Empreendedorismo sustentável

Reciclagem como forma de ambientalização - Foto Divulgação Leandro Abrantes.

Por Daniele Fernandes e Manoel Tupyara

A indignação tomou conta da favela Cantagalo e do Pavão-Pavãozinho, na Zona Sul do Rio de Janeiro,  quando há alguns anos foram considerados dois dos lugares mais sujos da cidade. Diante do problema, um morador resolveu agir. Comunicativo e com uma visão empreendedora, Leandro Abrantes, de 34 anos, fundou, em fevereiro de 2012, uma ONG e o projeto Favela + Limpa, sem nenhuma ajuda do Poder Público.

À época da fundação, Leandro saiu em busca de apoio para implantar a conscientização da necessidade de higiene na comunidade. Recorreu à internet e viu exemplos de países como a China e Alemanha, que se destacam quando o assunto é limpeza urbana e reciclagem. Porém, logo percebeu que ficaria inviável seguir o exemplo desses países, pois não tinha nenhum apoio financeiro, embora tivesse procurado empresas privadas e públicas.

Dificuldades que Leandro enfrentou com garra. A  exemplo do que fizera aos 17 anos quando seu pai – ex-presidente da Associação de Moradores do Vidigal, favela também localizada na Zona Sul do Rio, e proprietário de três padarias – morreu assassinado no ano 2000. Com a morte do pai, perdeu o pouco que tinha, mas não quis morar com uma tia, pois não queria ser um peso morto na vida de ninguém. Passou a morar nas ruas e, desesperado, chegou a tentar o suicídio. Depois de um tempo, porém, conseguiu um emprego de vendedor e contínuo.

Reciclagem como forma de ambientalização – Foto Divulgação Leandro Abrantes.

Como presidente da ONG, ganhou alguns prêmios por seu trabalho inovador de conscientização de higiene na favela do Cantagalo.  Porém, foram cinco anos de luta sem qualquer ajuda do Poder Público. Ele tem três irmãs – uma morando na Alemanha e duas no Vidigal -, e dois irmãos, que o ajudam na gestão da empresa.

Agora, com recursos próprios, Leandro está de viagem marcada para os Estados Unidos, a princípio no estado da Califórnia. O objetivo é saber como funciona o trabalho de reciclagem desenvolvido pelos americanos para importar o serviço.

Para trazer recursos e diminuir o impacto ambiental, começou a fazer a conscientização, focada  no  mutirão de outras ONGS, que possuem o mesmo  objetivo. Além disso, teve a ideia de criar oficinas para confeccionar artesanato com materiais oriundos do lixo da comunidade, tais como: plásticos, varetas de bambu, garrafas pets, latinhas, óleo de cozinha queimado entre outros. Esses materiais se transformavam em luminárias, pufes, brinquedos, mesas, sabão etc. Os membros da comunidade, inclusive as crianças, participavam com muito interesse. Só que o artesanato não foi suficiente. O projeto tinha que ter recursos financeiros para a compra de materiais. Com o progresso da oficina ele precisava de prensas e outros maquinários.

Leandro tomou a decisão de buscar mais materiais em vias públicas. Com menos de uma tonelada, o carreteiro não fazia o frete. Leandro juntou mais de duas toneladas de material.  Para isso, levou seis meses colhendo nas ruas. Agora, Leandro expande o seu negócio na comunidade. Com uma visão empresarial faz um círculo “virtuoso”. Ele compra eletrodomésticos com defeito, conserta-os e revende-os a quem interessar. Isso também acontece com as empresas que estão falidas, onde ele compra todo o material sucateado, realiza os devidos reparos e depois revende.

Como ele mesmo disse: “esses eletrodomésticos que virariam lixo atravancando as vielas da comunidade, são reformados e aproveitados na própria localidade”, pois compra os eletrodomésticos, reforma e vende a baixo custo para os moradores do mesmo local. Mas o empresário não para por aí, também faz troca de óleo de cozinha para transformar em sabão, para isso procura comerciantes de bares dentro e fora da comunidade.

Leandro criou um habito no Pavão-Pavãozinho de trocar o óleo de cozinha queimado por produtos de limpeza. O morador leva o óleo de cozinha usado e troca por pano de chão, sabão, vassoura ou água sanitária. A troca é de acordo com a quantidade do óleo queimado que a pessoa leva. Essa troca também é feita com os comerciantes. Com isso ajuda a preservar o meio ambiente.

Leandro pretende criar uma horta sustentável, onde fará a troca de produtos recicláveis por hortaliças. Segundo o empresário, ele junta de 1,5 a duas toneladas de óleo queimado, onde 70% são transformados em biodiesel. O empresário sempre menciona a preocupação com o salário dos empregados. Ele lembra que, em época de crise, paga os funcionários e pouco sobra para ele.

Reciclagem como forma de ambientalização – Foto Divulgação Leandro Abrantes.

Com um espaço de trabalho limitado, Leandro diz que tem que ter uma produção comedida. Ele trabalha com uma tonelada de garrafas pets, 500 quilos de outros tipos de plásticos. Uma tonelada de latinhas de alumínio, no mínimo e, dependendo da época os números sobem consideravelmente.
Segundo Luís Bezerra do Nascimento, que foi presidente da Associação dos Moradores do Cantagalo, o trabalho de reciclagem é uma das soluções para melhora da qualidade de vida das comunidades.

”Com esse trabalho, o lixo da comunidade diminuiu em 50%, o que contribui para a redução de doenças. O material reciclável, que seria abandonado nas lajes e vielas da comunidade, é reaproveitado economizando energia. Antes do projeto, o caminhão de coleta não conseguia levar o lixo todo e o morro continuava sujo. Os moradores criaram o hábito de não jogarem as garrafas, copos de plásticos e latinhas pelo caminho. Vendem para a reciclagem”,  destaca Bezerra. Ele lamenta a falta de apoio da Prefeitura e demais órgãos públicos para a expansão deste trabalho tão importante.

Regina Tchelly, fundadora do Projeto Favela Orgânica, declarou que apoia e é fã do trabalho que Leandro desempenha na comunidade do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho. Ela destaca a importância do Projeto Favela + Limpa para a economia e geração de renda na comunidade. Ela lembra com satisfação que esse projeto está rendendo frutos, pois Leandro também coordenou vários mutirões de limpeza na favela da Babilônia, no Leme, onde Regina reside. Ela espera que o Projeto Favela + Limpa perdure e se estenda por várias comunidades trazendo muitos benefícios.

Leandro administra o Projeto sozinho, sem parcerias. Futuramente, ele pretende abrir uma empresa para comercializar os materiais e os produtos prontos.  Ele atuou numa igreja evangélica, com um projeto de reciclagem (plásticos e latinhas), onde envolvia todos os membros, cujo lucro era revertido para o teatro e compra de materiais. Leandro ensinava às crianças do grupo de teatro, coral e dança a reciclar materiais para preservar o meio ambiente.
Com o vasto conhecimento de reciclagem que tem, Leandro visitou o município de Ibirataia, no litoral Sul da Bahia, a 335 km da capital, a convite dos missionários Antoniel Alves Albuquerque e Damiana Gomes de Albuquerque. Seu objetivo foi conscientizar a comunidade da Pedreira, onde faltam saneamento básico e pavimentação. Iniciou a reciclagem do lixo urbano e a coleta seletiva. Aproveitou e transmitiu a importância do cultivo da horta comunitária sustentável e o reaproveitamento de alimentos. Percebendo a falta de emprego na comunidade, Leandro ensinou a técnica de extração do bronze e do cobre para a comercialização e reciclagem.