“INDEPENDÊNCIA OU MORTE”: A DUALIDADE DE ISRAEL

Daniela Kresch - Arte Rafael Sarrasqueiro

TEL AVIV – Desde que me mudei, em 2006, para a cidade de Petah Tiva (20km de Tel Aviv), eu costumava andar até o parque principal da cidade para ver os fogos de artifício no Dia da Independência (Yom HaAtzmaut). No ano passado, não fui. A cidade cresceu tanto que não há mais espaço no parque para todos. Não há espaço porque todos vão ao parque ver os fogos e shows de música de cantores famosos. Resultado: prefiro, agora, ver os fogos um pouco mais de longe, no meu bairro, fazendo um piquenique noturno com amigos.

Mas a vontade de comemorar continua a mesma, em contraste com o 7 de setembro no Brasil, que, pelo menos para mim, sempre foi mais uma data mais para comemorar folga do trabalho e dos estudos do que a independência do Brasil. Mas em Israel, um país de apenas 69 anos, a data da criação do Estado ainda é comemorada realmente. Os israelenses apreciam o país, alguns lembram de quando ele ainda não existia. Sabem como foi difícil criá-lo. Muitos, inclusive, não têm certeza de que o país ainda existirá, em meio século (mas esse é outro assunto).

O Dia da Independência, então, é ainda um dia unificador, pelo menos para 75% dos cidadãos, o percentual de judeus do país. Para muitos dos cidadãos árabes-israelenses (20%), no entanto, é um momento de revolta. Eles chamam o dia de “Nakba”, a “Catástrofe”. Não aceitam até hoje o que foi decidido pela ONU em 1947.

Como se sabe, o Dia da Independência é comemorado logo após o Dia da Lembrança aos mortos em guerras e atentados (Yom HaZikaron). Primeiro, os israelenses choram seus mortos (com minutos de silêncio durante os quais todos param nas ruas, assim como acontece sempre, uma semana antes, no Dia do Holocausto) e, em seguida, comemoram a criação do país. É um dia depois do outro. Assim que termina um, começa o outro.

Muito já se falou dessa dualidade de “tristeza-felicidade”, dessa “Independência-morte”. Alguns consideram isso algo típico da cultura e tradição judaicas. Não é à tua que muitos definem os feriados judaicos como: “Quiseram nos matar. Não conseguiram. Vamos comer”.

Há um site oficial que lista os nomes de todos os israelenses mortos nas guerras do país desde 1948. Entrei no site (http://www.izkor.gov.il/) para ver se, por curiosidade, encontrava algum soldado brasileiro na lista. Apareceram quatro nomes. Não sei se há mais. Mas, no site, oficialmente, só há quatro nomes ligados a Brasil.

Iona (acima à esquerda), Ricardo, Shlomo (abaixo, à esquerda)e Motke: os brasileiros mortos nas guerras de Israel
Iona (acima à esquerda), Ricardo, Shlomo (abaixo, à esquerda)e Motke:
os brasileiros mortos nas guerras de Israel

Um deles é Jan “Iona” Tzverner, nascido em 1947 em Antuérpia, mas criado no Brasil. Em 1962, fez aliá para o Kibutz Or Haner como parte de um “garin” (“semente” ou um grupo que decide imigrar coletivamente para Israel) de brasileiros. Morreu no primeiro-dia da Guerra dos Seis Duas, há exatos 50anos. Seu nome é listado entre os mortos em combate do Kibutz Bror Hayil (que fica em frente a Or Haner). Ao que tudo indica, os dois kibutzim lançaram um livreto com nomes dos mortos dos dois kibutzim. Bror Hayil é identificado com a imigração brasileira e Or Haner, como a argentina.

Outro nome ligado ao Brasil na página é o Ricardo Wolf, nascido em 1961 em Brasília. Aos 5 anos de idade, sua família imigrou para a Alemanha – país do qual tantos fugiram só duas décadas antes. Aos 15, Ricardo fez aliá. Morreu em 1982 em meio ao serviço militar (sua página não especifica como).

O terceiro nome que encontrei na página foi o de Shlomo Patron, que nasceu no Rio de Janeiro em 1940. Quando ele tinha 9 anos, se mudou com a família para Israel. Se formou em engenharia eletrônica pelo Technion. Amava música.

Morreu em 1967 ao pisar numa mina. Deixou mulher e um filho de 8 meses.

O último nome é o de Mordechai “Motke” Arkadi, que nasceu na Polônia em 1928, mas, aos 11 anos, se mudou para o Rio de Janeiro com sua família. Em 1949, aos 21 anos, decidiu fazer aliá e se estabeleceu em Beer Sheva. “A diferença entre o caráter desértico do Negev e as florestas e flora do Brasil, seu país de origem, o entusiasmou. Na verdade, este entusiasmo (…) intensificou- se ainda mais à luz da educação judaico-sionista que recebeu em casa e para o movimento juvenil sionista no Brasil”, diz a página em lembrança de Motke, que morreu em 1978, deixando esposa e duas filhas.

Não sei muito mais sobre esses quatro mortos em combate. Ao todo, cerca de 23.500 combatentes israelenses morreram em guerras. Este conceito inclui os guerrilheiros de grupos pré-criação de Israel, judeus da Palestina que lutaram no do exército britânico durante a Segunda Guerra, soldados, policiais, membro do serviço de prisões, do serviço de segurança (Shin Bet) e do Mossad.