Nem sempre dá certo

Por Solidário, por Kleber Vieira

Publico em 21 de Janeiro de 2017

No mundo esportivo, em várias modalidades, há muitos exemplos de dirigentes que foram atletas, mas isso não é garantia de sucesso. Nem sempre, quem foi destaque ou um vencedor em sua área será um bom gestor. Não são poucas as histórias positivas, de gente que, após deixar de competir se dedicou à gestão, mas também são inúmeros os exemplos de fracassos administrativos de quem fazia melhor competindo em sua especialidade.

João Havelange na época de atleta do Fluminese

No futebol, um dos homens mais bem sucedidos foi Jean-Marie Foustain Codefrois Havelange, ou João Havelange. Ex-atleta de polo aquático do Fluminense, ele se notabilizou ao dirigir a Confederação Brasileira de Desportos, órgão que reunia as federações de todas as modalidades esportivas no país.

Vários foram os títulos e as boas colocações de diversas modalidades, como os dois títulos mundiais de basquete, por exemplo, com o técnico Togo Renan Soares, o Kanela, comandando um time que tinha o astro Rosa Branca, além de grandes jogadores como Wlamir Marques e Ubiratan, entre outros. No futebol, a CDB emplacou o tricampeonato mundial de futebol, com três seleções que encantaram o mundo em 1958/62/70, tendo Pelé como expoente máximo.

Tal foi o sucesso de Havelange na CBD (rebatizada, anos depois, como Confederação Brasileira de Futebol), que em 1974, ele se candidatou à presidência da Fifa, e venceu o pleito, substituindo o inglês ‘Sir’ Stanley Rous. Havelange reinou por 24 anos, até passar o bastão para o seu secretário-geral, o suíço Joseph Blatter, mas continuou como presidente de honra, e um prestígio político jamais visto no mundo. A Fifa de Havelange tinha mais afiliados e, segundo alguns, mais poder do que a Organização das Nações Unidas, ONU. Foi capaz de, por exemplo, parar uma guerra,na África, para a Seleção Brasileira se apresentar. Blatter continuou a jornada de crescimento da entidade.

Platini na Uefa


A União Européia de Futebol, ou Uefa, tinha à frente o dirigente sueco Lennart Johansson, mas o grande sucesso ocorreu na gestão de um ex-jogador francês, Michel Platini.

À frente da entidade, ele modernizou as fórmulas de disputa e a Copa Europeia de Seleções, bem como a Champions League, principal competição de clubes do Velho Continente, se tornaram altamente rentáveis.

 

Outras modalidades

No vôlei, a ascensão do Brasil, por exemplo, se deveu a um ex-jogador de média expressão, Carlos Artur Nuzzman. Ele assumiu a presidência da Confederação Brasileira de Voleibol e alavancou o Brasil a uma potência, nos idos de 1980. O espetacular título do Mundialito de 1982, vencido no Maracanãzinho, na final contra a poderosa União Soviética de Savin e Zaitsev foi a grande arrancada.

Daí veio o histórico jogo de vôlei em pleno gramado do Maracanã, então maior estádio do mundo, em uma noite chuvosa, o que mostrou que o Brasil era capaz de montar equipes fantásticas e ao nível das melhores do mundo: William, Montanaro, Renan, Bernard, Xandó e Fernandão faziam parte desse grupo – Bernardinho, atual treinador, era reserva.

O sucesso de Nuzzman, à frente da CBV o levou à presidência do Comitê Olímpico do Brasil, de onde não quer sair. Seu sucessor na entidade brasileira, Ary da Graça Filho, também elevou o nível do vôlei no Brasil e modernizou as competições internas. Hoje, Ary Graça é presidente da Federação Internacional de Volley Ball.

Coaracy Nunes Filho é ex-nadador e candidatou-se à presidência da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos nos anos 1980. Desde então, a natação, com medalhas de ouro, prata e bronze em olimpíadas e mundiais; o polo-aquático e os saltos ornamentais têm evoluído ano após ano.

Acomodação e corrupção

O sucesso e o poder de dirigentes citados acima também trouxeram acomodação, perpetuação no poder e corrupção no bojo de suas administrações. Havelange, Blatter e Platini tiveram seus nomes citados em diversas investigações na Europa e, em consequência disso, perderam seus cargos. O que Nuzmann, Ary e Coaracy têm em comum com Blatter e Platini, além de terem sido praticantes das modalidades que vieram a dirigir – Havelange foi nadador e comandou o futebol -, são as denúncias de corrupção e desvio de dinheiro, um câncer que precisa ser extirpado do meio esportivo e da sociedade em geral.

 

Nos clubes
Ex-jogadores e atletas que viraram dirigentesEm alguns clubes europeus, há a obrigatoriedade de seus dirigentes terem sido ex-atletas, caso do poderoso Bayern Munich, que teve como presidente ninguém menos do que o ‘kaiser’ Franz Beckenbauer, ídolo máximo do clube e do país. Ele viria também a ser presidente da Bundesliga (Liga de Futebol da Alemanha) e do Comitê Organizador da Copa do Mundo de 2006. A evolução do futebol alemão foi flagrante, sob a direção de Beckenbauer, atraindo a atenção do mundo inteiro.

No Brasil…

Os clubes brasileiros ainda são dirigidos por amadores, torcedores fervorosos que, invariavelmente, falam com o coração e cometem muitos erros. Mesmo os grandes campeões como Palmeiras, Corinthians, Flamengo, Botafogo, Vasco, Fluminense, Grêmio, Bahia, Vitória e Sport, por exemplo, tiveram administrações alternando sucesso e burradas. Isso, graças a pessoas despreparadas, que queriam apenas o poder, mas foram maus gestores, criando dívidas impagáveis até hoje. O ProFut, programa governamental que cobra responsabilidade dos gestores desses clubes, foi lançado há dois anos e tenta corrigir essas distorções.

O ex-atacante Roberto Dinamite arriscou seu prestígio de maior ídolo da torcida vascaína ao assumir a presidência do clube, rebaixado em sua primeira gestão, em 2009. Atleta de sucesso e artilheiro inquestionável, ele se viu abandonado por seus principais colaboradores, após trazer o clube da Segunda Divisão, para a qual caíra naquele mesmo ano, e de dar o título da Copa do Brasil, ambos em 2011. O clube foi rebaixado novamente em 2013, e o ídolo Roberto sucumbiu ante as críticas à sua malfadada gestão.

Sobre uma possível volta ao comando do Vasco…

“Presidente nunca mais”, declarou ele, durante o debate ‘A Grande Jogada’, promovido pela Sport, na Lona Cultural de Jacarepaguá.

Acho que dá

O também ex-atacante Luciano Vianna, contemporâneo de Roberto Dinamite nos gramados, acredita que pode ter sucesso como dirigente do Americano, de Campos, cidade do Norte Fluminense. O clube da Segunda Divisão do Rio está longe de ter o prestígio dos tempos em que o presidente da Federação de Futebol era Eduardo Vianna da Silva, o popular Caixa D’Água, um torcedor ferrenho do alvinegro campista – chegou a ganhar a Taça Guanabara e ser vice-campeão Estadual.

Por sinal, até o seu estádio Godofredo Cruz, havia sido posto a leilão, para pagar dívidas. Mas Luciano Vianna ainda acha que, apesar disso, ter sido jogador do Americano lhe dá suporte para ser um bom presidente.

“Em primeiro lugar, conheço a casa, tenho identificação com a torcida e amor ao clube. Estes fatores, aliados a uma boa equipe ao meu lado me dão a certeza de que farei uma boa gestão”, disse ele a uma revista local.

Será?