Direitista neoliberal que se apresenta como de centro é o Presidente da França

Mário Augusto Jakobskind - Arte Rafael Sarrasqueiro

Realmente a eleição na França foi acompanhada nos mais diversos rincões com o máximo interesse. Emmanuel Macron venceu Marine Le Pen por 66,10% a 33,9%. Uma lavagem em princípio, mas que deve ser mais bem avaliada, sem se omitir que dos 47 milhões de eleitores, 12 milhões não votaram (25%), além dos quatro milhões que votaram branco ou nulo.

Muita gente demonstrou estar aliviada com a derrota da candidata da Frente Nacional, Marine Le Pen. Na verdade, muita gente votou em Macron, exatamente para evitar a ascensão de Le Pen, não significando apoio integral ao Presidente eleito.

Como Ministro já mostrou a sua cara

O jovem político teve uma ascensão meteórica graças ao apoio incondicional dos meios de comunicação conservadores, desde que Macron se tornou Ministro da Economia de François Hollande, cujo governo de corte neoliberal foi o responsável pela decadência eleitoral do Partido Socialista, que de socialista ou social-democrata dos velhos tempos, não tem mais nada.

A esquerda francesa esteve representada pelo candidato Jean Luc Melenchon, da França Insubmissa, que apesar da boa votação no primeiro turno, 19,5% não conseguiu chegar ao segundo turno. Melenchon liberou seus eleitores, ou seja, não recomendou voto em nenhum deles, mas com uma ressalva: caso Le Pen, o mal maior, ameaçasse,  o voto poderia ser dado a Macron.

Mas não foi preciso, a maioria dos eleitores e partidários de Melenchon, que rompeu com o Partido Socialista em 2008, por não aceitar a guinada neoliberal da agremiação, o que de fato representa uma traição às suas origens, ou não foi votar, ou votou nulo e em branco. Um percentual reduzido, por temor da extrema direita, nem 10% pelos cálculos, votou em Macron.

Novo round eleitoral vem aí

A eleição legislativa que vem por aí assume enorme relevância. Macron criou um partido, intitulado Em Marche, dificilmente conseguirá se fortalecer e o presidente eleito terá de formar alianças, exatamente com os mesmos setores que defendem políticas neoliberais.
Macron como Ministro da Economia de Hollande se voltou contra os trabalhadores, sobretudo decidindo aumentar as horas de trabalho, porque era contra as 35 horas semanais.

Sócio de grande banqueiro

Apesar de ter se tornado alternativa a Le Pen por ter conseguido ir para o segundo turno, Macron, que já foi sócio da família Rotschild, onde enriqueceu, em sua plataforma eleitoral defende, entre outras coisas, a redução do imposto que incide sobre as empresas, de 33,3% para 25%. A justificativa é que dessa forma a França se tornaria mais competitiva e reduziria as despesas públicas progressivamente até atingir o nível recomendado pela União Européia.

Claro, os neoliberais apresentam justificativas para tudo, inclusive o de acabar a cobrança do imposto sobre as grandes fortunas, o que para os seus críticos seria de alguma forma legislar em causa própria. E tem ainda outras propostas que de um modo geral favorecem os banqueiros e empresários.

Macron, em suma, será o Presidente francês que dificilmente terá o percentual de votos na eleição legislativa a mesma que no pleito presidencial. Para a maioria dos analistas, isso é uma questão óbvia, da mesma forma que fortalecer os vínculos da França com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que nos últimos anos se notabilizou por ações guerreiras.

O Presidente eleito, que nunca tinha se candidatado a qualquer cargo só conseguiu mesmo o espaço que teve por ter sido o candidato da grande mídia comercial francesa e obtido o apoio dos banqueiros.

Resta agora aguardar o complemento da eleição com a escolha dos parlamentares na legislativa. Dependendo, claro, dos resultados, Macron poderá ter dificuldades em incrementar o seu programa lesivo aos trabalhadores ou então, se conseguir se aliar com segmentos próximos ao seu ideário, levar adiante o programa radicalmente neoliberal que sempre defendeu.

E com tudo isso, Macron é denominado pela mídia comercial como candidato de centro, quando ele é de direita por excelência. Mas como em outras partes do mundo, os neoliberais fazem o possível e o impossível para não serem considerados de direita. O pessoal vinculado a Macron não é diferente.

A sorte de Macron foi ter enfrentando a candidata da extrema direita, que a maioria absoluta dos franceses evitou. Para muitos analistas, no entanto, Le Pen, que durante a campanha usou linguagem para enganar incautos, se fosse eleita no fundo não seria muito diferente de Macron.

Haja vista o exemplo do similar Donald Trump, que na campanha falava uma coisa e agora na Presidência, como demonstram os seus pouco mais de cem  dias, está cada vez mais próximo do que propunha Hillary Clinton.

Para se ter uma ideia, a candidata do Partido Democrata vibrou quando Trump ordenou bombardear uma base aérea da Síria com a justificativa de uma resposta ao uso de armas químicas acusando o governo de Bashar al Assad, realmente o menos interessado em utilizar tais armas que já tinham sido banidas com a supervisão das Nações Unidas.

Bode na sala

Le Pen, em síntese, foi o bode na sala que os franceses não  queriam de forma alguma, mas Macron vem por aí com o objetivo claro de realizar reformas perniciosas aos trabalhadores. Além, vale sempre mencionar, repetir o esquema Hollande em matéria de OTAN.

Em outros países, inclusive na América Latina, como o Brasil e Argentina, sobretudo, o programa de Macron não difere muito do que tentam levar adiante os dois presidentes, Michel Temer e Maurício Macri.

Pode-se imaginar o que seria do Brasil se os eleitores tivessem de decidir entre um Jair Bolsonaro (Marine Le Pen) e um seguidor de Fernando Henrique Cardoso (Emmanuele Macron)? O bode na sala é fácil de identificar…