Intolerância Religiosa: a dificuldade de reconhecer o diferente

Jovens de diferentes religioes irmanados pela paz. Foto: Robson Moreira

Por Daniele Fernandes e Manoel Tupyara

A intolerância religiosa tem a sua raiz encravada no ódio da fé alheia e se manifesta em todo o mundo. Segundo pesquisa da Secretaria dos Direitos Humanos (SDH), vinculada ao Ministério da Justiça, foram registradas 300 denúncias, pelo Disque 100, de intolerância religiosa, de janeiro a setembro de 2016. Destes casos, 26,19% das vítimas eram candomblecistas e 25,79% eram umbandistas. No entanto, os atos de intolerância alcançam ainda outras religiões.

Com o crescimento dos casos de intolerância, foi fundada em março de 2008, Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), reunindo umbandistas, candomblecistas, católicos, evangélicos, muçulmanos, judeus, budistas, ciganos, além de ateus, agnósticos e participantes do Santo Daime. A Comissão também possui membros do Tribunal de Justiça, Ministério Público e Polícia Civil do Rio de Janeiro.

O tema tem sido recorrente na imprensa. Em janeiro deste ano, foi lançado na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), pela Editora Kline, o livro bilíngüe “Intolerância religiosa no Brasil – relatório e balanço”, de Ivanir dos Santos, Maria das Graças O. Nascimento, Juliana B. Cavalcanti, Mariana Gino e Vitor Almeida

O interlocutor do CCIR e babalorixá, Ivanir dos Santos, revela que houve um aumento de 71% das agressões contra os adeptos das religiões afro-brasileiras. “O sectarismo, assim como o racismo, não é um fenômeno exclusivo do nosso país e ao redor do mundo assistimos o levante de bandeiras de ódio religioso”, afirma o babalorixá. Para ele, o que chama atenção é o descaso das autoridades que não propõem medidas protetivas e preventivas.

A pedagoga e membro da B’nai B’rith do Rio de Janeiro, Patrícia Tolmasquim, lembra que no Brasil sempre houve intolerância. “O povo judeu veio de Portugal e Espanha fugindo da Igreja Católica. A Igreja da Idade Média ministrava o anti-semitismo, que é o preconceito ou hostilidade contra judeus baseada em ódio contra seu histórico étnico, cultural e religioso“, ela explica. Patricia ressalta que a igreja atribui aos judeus uma posição excepcional entre todas as outras civilizações, difamando-os como um grupo inferior e negando que eles sejam parte das nações em que residem. O papa reconheceu a hostilidade que os judeus vivenciaram principalmente em época de Páscoa. Foram criados vocábulos que desqualificam os judeus, tais como: judiação, judaria e judas. Até hoje usa-se a tradição preconceituosa de malhar o judas”, frisa.

Um exemplo da discriminação pela igreja católica data de 28 de outubro de 1965, conta Patrícia, se deu quando o papa Paulo VI promulgou a Declaração Nostra Aetate, mudando a oração de sexta-feira santa, onde antes os judeus eram ultrajados dentro do ritual da Igreja Católica”, recorda.

A pedagoga acredita que a falta de conhecimento não seria o motivador do preconceito e dá como exemplo o povo alemão, detentor de uma vasta sabedoria intelectual mas que propagou o maior genocídio da história da humanidade: o holocausto. “Foi o massacre em massa de seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Um extermínio étnico patrocinado pelo Estado nazista, tendo como líder Adolf Hitler. O genocídio alcançou todo o Terceiro Reich e nos países dominados pelos alemães.

Patrícia afirma que o fato de ter conhecimento não isenta o ser humano dessa coisa terrível que é o preconceito. É uma ideologia você se achar superior ao outro. Antes de ocorrer o holocausto, nove milhões de judeus viviam no continente europeu. Foram assassinados dois terços, sendo mais de um milhão de crianças, três milhões de homens e dois milhões de mulheres”, descreve. “A discriminação se combate pela educação, pelo respeito e tolerância”. Tolmasquim lembra que o Brasil foi o último país a abolir a escravidão e não deu condições de cidadania para essa população, e ainda criminalizou a cultura e a prática religiosa desses grupos, porque ser um pai ou uma mãe de santo era proibido na legislação.

A partir da esquerda: Bispo Boanerges Garro, representante da Igreja Mórmon, Babalaô Ivanir dos Santos e Rodrigo Faddoul, representante da Comunhão Celta Cristã, comungando pela paz entre as religiões. Foto Robson Moreira

Grupos de Defesa – A pedagoga aponta algumas saídas para erradicar a intolerância religiosa. Uma delas é expor esse fenômeno às pessoas que não identificam que estão sendo vitimas de uma segregação, porque muitas vezes o paciente não sabe que está sendo discriminado. Ao falar sobre a prática da baixa estima praticado por grupos mais perversos de destruição, ela destaca a sentença do juiz Eugênio Rosa de Araújo, da 17ª Vara Federal do Rio de Janeiro, que afirmou que a umbanda e o candomblé não contém os traços necessários de uma religião, como as Escrituras Sagradas, além de ter ausência de estrutura hierárquica e de um Deus a ser venerado. Esta ação foi causada pela veiculação de 15 vídeos no You Tube, que disseminavam preconceito, intolerância e discriminação a religiões de matriz africana. Após pressão popular, conta Patrícia, o magistrado voltou atrás. O outro caminho indicado por ela, seria a existência de leis claras que reprimissem tentativas violentas de racismo e de intolerância religiosa, além da criação de grupos de defesa desses direitos, para que por meio de mobilizações o país cumpra a legislação, já que assinou um tratado internacional sobre a questão. Além do tratado, o Brasil desde 1989 possui a Lei nº 7.716, que pune os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor.

O diretor executivo da instituição Presença Ecumênica e Serviço, Organização dos Direitos Humanos (Koinonia), o Ogan de Oxossi, Rafael Soares de Oliveira, do Terreiro da Casa Branca no Engenho Velho da Federação Baiana, declarou que a intolerância religiosa no Brasil é prima irmã do racismo. “Infelizmente ela já estava presente na nossa cultura desde o tempo do Brasil colônia. Foi escravocrata e depois deixou de ser, sem deixar de ser preconceituosa e intolerante contra os negros e negras e sua cultura”, frisa.

Soares ressalta que as religiões de matriz africana já sofrem na cultura brasileira uma demonização. Mas nas décadas de 1970 e 1980, isso virou um instrumento construído a partir de fundamentalistas pentecostais que aproveitaram esse conceito cultural e aumentaram a demonização e a caricaturização das nossas religiosidades de matriz africana. Ele ressalta que a intolerância teve um aumento estrondoso; agressões físicas e impedimento de circulação, o que

chamamos hoje de bullying. A jovem Kailane Campos, candomblecista de 11 anos, sofreu o preconceito na pele. Ao sair do culto, foi insultada e apedrejada por dois homens, que depois fugiram do local. Essa agressão aconteceu na Vila da Penha, Rio de Janeiro, em 2015.

Menina Kailane, vítima de violência, pede paz durante a passeata contra a intolerância religiosa em 2015, Foto: Rafael Sarrasqueiro/Arquivo

Para o diretor executivo da Koinonia, a intolerância deve ser combatida principalmente pelo Estado laico, que tem o dever de garantir o direito das minorias e dar voz àqueles que já lutaram para colocar na Constituição a defesa da liberdade religiosa. O Estado não é atuante, afirma Rafael, por isso convivemos com essa barbárie. É preciso lutar e fazer o Estado funcionar”, conclui.

Sem raiva e sem violência – A intolerância religiosa nasce da dificuldade de reconhecer no outro o diferente e acolher a diferença. Assim define Lusmarina Campos Garcia, pastora luterana e membro do Conselho de Igrejas Cristãs do Estado do Rio de Janeiro. Para a pastora essa é a raiz de toda perseguição. “Jesus disse que devemos aprender a conviver com todos e todas. E no Brasil temos visto um quadro de intolerância que é assustador. Vemos muitos terreiros sendo queimados, destruídos. De modo geral, as religiões afro-brasileiras são as que mais sofrem”, garante Lusmarina.

Na visão da pastora é necessário que se faça um enfrentamento para alertar que enquanto seres humanos não estamos acabados, estamos em construção. Somos sociedade e humanidade em composição. Quando abraçamos sem raiva e sem violência, temos a possibilidade de chegar a uma convivência mais pacífica”, assegura Lusmarina.

É o que tem experimentado o sheik Mohammad Mahdi, membro da Comunidade Muçulmana Xiita no Rio de Janeiro que está há pouco tempo no Brasil. Ele diz que aqui é um país livre, onde já teve a oportunidade de participar de seis eventos sobre religião. “É muito interessante porque o Brasil dá atenção a todas as religiões. Eu, como muçulmano, não tive problemas aqui. O povo é muito hospitaleiro“, afirma o sheik.

Como líder religioso, Mohammad tem muitas oportunidades de falar sobre a sua religião. Frisa que na América Latina o Brasil é o primeiro país que está tentando unir as religiões. Estudando a religião islâmica há 16 anos, diz que nunca escutou uma só palavra contra outra religião. “Na visão islâmica todo mundo é igual. No Alcorão Sagrado temos muitas palavras admirando o ser humano. Em nossa fé e também para Deus, os semelhantes -, sendo brancos ou pretos, pobres ou ricos, são iguais”. Como muçulmano, Mahdi procura mostrar a todos que a sua crença não é contra nenhuma religião, mas alega que outras crenças religiosas às vezes têm preconceito com a dele.

A Igreja Católica não aceita nenhum embate das religiões. Prima pelo diálogo e gera o respeito entre os crédulos. Foi o que afirmou o diácono, Nelson Aguia, Secretário da Comissão Arquidiocesana para o Ecumenismo e o diálogo inter-religioso da Arquidiocese do Rio de Janeiro. “O fato de pensarmos diferentes não nos torna inimigos. A excelência de todos é a humanidade, que tem que ser respeitada. Pessoas de crédulos diferentes não significa que são inimigas. Procurar o que é comum e não o que nos divide. Para a Igreja Católica todas as religiões pregam o amor e a liberdade. É isso que nos une. Pregar a paz e não o embate, pois não devemos elevar muros e sim pontes”, ensina.

A cultura vem sendo trabalhada nos últimos anos longe daquela visão que tínhamos de que cultura era só um evento, uma festa, mas cultura é muito do que isso. É o que garante o Superintendente de Cultura e Território do Rio de Janeiro, Alexandre Pimentel. Ele acredita que a cultura trabalha pelo menos em três dimensões fundamentais. “Uma delas é a questão do reconhecimento de identidade e, quando isso acontece, você valoriza as pessoas e faz com que elas se sintam também valorizadas”, garante Pimentel.

Alexandre entende que é importante promover o reconhecimento e fortalecimento de identidade. Por meio de prêmios e editais, se divulga também essa riqueza de diversidade. A outra dimensão que Pimentel se refere é do ponto de vista econômico, quando se qualifica e gera recursos para que as pessoas, ao criarem suas expressões culturais, sejam capazes de adquirir algum tipo de renda, porque muitas vezes as pessoas abandonam as suas práticas culturais por falta de condições financeiras em tempo integral.

O que a Secretaria de Cultura tem feito é trabalhar no sentido do fortalecimento dessas identidades, de qualificar pessoas com oficinas, com outros tipos de ação, como por exemplo, qualificação e informação, para que elas sejam cada vez mais capazes de capitarem seus recursos“, revela.

O superintendente lembra que mediar situações de conflitos também faz parte das atribuições da Secretaria de Cultura, mas que nem sempre é fácil manter diálogos com outras secretarias, pois há grupos divergentes e resistência ao programa de uma área para a outra. Ele afirma que a Secretaria de Cultura tem que articular junto à Secretaria de Educação para promover a conscientização de que não se deve ser preconceituoso e nem praticar atos discriminatórios. “As Escolas Públicas deveriam trabalhar os diálogos sobre a religião, a questão do sagrado, trabalhando seus diversos aspectos e diversidades. E não reproduzindo uma determinada religião e, menos ainda, exibir preconceito e discriminação”, finaliza Alexandre.




O dia de combate à intolerância religiosa é celebrado em 21 de janeiro desde 2007 pela Lei 11.635. A data relembra o dia de falecimento da yalorixá mãe Gilda, do terreiro Axé Abassã de Ogum, na Bahia. Ela foi vítima por ser praticante de religião de matriz africana, acusada de charlatanismo. Sua casa foi atacada e pessoas da sua comunidade foram agredidas. Mãe Gilda faleceu em 21 de janeiro de 2000, vítima de infarto.

Um outro caso que ganhou repercussão nacional foi o chute à santa, fato ocorrido em 12 de outubro de 1995, dia da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. O chute foi dado pelo bispo Von Helde, da igreja Universal do Reino de Deus e filmado pela TV Record. Uma tentativa desastrada e infantil, para explicar aos fiéis de sua igreja, que a imagem não tem nenhum poder.

Como não poderia deixar de ser, a igreja católica reagiu de forma veemente, obrigando o fundador e chefe da Universal, Edir Macedo, e também proprietário da TV Record, de pedir desculpas publicamente.