Guerra em família: discórdia entre irmãos chega à justiça e ressuscita nome de peça-chave da Operação Anaconda

Irmãos desaprovam comportamento: conseguiu tutela “na surdina da noite”

O carro usado por Afonso Passarelli emprestado por Mabel. Foto: Marcos Santos

Reportagem Marcos Santos e Wagner Sales Ribeiro

A irmã mais nova de Mabel Olegário da Costa e J., que pediu para não ser identificada na reportagem, confirma as versões dadas pela defesa de J. e por Emílio D´Agostino, filho da tutora de W.C.O.C. Segundo S., Mabel conseguiu a tutela de W. “na surdina da noite”. “Ela [Mabel] está prejudicando outra família, a do J. Ninguém da nossa família concorda com as atitudes dela”, diz com tristeza.

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S. afirma não conhecer Affonso Passarelli pessoalmente, mas sabe que ele está envolvido com o processo de um ex-juiz federal [se referindo a Rocha Mattos] e esteve morando na casa dos irmãos. “A casa ficou alugada para ele [Affonso Passarelli] e saiu devendo impostos, que eu tive que depois colocar em dia”, conta.

O endereço onde está registrada a empresa de Maria Regina. No condomínio informaram que ela não mora no local há algum tempo.Foto: Marcos Santos

A irmã mais nova diz ainda ter conhecimento que Mabel está sempre na companhia de Passarelli, inclusive da troca de carros entre os dois. “Acho que é uma relação de carência, dos dois lados”, opina. S. confirma que Mabel “tem uma coisa com J. desde criança, como se fosse um ciúme doentio”.

Passareli, César Herman, Anaconda e Lava jato

A Operação Anaconda foi deflagrada pela PF e pelo Ministério Público Federal (MPF) em 2003. As investigações giraram em torno de um esquema de venda de sentenças na Justiça Federal. A denúncia surgiu através de um comunicado do banco BNP, envolvendo o nome do ex-juiz federal João Carlos da Rocha Mattos, apontado como líder da quadrilha. O magistrado foi condenado a 12 anos de prisão e cumpriu quase oito anos em regime fechado. Em 2011, Mattos passou a cumprir prisão domiciliar. Uma ex-mulher de Mattos, a auditora fiscal da PF, Norma Regina Cunha, também foi condenada, junto com os delegados da PF José Augusto Benini e Jorge Luiz Bezerra da Silva, o agente da PF Cesar Herman Rodriguez, apontado como um dos cabeças do grupo, e o delegado Affonso Passarelli Filho; o juiz federal Cassem Mazlou; o delegado Carlos Alberto da Costa Silva e os empresários Sérgio Chiamarelli Júnior e Vagner Rocha.

Em 2015, Mattos foi novamente condenado a 17 anos de prisão pelos crimes de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O MPF acusou o ex-juiz de movimentar milhões de dólares sem origem declarada em uma conta na Suíça. Já o nome do advogado Carlos Alberto Costa Silva retorna aos noticiários no ano de 2014, na sétima etapa da Operação Lava Jato. Segundo as investigações da força-tarefa do MPF no Paraná, Costa Silva se apresentava como “auxiliar” das empreiteiras ligadas ao pagamento de propina no esquema de corrupção da Petrobras, mantendo relação bem próxima com o dono da UTC Engenharia, Ricardo Pessoa, preso em uma das fases da operação. Na Anaconda, o advogado foi apontado como titular de uma offshore em nome da qual estava o apartamento onde morava Rocha Mattos.

No âmbito da Lava Jato, em 2015 outros personagens da Anaconda retornam ao centro das atenções. Em março daquele ano, a doleira Nelma Kodama citou em sua colaboração premiada o sobrenome Rocha Mattos. Os investigadores realizaram busca e apreensão na casa do filho do ex-juiz federal, Célio da Rocha Mattos, por suspeita de envolvimento com o bando de Kodama, ex-namorada do doleiro Alberto Youssef. Documentos revelaram que Célio seria o operador internacional do grupo, em Hong Kong. Ex-mulher de Rocha Matos, Aline Kemer Tamada também foi flagrada em contatos com Kodama. Uma mensagem de correio eletrônico interceptada pela PF detectou um diálogo entre as duas, que demonstravam preocupação com a prisão do doleiro Fayed Traboulsi durante a Operação Miqueias, que investigou fraudes contra o regime previdenciário.

O escritório Passarelli e Guimil, Herman defendeu acusados de operar ilegalmente no mercado financeiro no “escândalo dos precatórios”. Já na condição de acusado, foi defendido pelos ex-sócios Affonso Passarelli e Maria Regina Marra Guimil, que se revezam em defesas relacionadas a processos da Anaconda, junto ao advogado João Carlos Emílio da Rocha Mattos. Maria Regina, atualmente, aparece em documentos abertos como titular de uma nova empresa, a MRM Guimil Design, especializada na fabricação de artefatos de joalheria e ourivesaria.

Os citados

A equipe de reportagem procurou Mabel Olegário para ouvir a sua versão dos fatos, no entanto, ela pediu para procurar a sua advogada Magaly Aparecida Francisco. A advogada disse que “não tem interesse em dar publicidade ao caso”. Os telefones de Affonso Passarelli indicados na carteira da OAB não respondem e a defesa de Cesar Herman Rodriguez não foi encontrada até o momento de publicação da matéria. O TJSP comunicou que “o processo indicado está sob segredo de Justiça e desta maneira, não temos condições de acesso às informações”.

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