Jornalistas em Luta

Jornalistas em Luta
Jornalistas em Luta

Por Solidário, de Edison Corrêa

Publicado em 31 de Janeiro de 2017

Jornalistas cariocas reuniram-se no Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação (SEPE), no Centro do Rio, para debater a atual conjuntura do jornalismodiante de retrocessos sociais e trabalhistas. Na ocasião estiveram presentes Gustavo Gindre, mestre em comunicação (UFRJ) e membro eleito do Comitê Gestor da Internet (CGI.br) por dois mandatos (2004-2007 e 2007-2010) e a jornalista Cláudia Abreu, do Sindicato dos Petroleiros (Sindipetro-RJ).  “Jornalistas cariocas conquistaram direitos que não conseguiram usufruir, como o piso salarial e o reajuste inflacionário mais o aumento real. Isso gerou uma frustração ainda não superada por uma parcela da categoria”, disse Abreu aos presentes.

Lucro da Globo é 5X maior que concorrentes

Gindre lembrou que, nos anos 80 do séculos passado, os lucros dos veículos de comunicação eram controlados por poucos grupos familiares, dentre eles a família Marinho, detentora da TV Globo.  “Atualmente, houve uma mudança radical neste contexto. Hoje, o lucro líquido da Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Grupo Abril, RBS, TV Record, SBT, TV Bandeirantes e Rede TV corresponde a apenas 1/5 do da Rede Globo, que se descolou deste grupo em termos de faturamento. Em2015, a Globo só perdeu em lucratividade para o grupo Moreira Salles, com R$ 3,5 bilhões de lucro”. Ele enfatiza que o cenário atual do jornalismo caminha para a insolvência. “Os grupos de comunicação estão quebrados, exceto Globo – que mesmo assim possui lucro anual de apenas 15 dias do Google – e Record – que retira seu dinheiro da Igreja Universal. Não há um projeto de longo prazo nestes veículos!”. atentou o comunicólogo.

Domínio da “Lógica do Click”

De acordo com Gustavo Gindre, o mercado da televisão está se preparando para a perda de importância da TV aberta. “Precisamos verificar se o mercado da comunicação brasileira reiste a isso”, afirmou. Segundo ele, é um época de demissões em massa nas redações e da diversidade de funções na profissão capitaneadas pelo patronato. “Na internet, por exemplo, manda a ‘lógica do click’: o que importa é a quantidade de pageviews. O conteúdo, seja contra ou a favor, está ficando em segundo plano. O mecanismo de busca do Google, por exemplo, é focado no algoritmo, o importante é capturar os internautas. Um exemplo do que acontece hoje nas redes sociais são as postagens falsas. A disseminação de informações impede a distinção entre verdade e mentira, a repetição e o compartilhamento legitimam esta informação!”, declarou o mestre.

Má gestão e globalização: processos mundiais

O jornalista chama a atenção para o fato de que, na contemporaneidade, o jornalismo vive espremido por dois processos mundiais crescentes em tempos de crise econômica: má gestão e globalização. Gindre exemplifica o primeiro com a compra da massa falida das TVs Manchete e Ômega. “A Rede TV foi formatada para vendas através do número 0900. Com a proibição governamental, eles apostaram emprogramas de auditório e de fofocas, com baixo investimento, além de espaços vendidos para igrejas. Em todas as emissoras, as retransmissoras somente têm interesse em fazer o jornal local”, contou o especialista. “A saída é a apuração, a apreensão, fazer a notícia ter nexo”, acredita Gindre, lembrando de chavôes ainda utilizados na sociedade de massas, como “deu no Jornal Nacional”, “passou no Fantástico” e “o G1 publicou”.

Qualidade jornalística cai pela multiplicidade de funções

Claudia Abreu terminou o evento lembrando da destruição, pelo governo brasileiro atual, de políticas públicas conquistadas em anos de luta. “Devemos resistir a isso através de manifestações nas ruas de trabalhadores em ações unificadas”, conclamou a sindicalista. De acordo com Abreu, há uma crise de credibilidade e desfiliações no movimento sindical. “É uma parcela da sociedade importante, fundamental para a democracia de um país. No jornalismo, por exemplo, profissionais experientes são trocados por novatos que fazem múltiplas funções por um custo menor. A qualidade caiu assustadoramente nos últimos anos por conta disso, a categoria perdeu seu protagonismo”, crê Cláudia, finalizando com exemplos de veículos que estão precarizando a profissão de jornalista.