com eles. O casal resolveu, então, fabricar cintos, segundo Orlando, muito feios. Conversaram com o dono da fábrica, que jogava os couros no lixo e ele prometeu que separaria o material, com o intuito de facilitar o trabalho de organização e limpeza, pois o couro vinha junto com dejetos.

O proprietário da indústria, que ficava no bairro da Vila Brasilina, na capital paulista, sugeriu que fossem apanhar couros também em outras fábricas. Foram ao bairro do Brás, onde há uma concentração maior de fábricas do ramo. Com a experiência que foram adquirindo na fabricação, as peças ficaram com melhor qualidade e mais bonitas. Chegaram a vender bolsas feitas à mão na Rua 25 de Março, por atacado, para pessoas que as revendiam para as lojas da região. Para dar um exemplo: em 2003, um venezuelano comprou mil cintos por R$ 2 mil. Com esse dinheiro, a família migrou para o município de Búzios, no Estado do Rio. Foram morar na praia de Armação de Búzios. “Ficamos numa casa abandonada em frente à praia, achava a decoração feia, as minhas filhas tinham medo dos objetos que ficavam pendurados nas paredes. Passamos quase um ano lá e ganhamos muito dinheiro em Búzios. Orlando foi guia turístico, ganhando gorjetas em dólares. Com este dinheiro inauguramos um restaurante de culinária chilena e brasileira. Ficamos seis meses com o restaurante e perdemos tudo por causa da baixa estação”, lamenta Cecília.

Diante disso, o casal deixou Búzios, pois estavam passando por mais uma situação financeira ruim e foram se arriscar na cidade do Rio de Janeiro. Tinham cerca de 400. Com esse valor, alugaram um quarto na região da Central do Brasil e partiram para a Catedral Metropolitana na Avenida Chile para pedir ajuda. Foram encaminhados para um abrigo da Prefeitura do Rio de Janeiro. Cecília faz uma comparação entre os dois abrigos em que viveu; um em São Paulo (para imigrantes), e o outro no Rio de Janeiro (moradores de rua). Ela não poupa críticas ao abrigo da Prefeitura carioca. “O abrigo de imigrantes era mais familiar, tinha vários quartos e cada família ficava em um quarto. No abrigo carioca tinha dependentes químicos e ex-detentos que brigavam muito. As paredes eram sujas de sangue por causa das brigas. Eu tinha muito medo que fizessem algum mal com as minhas filhas”, recorda Cecília.

Naquela época, uma cidadã chilena, Mercedes Lemos, hoje atual secretária do cônsul chileno no Rio de Janeiro, levou a família de Orlando para sua residência em Jacarepaguá. Cecília obteve resposta de vários e-mails que a filha tinha enviado para amigos no Chile, contando o que estavam passando no abrigo carioca. Os amigos chilenos resolveram fazer uma campanha para arrecadar dinheiro e outros tipos de ajuda para a família de Orlando. Procuraram a imprensa chilena, que apoiou a causa, e fizeram matérias contando o ocorrido. Os amigos compatriotas enviaram R$ 1,5 mil para a família voltar para a terra natal. Mercedes, ao tomar conhecimento, questionou: “Os brasileiros os trataram mal? Se a resposta for negativa, isso não quer dizer que o Brasil seja um país ruim.”

Cecília e Orlando pensaram melhor resolveram ficar. Foram morar desta vez na Barreira do Vasco, em frente a um ponto de tráfico de drogas. Cecília conta que quando alugou a casa não sabia que no local no funcionava uma boca de fumo. “Para mim, favela era só em morro, não sabia que a Barreira do Vasco era comunidade. A casa tinha três quartos e era bem montada, tinha tudo. Logo me interessei e alugamos. Pagamos R$ 500 referentes a dois meses de aluguel adiantado”, conta Cecília.

A chilena conta que ao ouvir as conversas dos traficantes, pensava que eles estavam brincando, mas não era brincadeira, realmente se tratava do comércio de drogas. O casal continuou vendendo as bolsas de retalhos de couro na Zona Sul da cidade. A casa era boa, conforme disse Cecília, e o aluguel era de apenas R$ 250, mas a família teve de sair de lá por conta de uma decisão judicial; o antigo dono provou que o imóvel não poderia ter sido alugado. Cecília, na verdade, vivia sempre com muito medo e não via a hora de sair daquele lugar.

 

MICROEMPRESÁRIOS

 

Os chilenos foram, então, morar no Estácio, tradicional bairro da Zona Norte carioca. Orlando chegou a trabalhar como garçom num restaurante no bairro de Fátima, no Centro, chamado Don Pancho. Depois, se mudaram para Paciência, também na Zona Norte. Mais tarde, viveram em Campo Grande, Zona Oeste, em 2015. Cecília, como tem habilidades culinárias, resolveu fazer pastéis chilenos para o marido vender pelas ruas de Campo Grande. Começaram vendendo o tradicional pastel chileno de carne. Fizeram sucesso com as vendas e a produção aumentava a cada dia. Conseguiram uma tenda emprestada por um membro de uma igreja evangélica e resolveram atuar na Praça do Diana. Com o aumento do faturamento, conseguiram comprar um trailer e, como a procura era grande, resolveram aumentar a variedade de sabores. “Os moradores da Praça do Diana começaram a reclamar, porque lá era um local muito calmo e com o trailer passou a ter muito movimento. Vários carros estacionavam e isso começou a incomodar os moradores. Eles foram à Prefeitura reclamar e aí tivemos que mudar de local”, explica Cecília.

Eles ficaram com o trailer na praça durante certo tempo e depois decidiram alugar uma, onde inauguraram o Pastel Chileno, que atualmente oferece 120 sabores. A casa comercial emprega hoje dois funcionários e vende em média 300 pastéis por dia. Maria Dinah, 22 anos, artesã de bolsas de couro, moradora de Paciência, funcionária de Cecilia e Orlando, os admira e fala sobre a generosidade dos patrões: “Trabalho há dez anos com o casal, sou mãe de uma menina, Maria Clara de 4 anos Estava desempregada e eles me ajudaram. Sempre me trataram como membro da família.”

Essa generosidade a que Dinah se refere, está expressa no fato de Cecília e Orlando abrigarem, de maneira gratuita, a um morador de rua chamado Maurício, 64 anos, na varanda de sua casa, para que este não fique exposto à violência.

Orlando diz que não faltam pedidos de franquia, mas para isso eles têm que se estruturar. Ele relata com orgulho: “O nosso pastel é o único no Brasil, não vão encontrar outro em nenhuma parte deste país. A nossa marca é registrada no INPI.”

Cecília Rubio diz que, mesmo com toda a dificuldade que passou, nunca perdeu a esperança e a fé em Deus, e mesmo não frequentando nenhuma religião sempre ora todos os dias.

O casal mostra muito empenho em ajudar as filhas na construção de um futuro promissor. Eles encaminharam uma delas para estudar medicina na Argentina, mas com a valorização do dólar, a menina teve que voltar. Segundo a mãe, ela vai continuar os estudos de medicina, mas agora no Brasil. Cecília deixa uma mensagem para aqueles que querem seguir o seu exemplo de determinação: “Primeiro acreditar em Deus, pois ele nos protege, mas temos que correr atrás e não esperar cair do céu. O brasileiro fala mal da sua terra, mas o Brasil ainda é um país de oportunidades. A pessoa pode começar do zero no Brasil, em outros países não pode. Na minha própria terra, no Chile, não tem como prosperar saindo do zero. Lá tem muitas normas que não fazem bem para as pessoas. Essas regras não permitem que pessoas como nós comecem vendendo pastéis nas ruas ou catando retalhos de couro no lixo para a fabricação de bolsas, cintos e outras coisas para vender. Lá no meu país não tem vendedores ambulantes, tem que ter capital. A pessoa tem que ver qual é a sua habilidade e correr atrás. Fazer as coisas bem feitas, com amor, com qualidade”, conclui.