Desaparecimento na Argentina remete ao caso Amarildo ocorrido na Rocinha

Mário Augusto Jakobskind - Arte Rafael Sarrasqueiro

Há mais de um mês, os argentinos e o mundo inteiro se perguntam onde está Santiago Maldonado?. O jovem de 28 anos desapareceu em 1 de agosto último quando se encontrava com um grupo de indígenas mapuches numa localidade da Patagônia. Chegou a polícia para reprimir sob a alegação de que estariam interrompendo o tráfego em uma estrada. Os familiares de Santiago Maldonado e agora uma grande maioria dos argentinos responsabilizam o governo Maurício Macri pelo ocorrido e acreditam que a polícia o prendeu, em seguida o matou e ocultou seu corpo em qualquer do território da enorme Patagônia.

Em Buenos Aires e em várias cidades argentinas, e até em alguns outros países, já ocorreram manifestações exigindo que o governo Macri se manifeste, porque não aceitam a versão difundida pelo governo de que a polícia não é a responsável pelo desaparecimento de Santiago Maldonado, acima de tudo um defensor dos diretos humanos.

Como ocorre em um primeiro momento em que a opinião pública se manifesta e exige das autoridades providências imediatas para esclarecer um fato duvidoso, começam a surgir versões, que não se sustentam, do tipo que Santiago Maldonado teria fugido para o Chile, a terra dos mapuches,  ou foi morto em uma briga sem a participação da polícia ou dos militares.

É comum na América Latina, mais ainda no Brasil, ocorrerem situações como a que agora acontece na Argentina, ou seja, o desaparecimento de pessoas, com no caso de Amarildo, que foi preso pela polícia na Rocinha e em seguida desapareceu. Mas depois de muita mobilização, não só dos familiares e moradores da favela da Rocinha, finalmente policiais foram responsabilizados pela morte do pedreiro, mas até hoje o seu corpo não foi localizado.

Quem imagina que no Brasil o caso do pedreiro Amarildo seja o único, engana-se. Certo que a morte do pedreiro ganhou notabilidade, mas não foi o único nestes anos todos. Segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP), entre novembro de 2012 e outubro de 2013 em todo o país desapareceram 6.034, mas nem todos os casos tiveram a repercussão como o de Amarildo e passaram desapercebidos pela opinião pública, ou seja,  não foram objeto de manifestações populares e as autoridades por isso não se empenharam no sentido de esclarecer as circunstâncias em que se deram os desaparecimentos.

A lembrança do caso do pedreiro Amarildo é válida neste momento, porque de alguma forma se assemelha com o que se passa neste momento na Argentina com Santiago Maldonado. E a única forma de algum dia o desaparecimento for finalmente esclarecido, depende basicamente da exigência com as mobilizações populares. Em outras palavras, só assim o governo de Maurício Macri terá de falar a verdade sobre o que aconteceu. E  espera-se também que diferentemente do que aconteceu com Amarildo, o corpo seja localizado.

Para os argentinos, como aqui no caso Amarildo, restam poucas dúvidas de que Santiago Maldonado tenha sido vítima da repressão do Estado argentino. Por enquanto não há nenhuma resposta concreta, salvo as tais versões que não se sustentam. É preciso, portanto, redobrar os esforços no sentido de se exigir que o governo Macri responda concretamente o que aconteceu. E para isso é necessário também que se redobrem as manifestações, inclusive em outros países, e por que não no Brasil.

Nesse sentido, quanto mais entidades defensoras dos direitos humanos em todos os recantos do mundo pressionarem exigindo o esclarecimento do caso Santiago Maldonado, mais possibilidades de o governo argentino ser obrigado a dar uma resposta esclarecedora e deixar de lado tergiversações que objetivam esconder a responsabilidade de quem porventura tenha cometido a atrocidade.

Não se pode admitir que a polícia reprima com violência, como aconteceu em Buenos Aires que resultou em mais de 30 prisões, as manifestações populares exigindo que o desaparecimento seja esclarecido e punidos os culpados, seja de que corporação forem. Como governos como o de Macri da Argentina só se manifestam quando as pressões se intensificam, não só na própria Argentina, como em outros países, só resta continuarem as manifestações populares tendo como objetivo principal a pergunta “onde está Santiago Maldonado?”