Imigrante agredido na zona sul do Rio recebe título de cidadão fluminense

Mohamed mora no Brasil há cerca de três anos. Foto: Thiago Lontra

O imigrante sírio, Mohamed Ali Kenawy, de 33 anos, agredido em Copacabana, recebeu o título de cidadão fluminense da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) nesta quarta-feira (13/9). A concessão foi aprovada em unanimidade

Mohamed Ali sofreu agressões no final de julho, quando vendia salgados árabes em uma esquina de Copacabana, na Zona Sul da capital. Além de ser chamado de assassino e “homem-bomba”, a mercadoria foi destruída ao ser jogada no chão por outros ambulantes, que exigiam sua saída do país. Apesar do acontecimento, ele afirmou ter orgulho de morar no Brasil e destacou a honra de receber o título. “Eu quero agradecer a todos que me apoiaram e dizer que estou muito orgulhoso de estar aqui. Meus pais me ensinaram a respeitar os outros e eu sempre acreditei nisso, independente de nacionalidade ou religião”, declarou ao final da cerimônia.

“Essa homenagem é repleta de simbolismo. É uma mensagem do estado do Rio e do povo brasileiro de que somos um país acolhedor e que todo o tipo de xenofobia será combatida”, comentou o deputado Wanderson Nogueira (PSol), que mobilizou o Parlamento a aderir à entrega do título.

Refugiados

De acordo com a Cáritas Brasil, são cerca de sete mil pessoas de mais de 70 nacionalidades vivendo no Rio de Janeiro como solicitantes de refúgio. Atualmente, a legislação brasileira reconhece aos refugiados o direito ao trabalho, à educação, à saúde e à mobilidade no território nacional. “A principal dificuldade ainda é a integração para conseguir um trabalho e recomeçar a vida aqui. Existe a lei, mas efetivar esses direitos não é tão fácil assim“, explica Débora Marques, representante do Programa de Atendimento a Refugiados da entidade.

O título foi entregue pelos mestre-sala e porta-bandeira da Portela, escola de samba cujo enredo para o Carnaval de 2018 são justamente os imigrantes refugiados. Mohamed ainda foi convidado pela diretora social do grêmio recreativo, Beth Ferreira, para desfilar na avenida junto ao grupo. A cerimônia contou com a presença de refugiados de diversos países.

Oportunidade

Para Wanderson Nogueira, este é um momento fundamental para debater e aperfeiçoar as políticas para os refugiados e estrangeiros, como o Plano Estadual de Atenção aos Refugiados, lançado em 2014. “O estado do Rio já foi exemplar nessa política. Nós precisamos retomá-la para mandar ao mundo uma mensagem de amor, respeito e paz. Independente de nacionalidade, nos igualamos por sermos humanos”, disse.

A questão ainda será contemplada na programação da próxima edição do Parlamento Juvenil, programa que leva jovens estudantes da rede estadual para viver a rotina dos deputados por uma semana. Além disso, dentro de um mês, de acordo com o parlamentar, haverá uma audiência pública para discutir o tema.

Idioma

Filho de um egípcio e uma síria, Mohamed mora no Brasil há cerca de três anos e, desde o início, usou a culinária para ganhar a vida longe de casa, tendo trabalhado em um restaurante antes de vender os salgados árabes de forma autônoma. De acordo com o imigrante, uma das principais barreiras foi a do idioma, mas a receptividade do brasileiro foi essencial para sua adaptação. “Eu tive que aprender como falar porque cheguei só sabendo inglês e árabe. Quando pedia uma informação na rua de forma errada, eu era corrigido pelas pessoas. Elas me ensinavam”, comentou.

Redes sociais

As redes sociais foram de extrema importância para que o caso de Mohamed mobilizasse a população, já que um vídeo do momento da agressão foi compartilhado e comentado na internet. Foi pelo mesmo canal que cariocas e fluminenses organizaram o chamado “Esfirraço” em prol do imigrante no dia 12 de agosto, lotando a calçada onde estava a barraquinha de salgados árabes dele.

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