Lembrando os 70 anos da partilha no kibutz bror hayil

Esquerda para direita: o embaixador Paulo César de Vasconcellos, o líder do Conselho Regional, Alon Schuster, o veterano Tzvi Hazan e o embaixador Yoed Magen (Foto: Daniela Kresch)

Por Daniela Kresch/Israel

Tel Aviv – “Celebramos hoje nosso pequeno-grande papel na História sionista e nossa forte ligação com a comunidade brasileira, eterno coração deste lugar”, disse o mestre de cerimônias de uma simpática solenidade em lembrança aos 70 anos da sessão da Assembleia Geral da ONU que aprovou a Partilha da Palestina em Bror Hayil, o “kibutz brasileiro” em Israel.

No dia 29 de novembro, exatos 70 anos depois da aprovação, cerca de 100 pessoas lotaram o pequeno salão do lado do Museu Osvaldo Aranha, que guarda e o martelo original usado pelo ex-chanceler brasileiro, que presidiu a sessão da ONU.

Músicas brasileiras, em hebraico e português, fizeram parte do entretenimento. Também foi mostrado um filme com a história da sessão da ONU e os VIPs que visitaram Bror Hayil desde que o martelo de Aranha chegou ao kibutz, em 1966.

O embaixador do Brasil em Israel, Paulo César Vieira de Vasconcellos, ficou emocionado com a grande audiência. Ele contou como, há cinco meses, ao apresentar suas credenciais ao presidente israelense Reuven Rivlin, o próprio Rivlin recordou do dia da Partilha e, especificamente, do barulho do martelo de Osvaldo Aranha durante a sessão, que ouviu, ainda moleque, pela rádio. Como ele, centenas de milhares de judeus palestinos acompanharam tudo pelo rádio naquele 29 de novembro de 1947.

“Osvaldo Aranha acreditava e representava o pensamento do Brasil de que o povo judeu… e eu fico emocionado… merecia ter um lar”, disse o embaixador Vasconcellos, com voz embargada.

“Israel e o povo judeu será para sempre agradecido ao Brasil”, disse o embaixador Yoed Magen, do Departamento de América Latina do Ministério das Relações Exteriores, também presente ao evento.

“Os países da América Latina tiveram um papel crítico nessa história”, continuou Magen. “Treze países apoiaram a resolução, mais de um terço do total (foram 33 votos em favor, 13 contra e 10 abstenções). Três países, Uruguai, Guatemala e Peru, fizeram parte do comitê UNSCOP, criado pela ONU para sugerir uma solução para a Palestina após o fim do mandato britânico. Panamá e Costa Rica enviaram embaixadores especiais para a Europa para convencer outros países. E o Brasil não só ajudou nesse convencimento – mesmo que não tenha conseguido com a Argentina – como mas Osvaldo Aranha adiou a votação até que não estivesse claro que haveria maioria”.

Com bom-humir, Magen contou que, num programa famoso da TV israelense, o “Tkumá” (Renascimento), sobre a criação de Israel, o ex-chanceler israelense Abba Eban relatou que, quando percebeu que ainda não havia maioria, pediu para o embaixador do Uruguai para “encher linguiça” em seu discurso. O uruguaio perguntou quanto tempo Eban precisava. O chanceler israelense respondeu: “pelo menos 45 minutos”. E o embaixador uruguaio arrematou: “então vou ter que cortar bastante o meu discurso, então”.

Yoed Magen afirmou que o relacionamento entre Israel e América Latina era excelente logo depois da criação de Israel. Mas, nos anos seguintes, houve altos e baixos. Recentemente, no entanto, a situação estaria melhorando. Tanto que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu prepara mais uma visita, em breve, à região, além da que fez em setembro em Argentina, Colômbia e México – a primeira de um premiê israelense à América Latina.

“Estamos num momento muito bom e temos muitas oportunidades na América Latina. Vocês lerão nos jornais em breve”, garantiu Magen.

Alon Schuster, líder do Conselho Regional Shaar Hanegev (da qual Bror Hayil faz parte), também disse estar emocionado com o evento em Bror Hayil, mas aproveitou para salpicar um pouco de política:

“Esperamos 2 mil anos para voltar à nossa terra, mas o momento da Partilha não foi um milagre. Foi ação humana, não foi mágica ou algo sobrenatural. Aconteceu por causa de relacionamento entre seres-humanos, a disposição para ouvir o outro lado e a consciência de que, com todo o respeito à força divina, o que não fazemos por nós mesmos, não acontecerá”.

“A Resolução 181 da ONU não decidiu pela criação de um Estado judeu na Palestina e sim pela criação de dois Estados, um judeu e um árabe”, continuou Schuster. “Estamos orgulhosos e somos fiéis ao Estado judeu, mas sonhamos com o momento no qual os líderes dos dois lados sejam capazes de pôr essa resolução totalmente em prática”.

Conciliador, o brasileiro e veterano morador de Bror Hayil Tzvi Hazan, que também liderou o Conselho Regional Shaar Hanegev, acredita que, se há algo suprapartdiário em Israel é a gratidão pelo papel do Brasil na aprovação da Partilha. Mesmo que, nem sempre, as novas gerações saibam o que aconteceu há 70 anos.

“Não é assunto de esquerda ou direita. O nosso papel é transmitir às novas gerações o que aconteceu e, com o tempo, eles vão entender”, disse Hazan.

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