LOBO EM PELE DE CORDEIRO

Daniela Kresch - Arte Rafael Sarrasqueiro

TEL AVIV – O grupo terrorista Hamas divulgou um novo documento, no dia 1° de maio. O objetivo: tentar convencer o mundo de que mudou. Se tornou uma organização mais “moderada”, capaz até mesmo de aceitar a criação de um Estado palestino somente nas fronteiras de meio século atrás, antes da mitológica Guerra dos Seis Dias. As linhas do armistício de 1949.

Pelo documento, o Hamas também se compromete a diminuir sua ligação com a Irmandade Muçulmana, no Egito.

Khaled Mashaal, líder político do Hamas, anuncia o documento no Qatar (Reprodução Reuters)
Khaled Mashaal, líder político do Hamas, anuncia o documento no Qatar (Reprodução Reuters)

Mesmo que não se trate de uma nova carta de princípios – a original de 1988, que promete destruir Israel, continua em vigor –, um monte de gente concluiu que se trata de uma prova de que o Hamas está amolecendo. Está se tornando um grupo mais pragmático, interessado em se inserir na comunidade internacional, lidar com o Ocidente e até mesmo aceitar a existência de Israel.

Quem diz isso esquece que, há apenas um mês, o Hamas escolheu um novo líder em Gaza, linha-duríssima: Yahya Sinwar. E que, também há poucas semanas, agradeceu à Coreia do Norte por “apoiar a causa palestina” e chamou Tel Aviv de “assentamento” ao fazer troça do que chamou de “so-called” Holocausto.

E esquece que se trata de um grupo islâmico intolerante e ultra-religioso, com dogmas e axiomas que não mudam assim tão rápido, se é que mudam algum dia.

O documento de 42 páginas diz que o Hamas aceita um Estado palestino nas fronteiras de 1967, mas não abandona o resto do território “ocupado” em 1948:  “Não vamos desistir de qualquer parte da Terra da Palestina (que inclui todo o Estado de Israel)", diz o texto. “O Hamas rejeita qualquer alternativa à completa e total libertação da Palestina, do rio ao mar" (do Rio Jordão ao Mar Mediterrâneo)”, completa.

Não há dúvidas de que esse documento é uma ferramenta fraudulenta. Foi criado para tornar o Hamas um pouco mais palatável a olhos ocidentais. E, não menos importante, para tentar criar uma ponte com o Hamas para uma possível reconciliação.

A resposta de Israel ao documento foi de ceticismo e irritação. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu divulgou um vídeo no qual ele amassa o documento e o joga no lixo.

“Ajustes superficiais à forma como o Hamas se apresenta ao mundo são uma cortina de fumaça para o objetivo do Hamas de destruir Israel através do terrorismo. O novo documento político do Hamas não substitui sua carta de princípios original, carregada de retórica antissemita e genocida”, diz um comunicado do Ministério das Relações Exteriores.

Em suma, trata-se de lobo em pele de cordeiro. É fácil nos deixarmos levar pelo otimismo e por conclusões superficiais. Mas, na verdade, a questão do Hamas tem mais camadas de nuances do que um doce de mil-folhas húngaro.

Nota da redação:

Há duas semanas, eu escrevi aqui neste espaço sobre soldados brasileiros mortos em guerras de Israel. Eu disse que encontrei quatro nomes no site oficial que lista os nomes de todos os mortos nas guerras do país desde 1948 (http://www.izkor.gov.il/). Mas alguns leitores me contataram para alertar sobre mais nomes.

Informações sobre Yitzhak Wasserman (Reprodução)
Informações sobre Yitzhak Wasserman (Reprodução)

Antes de tudo, agradeço muito os contatos. Um dos nomes é o do Yitzhak Wasserman (acima), nascido no Brasil em 1952. Ele morreu na Guerra do Yom Kippur (1973) no Sinai aos 21 anos e está enterrado no Kibutz Kfar Szold.

Curiosamente, ao procurar nome de Yitzhak Wasserman no site Izkor, apareceu outro nome de brasileiro: Roy Ardot, que nasceu em 1985 no Brasil e morreu em dezembro de 2006. A coincidência é interessante. Só encontrei Roí porque sua namorada, na época, também tinha o sobrenome Wasserman. Não encontrei Yitzhak. Mas me deparei com Roy.