Fogão, onde se ‘preparam’ bons treinadores

Do Solidário, por Kleber Vieira

Publicado em 20 de Fevereiro de 2017

Há algum tempo que são preparados, na ‘cozinha’ de General Severiano, bons treinadores para o futebol brasileiro. O Botafogo deu ao Brasil um grande número de comandantes de suas vitoriosas equipes. Daí, que o carinhoso apelido de ‘Fogão’, nesse caso, não se refere apenas à grandiosidade do Glorioso, mas ao lugar em que as receitas ganham forma.

Impossível falar de todos, já que são muitos, porém vamos citar alguns dos mais destacados na constelação dos grandes técnicos de futebol criados no alvinegro.

Neném Prancha

Poucos conhecem Antônio Franco de Oliveira, que foi um grande revelador de talentos nas décadas de 1940 e 1950 no Botafogo. Mas se falarmos seu apelido, Neném Prancha (Resende-RJ, 16/06/1906 – Rio de Janeiro, 17/01/1976), aí sim: muitos dirão que foi um dos grandes caça-talentos, principalmente para o Botafogo. Uma de suas mais famosas descobertas foi o irrequieto craque Heleno de Freitas, cuja biografia foi escrita pelo rubro-negro Marcos Eduardo Neves, e tendo sido representado no cinema por Rodrigo Santoro.

Neném Prancha foi roupeiro, massagista, olheiro e técnico de futebol. Além de descobridor de talentos, ficou mais famoso por suas frases de efeito, o que lhe rendeu a alcunha de O Filósofo do Futebol, conferida pelo jornalista Armando Nogueira, torcedor do Botafogo. Muitas das tiradas cômicas atribuídas a Neném Prancha, na verdade, foram de são de outros autores, como o jornalista e alvinegro João Saldanha.​

O próprio Neném Prancha explicou a origem da famosa frase “pênalti é uma coisa tão importante, que quem deveria bater era o presidente do clube”. Ele diz: “O que eu falei foi que pênalti é tão fácil que até o presidente pode bater”.​

Outra frases de Neném Prancha:

“Goleiro que é bom dorme com a bola, se for casado, dorme com as duas”.​

“Futebol não tem mistério: quem está com a bola ataca, quem não está se defende”.​

Paraguaio

Egydio Landolfi, o Paraguaio, ex-jogador do Botafogo, também se destacou como treinador da base alvinegra, tendo sido tetracampeão carioca de juvenis, em 1961/62/63/64. Mas foi seu companheiro de time, Neca, quem mais se destacou nesta função, tendo levado a garotada do Glorioso ao título do Torneio Mundial Oficial Infanto-Juvenil de Croix, na França, em 1973, o Tricampeonato Carioca Infantil em 1968/69/70 e o Torneio Início de Infanto-Juvenis em 1963.

Neca

Manoel dos Santos Victorino, mais conhecido  como Neca, é tido como um dos  maiores descobridores de talentos para o Botafogo e o futebol brasileiro. Como jogador, iniciou a carreira no São Cristóvão, passou por São Paulo e Botafogo, onde estreou em 1950, no empate em 2 a 2 com o Flamengo. Ficou no alvinegro até 1951, e encerrou a carreira no São Cristóvão, em 52.

Como treinador, começou na Portuguesa, do Rio de Janeiro, mas foi no Botafogo, onde trabalhou por 30 anos, que se notabilizou como descobridor de talentos, entre os quais, Jairzinho, Rogério, Roberto Miranda, Paulo Cezar Caju e Osmar Guarnelli. Foi quem criou as escolinhas de futebol no Brasil.

Joel Martins

Joel Martins da Fonseca nasceu em São João de Meriti, município da Baixada Fluminense, em 14 de fevereiro de 1935. Começou a jogar nos juvenis do America, passando depois para o Fluminense, tendo atuado como profissional do Botafogo. Ao encerrar a carreira, em 1969, foi treinar as divisões de base do próprio alvinegro e conquistou os títulos de campeão carioca de juvenis em 1975, 1977 e 1978.

Também foi bicampeão brasileiro de juniores em 1977/78, no comando da seleção carioca.

João Saldanha

Gaúcho de Alegrete, João Alves Jobim Saldanha foi o treinador que levou o Botafogo ao título carioca de 1957.​

Depois de alguns anos à frente do time, decidiu abandonar a carreira e se formou bacharel em jornalismo, sendo um dos mais destacados cronistas esportivos do País.​

Sua fama e personalidade forte o fizeram chegar à Seleção Brasileira em 1969, levado pelo então presidente da CD João Havelange. Saldanha convocou e treinou a equipe com vistas à Copa do Mundo do México, mas a mesma personalidade forte que o alçou o derrubou do comando do ‘scratch’, que ficou conhecido como As Feras do Saldanha, por possuir craques como Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho, Paulo Cezar Caju, Gerson, Piazza, entre outros, e que viria a conquistar o tricampeonato em 1970.​

Saldanha ganhou o apelido de João Sem Medo, dado pelo amigo Nélson Rodrigues, torcedor do Fluminense, jornalista e escritor. Conta a história que Saldanha teria rechaçado uma suposta interferência do presidente da República, o general Emílio Garrastazu Médici, que queria a convocação do atacante Dario, do Atlético Mineiro.

“O senhor escala os seus ministros e eu a seleção”, teria dito Saldanha, antes de ser convidado a se retirar do comando da equipe canarinho. A filiação do treinador ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) teria sido outra desculpa para a saída dele. O episódio, até hoje, é nebuloso.

Saldanha morreu em Roma, durante a Copa do Mundo da Itália, em 1990, quando trabalhava para a TV Manchete e o Jornal do Brasil.

Zagallo

Sem dúvida, Mário Jorge Lobo Zagallo é o mais famoso treinador a começar sua carreira no Botafogo. Embora tenha sido astro e torcedor do Flamengo, pendurando as chuteiras em 1966, foi em General Severiano que Zagallo experimentou o gosto de dirigir a chamada ‘Selefogo’, devido à quantidade de jogadores que o Glorioso cedeu à Seleção Brasileira.​

È o único tetracampeão mundial de fato, com dois títulos como jogador, um como treinador e outro como coordenador da Seleção Brasileira. Também foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento do futebol no mundo árabe, ao dirigir as equipes do Kwait, Arábia Saudita e Emirados Árabes.​

Em 1968, Zagallo ganhava seu primeiro título no alvinegro, com a conquista do Campeonato Carioca em um jogo arrasador, contra o favorito Vasco. Na decisão, goleou por 4 a 0, no Maracanã. A equipe entrou em campo com Cao, Moreira, Zé Carlos, Leônidas e Waltencir; Carlos Roberto e Gérson; Rogério, Roberto, Jairzinho e Paulo Cezar. Os gols foram de Roberto, Rogério, Jairzinho e Gérson.

No ano de 1969, o Botafogo de Zagallo ganhou a Taça Brasil – considerada como o primeiro título brasileiro, depois da unificação promovida pela CBF, ao aplicar uma goleada de 4 a 0 no Fortaleza, no Maracanã (o placar do primeiro jogo,no Castelão, foi 2 a 2).​

A ‘Selefogo’ formou com Cao, Moreira, Chiquinho Pastor (Leônidas), Moisés e Waltencir; Carlos Roberto (Nei Conceição) e Afonsinho; Rogério, Roberto, Ferretti e Paulo Cezar. Os gols foram de Ferretti (2), Roberto e Afonsinho.

Jair Ventura

A mais jovem descoberta entre os treinadores é Jair Ventura, que dirige a equipe principal do Botafogo desde o ano passado. Filho do ex-atacante Jairzinho, que também Responsável por uma arrancada sensacional, quando saiu do comando da equipe Sub 20 e tirou o time principal da zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro, classificando-o para a fase eliminatória da Copa Libertadores da América.​

A equipe se classificou de forma dramática para a fase seguinte, ao derrotar o Colo Colo, do Chile, por 2 a 1 no Engenhão, e empatar em 1 a 1, em Santiago. Agora, o jovem Jair Ventura tem o grande desafio de sua carreira: passar pelo Olimpia, do Paraguai, três vezes campeão da Libertadores, e levar o Botafogo à fase de grupos da competição.

A primeira batalha já foi vencida por 1 a 0, com um golaço de Rodrigo Pimpão, no Estádio Nilton Santos (Engenhão), no Rio. O segundo jogo será na quarta-feira, dia 22, no Estádio Defensores Del Chaco, em Assunção, e o Botafogo leva a vantagem do empate. Caso faça um gol, obrigará o Olímpia a marcar três tentos, já que um gol na casa do adversário dá grande vantagem ao visitante. Nesse caso, o Botafogo poderá perder por diferença de um gol, a partir de 2 a 1; 3 a 2 ou 4 a 3 e daí por diante. Caso perca pelo mesmo placar que venceu, haverá cobrança de tiros livres da marca do pênalti. Diferença de dois gols (bate na madeira aí, Cachorrada!*) dá a classificação ao Olimpia.

Bebeto de Freitas

Mas não é só treinador de futebol que o Fogão prepara. No vôlei, o vitorioso Bebeto de Freitas comandou o time  alvinegro e chegou à Seleção Brasileira. Foi o comandante da primeira grande fase do Brasil, tendo conquistado o Mundialito de 1982, no Rio, ao bater a poderosa União Soviética, e ganhar a primeira medalha olímpica, de prata, em 1984, em Los Angeles.​

Também comandou a seleção da Itália,com a qual ganhou a Liga Mundial. Bebeto chegou a ser presidente do Botafogo.

Menção honrosa

Embora não tenha iniciado a carreira de treinador no Botafogo, Carlos Alberto Torres, o eterno Capita, faz parte da galeria de ouro do Botafogo. Torcedor do Botafogo, foi o treinador que dirigiu o time na vitoriosa campanha da Copa Conmebol, primeiro título internacional do clube, em 1993, na histórica decisão com o Peñarol, do Uruguai.​

Com dois empates, em 1 a 1 e 2 a 2, no tempo regulamentar, 3 a 3 na prorrogação, o que levou a decisão para as cobranças de tiros livres. O Botafogo venceu por 3 a 1. No jogo final, a equipe teve William Bacana, Perivaldo, André, Cláudio, Clei (Eliomar), Nelson, Suélio, Alessio (Marcos Paulo); Marcelo, Sinval e Eliel.

*É como a torcida do Botafogo ficou conhecida, a partir da adoção do cãozinho Biriba como mascote alvinegro.