Festa de aniversário

Festa de aniversário

Carla Giffoni - Arte Rafael Sarrasqueiro

Não teve como fugir.

Cá está Tobias, em pleno sábado ensolarado, em frente à casa infantil, respirando fundo para poder entrar naquele mundo que lhe é tão estranho e assustador. Mas não teve jeito, foi um dos poucos funcionários que a chefedurona convidou para participar do aniversário dos seus filhos gêmeos. Sabe como é, em tempos de crise, não se pode dar bobeiracontrariandoa superior. Faltar aos festivos seria dar um tiro certo para uma rescisão de contrato.

Coluna da Carla
Festa de aniversário

Resultado: em pleno sábado, dia da semana em que sempre desfruta de uma ‘pelada’com a turma, lá está Tobias de camisa e calça social carregando dois presentes – um embrulho de laço rosa e outro azul, não sabendo sequer como segurá-los. Já foi um custo encontrar algo para os pimpolhos. Solteiro convicto, não tem acesso às coisas infantis.Os sobrinhos moram em Botucatu, e ele só os vê a cada dois ou três anos.

Tobias, com o convite na mão, confere com certa dificuldade o nome do salão de festa; é ali mesmo. Guarda o convite no bolso, toma coragem e entra no mundo de faz de conta, sentindo-se a mais perdida das criaturas.

Nem bem entra, é recepcionado por uma revoada de crianças, que vêm em sua direção, parecendo que vão atropelá-lo, mas elas só queremo carrinho de pipoca que acaba de chegar.

Ao ver aquela manada infantil vindo em sua direção, Tobias chega a dar um pulo para trás, esbarrando numa senhora gorda que também entra. A matrona resmunga algum impropério, referente à genitora dele, mas Tobias faz ouvidos de mercador e segue em frente.

“E a tarde mal começou!”, pensa, dando um suspiro resignado.

Ele olha em volta: muitas cores, muitas crianças, muitas mulheres, poucos homens. Uma gritaria só, e ele sem conseguir enxergar ninguém conhecido, inclusive a dona da festa, sua chefe-generala.

Segurando os presentes, Tobias caminhaolhando ao redor, tentando encontrar uma saída naquela profusão de cores, mas nada.

À direita, um mágico tenta tirar um coelho da cartola,e uma menina, endiabrada, querporque quer ver como se faz o truque; à esquerda, um menino terrorista, com certeza treinado pelaAl-Qaeda, tira meleca do nariz e passa na bandeja dos brigadeiros. À sua frente, um grupo de mães o olha como se quisesse comê-lo vivo. Devem ser divorciadas ou, pior, solteironas querendo mudar a condição civil.

Tobias procurapela chefe, mas só consegue encontrar uma desengonçada funcionária da casa infantilfantasiada de Fada Sininho – apesar de a garota mais parecer a mulher do Gigante da história do João e opé de feijão.

No meio da gritaria, Tobias ainda tenta perguntar alguma coisa para a Fada, com muita dificuldade.

– Você sabe onde está a doutora Carmela Silva e Silva?

– Quê?

– A dona da festa? – gritaa plenos pulmões.

– Ah, ela tá ali – diz, apontando na direção do carrinho do algodão-doce.

Quando Tobias tenta ir na direção apontada, a funcionária não deixa, querendotirar dele os benditos troféus-presentes.

 

–Você pode deixar os presentes aqui comigo. – diz a garota, puxando os brinquedos das mãos dele.

Parece um cabo de guerra: a menina puxa de um lado, e Tobias de outro enquanto argumenta com a garota.

– De jeito nenhum, minha filha! Paguei uma fortuna e mandei fazer os maiores embrulhos justamente pra impressionarminha chefe!

– Mas, senhor, todos os convidados estão deixando aqui. O senhor não poderá…

– E como vou provar pra minha chefe que os presentes fui eu que dei?! O meu décimo terceiro tá todo aí, não posso facilitar, não!

–Estamos etiquetando todos os embrulhos, ela saberá qual é o presente do senhor!

–Sei não… não causa o mesmo impacto que dando pessoalmente.

– Acho que se o senhor der os presentes pessoalmente vai demonstrar pra sua chefe que tá querendo mesmo impressioná-la. Não pega bem.Além do quê, como ela vai guardar? Vai acabar ficando com raiva do senhor. Melhor não dar mole, não é?

Com um argumento tão poderoso, a possibilidade de chatear a chefe, Tobias acaba deixando os presentes com a Fada Sininho trabalhada no fermento. Mas Tobias exigeque o nome dele seja escrito em letras garrafais, com grande destaque.A Fada atende ao seu pedido, e Tobias sai na ingrata missão impossível de encontrar sua chefe naquele mar colorido de crianças e gritarias.

–Fazer o quê, né mesmo? Vamos, Tobias, coragem! Afinal, você é um homem ou um rato? – pergunta a si mesmo, engolindo em seco.

Com a coragem de um rato cercado por uma gataria impiedosa, Tobias segue em frente, agora de mãos vazias e sem saber onde colocá-las.

Ele procura avistar sua chefe-generala entre o mafuá que impera, mas não tem sucesso. Nisso, uma garçonete gordinha e vesga, fantasiada de duende,lhe oferece brigadeiros numa bandeja enfeitada. Tobias olha para os brigadeiros, olha para a duendevesga,e nesse momentopassa perto dele o terrorista-mirim que lhe lança olhares esperando que ele coma o doce melecado.

– Não, obrigado. – diz Tobias, tentando evitar a cara de nojo.

– Mas é brigadeiro de chocolate belga com recheio de trufas brancasda Toscana e granulado de açafrão espanhol caramelizado. O dinheiro gasto nesse brigadeiro dava para me sustentar durante cinco anos – garante a garçonete,mostrando uma pontinha de despeito.

– Não, muito obrigado. – e tenta se esquivar.

– A dona da festa caprichou – constata – Tem certeza de que não quer comer nem unzinho?

Temendo o pior, que a chefe o esteja vendo recusar a iguaria refinada,Tobiaspega um brigadeiro com as mãos trêmulas.

Olha para o doce.

Olha para a garçonetevesga, que o incentiva silenciosamente.

Fecha os olhos e o joga rapidamente dentro da boca, engolindo de supetão, sem saborear a iguaria. Ao abrir os olhos, dá de cara com o terrorista-kid, que comemorao infortúnio de Tobias, que sai fazendo ‘cara de paisagem’, para não dar o braço a torcer para l’enfantterrible.

E aí começa a pagação de mico que parece que Tobias tem a força espiritual para atrair:logo de cara, o recreador coloca na cabeça do pobre infeliz um chapéu que tem a carinha de elefante; a tromba cai em cima de seu nariz. Não satisfeito, o funcionáriofaz com que o azarado do Tobias dance ao som dohitretrôO passo do elefantinho. As crianças vão ao delírio,e algumas, mais afoitas, sobem no pequeno tablado para dançar junto.

Cada vez mais assustado com a euforia mirim, Tobias tenta se resguardar, andando o mais longe possível da enorme confusão.

Nisso, surgem três garotos que vêm em sua direção dirigindo minimotos, que só podem estar turbinadas com eletricidade e açúcar. Tobias tenta se desviar, masacaba sendo puxado pelo recreador, que pensa que ele está se oferecendo para participar da brincadeira.

O recreador, vendo o sucesso da brincadeira capitaneada por Tobias, tenta impedir quando este saía de fininho, enquanto os pirralhos, elétricos, pulam e dançam, numa gritaria só. Mas Tobias segue em frente, não aceitando as argumentações do rapaz.

De repente, ele parece ouvir seu nome; para e olha para o lado, pensando que finalmente sua chefe o viu, quando, repentinamente, é atropelado pela enorme matrona que desce do tobogã, derrubando-o como se ele fosse um frágil pino de boliche. Com o impacto, os dois acabam rolando pelo chão, num espetáculo deprimentemente cômico. Com dificuldade, Tobias se levanta, enquanto os que estão ao seu redor caem na gargalhada.

É quando a Fada Sininho marombada anuncia ao microfone que é hora do ‘Parabéns’.Uma multidão se forma ao lado da mesa do bolo. Tobias tenta se aproximar e ver alguma coisa, mas os pais, querendo que seus pimpolhos vejam o glamour do evento, colocam as crianças nos ombros, dificultando que Tobias enxergue com facilidade.

Ao som de Celine Dion, muito gelo seco e chuva de papel picado nas cores do arco-íris, os pais,encabulados, entram carregando um bebê com aparência de um ano.

Quando Tobias vê aquilo, fica confuso. Muito confuso. Afinal, sua chefe é mãe de gêmeos e os pirralhos têm sete anos.

Tobias olha para o lado, tentando entender a situação, quando ele vê a duende vesga. Aflito, pega a garçonete pelo braço.

– Aqui não é o aniversário dos gêmeos da doutora Carmela Silva e Silva?

– Quem?

– Eu fui convidado para o aniversário de gêmeos, e ali tá um menininho de um ano! Olha, eu tenho certeza, é aqui! – diz Tobias, tirando do bolso da calça o convite de aniversário.

A duende vesga, com dificuldade de enxergar, pega o convite e confere.

– Realmente, o senhor está no local certo. Mas o aniversáriodos gêmeos tá com a data de amanhã. Olhe. – diz, mostrando o convite amassado.

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Carla Giffoni: Jornalista, escritora e roteirista.
Atuando há 20 anos como jornalista nas Editorias dePolítica, Polícia, Economia, Cultura e Cidades, em revistas, jornais, sites e emissora de TV, entre eles:
Tribuna da Imprensa, Revista Menorah, repórter do Portal de Notícias SolidáRio, TV Bandeirantes (BM), jornal A voz da Cidade, Rádio do Comércio. Colaboradora do roteirista José Carvalho no filme “Vidas partidas”; colaboradora do roteirista Doc Comparato para o projeto “Peritos da Verdade”. Pós-graduada em Jornalismo Cultural e em Roteiro para Cinema e TV (UVA); graduada em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo – e
também em Letras/Formação de Escritor (PUC-RJ).

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