Jornal revela como militares argentinos foram autorizados pelo governo espanhol a pousar aviões com material revelador de crimes hediondos

Mário Augusto Jakobskind - Arte Rafael Sarrasqueiro

Informação divulgada pelo jornal  espanhol Publico revela que Felipe Gonzalez, ex-chefe de governo autorizou, em dezembro de 1983, o pouso de 15 aviões militares procedentes da Argentina e que, segundo um testemunho, levavam fichas micro filmadas com as listas dos  desaparecidos assassinados pelas Forças Armadas durante o sanguinário regime militar vigente no país vizinho ao Brasil. O jornal Publico revelou ainda que os arquivos foram enviados à Suíça e Israel.

A justificativa dos militares, conforme se pode constatar pela fala do general  Cristino Nicolaides, o último chefe do Exército durante a ditadura militar de 1976 a 1983, não deixa dúvidas. Para Nicolaides, “a subversão buscava a conquista do poder para impor uma ideologia de esquerda totalmente contrária às tradições da vida nacional”.

Dessa forma o general justificava os 30 mil assassinatos. O militar tinha convicção que mesmo assim deveriam ser escondidas as informações sobre os desaparecidos, em um total de 30 mil. Vinte dias antes de entregar o poder ao então Presidente eleito Raul Alfonsín, o general comandante do Exército argentino conseguiu esconder o jogo sujo.

Nicolaides, ocultador de crimes hediondos de lesa humanidade ordenou também que todos os chefes de polícia entregassem, segundo ainda o jornal Publico, a “documentação relativa à luta contra a subversão”, eufemismo utilizado para se referir a fuzilamentos, torturas e roubos de bebês.

Pois bem, Felipe Gonzalez, que volta e meia aparece nos dias de hoje na mídia comercial conservadora como defensor da democracia, mais de 30 anos depois é citado pelo jornal Publico como o dirigente espanhol que autorizou os militares argentinos a dar passagem aos aviões para esconder os crimes cometidos a partir de 1976 até o fim do pesadelo. Ele até pode alegar que desconhecia o fato, mas de qualquer forma a autorização, sem grandes exigências, revela que na prática o “democrata” Gonzalez demonstrou pelo menos complacência com os militares assassinos, já que na ocasião os europeus recebiam denúncias sobre o banho de sangue promovido pelos que detinham o poder a força na Argentina.

Gonzalez também foi acusado em seu governo de estimular terrorismo de Estado através da ação dos Grupos Antiterroristas de Libertação (GAL) contra a organização ETA. Foi comprovado que o GAL era financiado por altos funcionários do Ministério do Interior.

Se as informações contidas no material micro filmado não fossem escondidas, os argentinos saberiam os nomes de todas as vítimas dos crimes, muitos até hoje não revelados, de lesa humanidade cometidos pelos militares.

O Publico demonstrou também que as solicitações para o pouso dos aviões eram feitas pelas representações diplomáticas da ditadura argentina, que para disfarçar alegavam que o motivo da viagem era o suposto traslado de material aeronáutico procedente do país sul-americano.

Talvez o consolo, se é que o termo é apropriado, é que a partir da Presidência de Nestor Kirchner vários militares assassinos, entre os quais o general Rafael Videla, foram punidos e muitos deles continuam cumprindo pena pelas monstruosidades cometidas.

Com essa informação as autoridades argentinas, se tiverem vontade política, poderão se esforçar para ver se conseguem os nomes de todas as vítimas daquele período tenebroso da história argentina. Resta saber se o Presidente Maurício Macri terá essa disposição. Com hoje poucos acreditam nessa hipótese para decifrar de uma vez por todas os acontecimentos daquela época, só resta aos movimentos de defesa dos direitos humanos intensificarem os esforços para exigir que o Estado argentino se empenhe para acabar o mistério de uma vez por todas.

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