Fome no Congo e a dívida do Ocidente com a África

Mário Augusto Jakobskind - Arte Rafael Sarrasqueiro

Chega a informação, praticamente ignorada pela mídia tradicional, segundo a qual de junho de 2016 até o mesmo mês de 2017 cerca de 7 milhões e 700 mil seres humanos foram vítimas da fome na República Democrática do Congo. Esse número foi publicado pelo Programa Mundial de Alimentos (PMA) e também  pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). E complementando esse triste informe, os dois organismos revelam ainda que 10 por cento dessas pessoas vivem em áreas rurais do mencionado país africano. A maior incidência da fome ocorre em  Kasai e Tanganica, onde a violência desalojou 1 milhão e 400 mil pessoas ao longo de 2017.

As precárias condições em que vivem os congoleses aumentaram em função dos danos às colheitas provocados também pelos surtos de cólera e sarampo ocorridos há pouco tempo. E deve-se não omitir o alerta de que a situação pode piorar se essas comunidades não receberem ajuda urgente, segundo assinalou Alexis Bonte, representante interino da FAO para a República Democrática do Congo.

Como se não bastassem tamanhas adversidades, vale assinalar que nos últimos dois anos os camponeses nas áreas em conflito não puderam plantar o que também se refletiu na distribuição de alimentos. Desde o início dos conflitos, cerca de 850 mil crianças foram obrigadas a fugir dos locais onde viviam e 400 mil correm risco de padecer de desnutrição aguda.

 Por isso, o mundo que tem uma grande dívida com a África, sobretudo os países europeus que colonizaram o continente, não podem assistir passivamente o que acontece na República Democrática do Congo e em outros países da região que venham a padecer do mesmo mal ou que estejam em situação semelhante. Não seria propriamente um favor, mas sim uma obrigação pelo que fizeram ao longo de séculos com os povos do continente africano. E se as perdas sofridas por motivo da colonização fossem contabilizadas, a dívida teria que ser paga por muito tempo e certamente perduraria até os dias de hoje.

Essa é uma realidade que o Ocidente procura esconder. Isso para não falar do período da escravidão em que as classes dominantes ocidentais se apoderam da mão de obra africana para trabalhar nas colônias sob terríveis condições.

Foram poucos os países que conseguiram ficar independentes e que decidiram pagar a dívida, simplesmente ignorada pelos responsáveis pela cruel colonização. Nesse sentido vale assinalar a participação de militares cubanos que combateram junto com os angolanos contra os racistas sul-africanos que invadiram território angolano. Na batalha de Cuito Canavale cubanos e angolanos derrotaram os racistas dando início ao fim do odioso regime do apartheid e a confirmação da independência de Angola. E dirigentes como Fidel Castro, reconheceram que os cubanos foram deslocados para o país africano como forma de se penitenciar pela escravidão vigente na ilha caribenha e que só terminou no final do século XIX, em 1886, dois anos antes do fim desse regime forçado de trabalho no Brasil.

Nem todos os países tiveram o mesmo procedimento que Cuba. Alguns se comportam como se não tivessem nenhuma culpa pelo passado cruel que infringiram aos povos africanos. Uma mancha cruel na história de muitos países e com reflexos até os dias atuais.

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