Crise traz de volta o escambo

Por Manoel Tupyara e Daniele Fernandes
A palavra “escambo”, segundo o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa Michaelis, significa troca de bens ou serviços sem uso de moeda ou qualquer tipo de permuta. . É o que faz um grupo de moradores da Rua Capitão Menezes, em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Com a crise financeira que se abateu no país e afetou o trabalhador brasileiro, a ex-instrumentadora cirúrgica e costureira Marta Reis Figueiredo, 54 anos, teve uma ideia para amenizar a situação do desemprego. Extrovertida e falante, encontrou o seu vizinho Fábio Melo Graça, 51 anos, vendedor de plano de saúde saboreando uns quitutes na barraca da Kátia Aparecida Zaccaro, 55 anos. Em conversa com o Fábio, que necessitava de serviço de costura, ele perguntou se poderia fazer um ”rolo”, que significa troca, ou seja: ela faria as bainhas de suas três calças em troca do plano dental não só para ela, mas também para filha.

O valor da adesão ao Plano Odontológico é R$ 60,00 e sua mensalidade é R$ 49,00. Ela então cobrou pelo serviço R$ 60,00. Sendo R$ 10,00 por cada bainha. O Fábio entregou três calças cujo total ficou em R$ 30,00. Ficando assim com um crédito de R$30,00. Marta afirma que a troca é de acordo com o momento financeiro de cada morador, o que se pode fazer são outros acordos que possa facilitá-lo e assim dá início ao escambo no bairro.

O efeito da ideia contagiou os demais moradores. Com isso, formaram-se pequenos comerciantes como Maurício Cezar Novello Oliva, 39 anos, que trabalha com comunicação visual, parte de sinalização, publicidade e gráfica expressa em geral. Confecciona baners para expor nos muros das residências e pretende em breve sair do local para expandir sua empresa. “O melhor fruto que a gente colhe é ajudar as pessoas. Ajudando o próximo, automaticamente as coisas fluem. O negócio está dando retorno satisfatório”- frisa.

Vigia de um estacionamento, Sandro de Souza Souto, 46 anos, participa do escambo. Ele trabalha com frango assado. Com farofa a R$ 18,00, com farofa e batatas R$ 20,00, com farofa, batatas e linguiça, R$ 25,00. São despesas que ele tem que liquidar na semana seguinte. Compra a mercadoria na sexta-feira e tem que pagar já na segunda. A sua dívida é R$ 1.000,00 só de aves. “É igual ao cara! Ele é vendedor de frangos e carnes. Então, ele manda alguém apanhar frango assado em troca da linguiça. É uma troca, um adianta o outro. Mas não é sempre”. Outra moradora, que está contente com os resultados dos negócios é Kátia Aparecida, que prepara salgados para festas e lanchonetes, como pasteis de vários sabores, mini pizzas, hambúrgueres de forno e variações de quitutes. “A união faz a força. Cada um de nós vende produtos diferentes, não há concorrência. No mês de dezembro caiu bastante o movimento. Janeiro e fevereiro teve muito aniversário, levantou um pouquinho. Faturamos aproximadamente R$ 1 mil e há época que dá R$ 2 mil. Mas tem meses que faturamos só R$ 500,00” – revela. O fluxo teve um crescimento que a Kátia no futuro pretende colocar um disk lanche que, segundo ela, as pessoas têm medo de sair à noite. O negócio da comerciante é das 10h00min às 22h, e aceita cartão de crédito.

A realização do escambo une famílias. É o que acontece com Adriana Gonçalves, 44 anos, esposa do vendedor de frangos Sandro Souto, que interage com Marta Figueiredo, que costura os quimonos de jiu-jitsu de sua filha. “O mês de março foi complicado. O faturamento está em torno de R$ 3 mil. No futuro pretendo implantar mais entregador”, explica. Ela vende quentinhas, cujo cardápio tem como ingredientes mocotó, rabada, etc. “O sistema de cooperação foi benéfico. O pessoal da academia liga para pedir comida e com isso o faturamento se multiplica”- comenta entusiasmada Adriana.

Antes da crise, R$ 4mil. Hoje, com a crise em curso, o faturamento gira em torno de R$ 1.700,00 e R$2.200. Esses são os números financeiros de Neemias Silva Soares, de 47 anos, com a esposa Márcia da Silva Brites, 41 anos. O casal perdeu um filho, passou por uma fase difícil e passou a vender churros, depois batatas fritas . Compraram uma máquina de crepes de palitos, colocaram cachorros quentes, sacolés e empadão. O casal casal tem parceria com a Kátia, cujos produtos comercializados são diferentes. Neemias disse que com a receita pôde comprar uma casa e liquidou o débito habitacional. Para o pequeno comerciante, a parceria solidária com os vizinhos foi positiva.

Seguindo o mesmo caminho do câmbio solidário está o consultor em tecnologia Luiz Claudio Gomes dos Santos Souza, conhecido como Maciel, 51 anos, e 32 de profissão. Saiu do emprego formal e entrou na informalidade, na manutenção de computadores. “É bem melhor. Os valores dão para sobreviver. É uma troca justa, legal e dá lucro.” avalia. Maciel está super satisfeito. Disse que melhorou a qualidade de vida e contou uma história. Certo cliente olhou a placa e disse: “Luiz, dá uma passada aqui que não estou conseguindo imprimir. Fui à sua residência ver o defeito e, chegando lá, constatei um defeito simples e coloquei para imprimir. Na hora de perguntar o valor do serviço, antes de eu falar, ele disse: “Espere um pouco ai que vou apanhar um negócio para você. Foi lá dentro e trouxe como pagamento um pacote de queijo. Achei engraçado na hora”-relembra.

Como seus vizinhos, ele também tem milhões de projetos. Quer fazer um projeto social na Praça Seca, Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio, e participou de um projeto social na Rocinha, Zona Sul da cidade.

Sempre é bom ajudar os vizinhos, diz a proprietária da Brasa & Sabor, Cristina Mota da Silva, 37 anos. “Tem gente que prefere comprar mais longe. Eu vim trabalhar em casa porque perdi a minha loja, me separei, tinha que recomeçar por algum lugar”, revela. Disse que vizinhos como a Marta a ajudaram, e não esqueceu do Neemias. “;Pretendo economizar e comprar um ponto em local movimentado”, frisa otimista.

Matéria sobre Escambo
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Crise traz de volta o escambo - Foto: Pauty Araujo
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