Exposição Orixás: quando o mito veste o corpo

Exposição retrata a cultura  Yorubá e humaniza a força da natureza.

Foto divulgação

Por Daniele Fernandes e Manoel Tupyara

A Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, recebe na Triobienal, a mostra – Orixás: quando o mito veste o corpo. Uma exposição fotográfica que visualiza o sagrado da mitologia africana. O projeto, foi idealizado por Margo Margot, que navegou no universo literário e pesquisou a fundo a religiosidade Yorubá. Para isso, frequentou cursos livres sobre o tema na UERJ, estudou na Casa dos Pretos Novos, leu vários livros segmentados de diversos autores, como por exemplo, Reginaldo Prandi, Verger e Carybé.

Foram três anos de estudos intensivos, que incluiu visitas ao terreiro de Candomblé do babalorixá Paulo José dos Reis, e frequentou festas dos Orixás. A exibição é composta por pessoas célebres, que emprestaram suas figuras para ratificarem suas crenças nos dogmas e doutrinas da religião, como Gilberto Gil, que retrata o deus do branco. Para isso usou uma veste sacerdotal com mais de 80 metros de pano. Além do cantor, estão presentes também outros artistas – Vidal Assis, Sergio Cesar, Lui Mendes, João Donato e Zezé Motta, todos a reproduzir uma divindade iorubana. Orixás: quando o mito veste o corpo possui fotografias de Daryan Dornelles e Stefano Martini, direção de produção de Elissandro Souza de Aquino e curadoria de Claudio Partes.

Foi finalista da Incubadora Cultural Petrobras e teve exposição pública no Espaço do Centro Cultural da Justiça Federal, que expõe de maneira diferenciada a universalidade dos deuses da África conhecidos no Brasil. Margo Margot, a criadora do projeto, extinguiu os estereótipos e os mostra de maneira leve e suave. Obá, uma guerreira pouco cultuada em nossa terra, cuja mensagem para a criadora da exposição significa – “As guerras são inevitáveis, e que, apesar das marcas das batalhas, a vida é a grande conquista”. E nesta batalha Margot foi a protagonista. Teve o espaço do CCJF aprovado para a mostra, obteve o amparo da Incubadora Cultural Petrobras como o melhor projeto e adquiriu a maior pontuação.“O produtor Elissandro Souza de Aquino compareceu às reuniões durante dois meses. A Incubadora não financia: ela orienta o produtor a lidar melhor com o projeto e mexer com a papelada” – explica Margo Margot. Quando ela enviou o projeto para a Petrobras foi recusado. A idealizadora do projeto acha muito estranho o fato do trabalho ser aprovado pela Incubadora Cultural Petrobras e depois a própria estatal rejeitar, afirmando que o projeto não era viável. Ressalta que essa contradição ocorreu na mudança de governo; a anuência aconteceu na gestão Dilma Roussef, e a recusa ocorreu já na administração do presidente Michel Temer. Indignada com a falta de probidade da empresa estatal, quando ela e o produtor Lissandro foram os financiadores do projeto, Margo Margot tem consciência de que o espaço da mostra só foi realidade porque o trabalho já tinha sido publicado em edital. “Se a gente chegasse agora com essa exposição no CCJF eles iriam recusar o trabalho. Isso foi dito lá dentro: uma pessoa disse que foi bom a gente ter entrado antes, porque se nós estivéssemos tentando entrar agora, na atual conjuntura, nós seríamos recusados”- relata Margo.

Foto divulgação

Diante desse quadro, Margo Margot afirma que as portas estão se fechando, que só restam brechas. E que isso tem que ser combatido com resistência, como passeatas e protestos. Ainda salienta que só conseguiu este espaço por meio de resistência e luta.

A idealizadora da exposição revela que seria uma pretensão dizer que conseguiu retratar uma energia da natureza, visto que essas energias e as divindades são tentáculos de Deus. Então as humanizou para que pudéssemos nos aproximar. Na verdade, elas não têm formas, o africanismo de raiz é a própria Antropologia Africana. “Nós sabemos que essas divindades não têm formas, nós as humanizamos, colocamos roupas vermelhas em Iansã, a gente humaniza essa divindade, apesar dos mitos. Por isso a exposição recebeu a denominação de Orixá: quando o mito veste o corpo. Tentamos aproximar mais essas energias que estão no universo” – explica Margo Margot.

E finaliza a entrevista ao lembrar uma das nossas mazelas, que é a intolerância religiosa “Temos que ter muito amor e muita fé neste momento de intolerância religiosa, um retrocesso que estamos vivendo em nossa cultura – assegura.