MÃE É MÃE

– Oi, jornalista.

– Oi, pequeno Einstein. Acordou cedo.

– Na verdade não dormi.

– Por que não? O que houve?

– Estou tendo uma inquietação.

– Você está tomando os remédios?

– Estou, mas é uma inquietação biológica e abrupta.

– Vamos conversar fora da casa.

– A minha inquietação biológica e abrupta pode ir comigo?

– Sim. Podem vir vocês três.

– Domingo é Dia das Mães.

– Sim. É um dia especial, mas, para mim, todos os dias são dias das mães e dos pais…

– Você tem mãe, jornalista? Jornalistas têm mães?

– Todos temos mães, pequeno Einstein. Afinal, de onde viríamos se não fossem nossas mães?

– Eu acho que não vim de uma mãe.

– E por onde você veio?

– Do inconsciente coletivo. Ele me pariu.

– De onde você tirou isso, amigo?

– Dos arquétipos. Sou feito com o sêmen dos arquétipos que inseminaram os ventres das deusas mães. Então eu nasci do inconsciente coletivo. Careço de mãe biológica.

– A sua mãe não o visita aqui, semanalmente?

– Ela é uma mulher remunerada pela administração da Casa para ser a mãe dos arquétipos. Mas nós somos muitos e ela ganha pouco. É assalariada. Talvez não venha neste domingo. Você me empresta a sua mãe, jornalista?

– Olha, pequeno Einstein… Cada um tem a sua mãe. Mãe não se empresta. Você tem a sua e você não é um arquétipo, nem um filho do inconsciente coletivo.

– Como você pode ser tão tolo, jornalista?

– Sou racional e você está sob delírio.

– Vou te falar um segredo que eu escondi esse tempo todo. Peço a sua discrição.

– Pode falar. guardarei o seu segredo.

– Sou o filho bastardo da Mãe Durga. Ela tem possui três olhos e 12 braços, para abraçar meus irmãos legítimos.

– Pequeno Einstein, a Mãe Durga é mitológica, uma criatura do hinduísmo… Lá na Índia. De onde você tirou essa ideia?

– Porque eu sou um arquétipo do inconsciente coletivo com uma inquietação biológica e abrupta. Você não memoriza o que falo, não?

– Tudo bem, pequeno Einstein. Então sua mãe Durga virá visitá-lo neste domingo?

– Não.

– E por que não?

– Porque ela tem mais filhos do que seus braços. Não pode abraçar a todos. Portanto, me empresta a sua mãe, neste domingo?

– Pequeno Einstein, já disse que mãe não se empresta.

– Então pode ser o seu pai. Seu pai pode ser a minha mãe neste domingo?

– Pai não pode ser mãe, pequeno Einstein!

– Mas pode fingir.

– Não. Não emprestarei minha mãe nem meu pai. E você tem mãe sim, porque eu já a vi.

– A mulher que você vê me visitar não é a minha mãe. Ela é terceirizada.

– Não pode ser terceirizada pois ela o pariu.

– Eu nasci de uma barriga de aluguel inseminada por esperma guardado em um banco de sêmen congelado.

– Mas que viagem é essa, pequeno Einstein?

– Igual a mim há vários por aí… Somos todos arquétipos, filhos da Mãe Durga. Me empresta a sua mãe…

– Olha, o tempo de visita aqui na Casa é curto. A sua mãe virá e você poderá abraçá-la  e agradecer pela sua vida, que ela concebeu e gerou. Cada um com a sua mãe.

– Jornalista, pai também pode ser mãe?

– Em caso de separação, se o pai ganhar a guarda do filho na Justiça, ele terá que fazer o papel de pai e de mãe… Isso é normal e acontece o contrário também. Há mulheres que cuidam de seus filhos, são mães e pais, posto a lacuna do pai ausente.

– Jornalista… Se domingo eu deixar de ser arquétipo por algumas horas você pode ser a minha mãe?

– O que é isso, companheiro?

– Sempre sonhei em ter uma mãe como você…

– Bom, tudo bem… Se for para colaborar para a sua completude. Mas você poderá me dar no máximo três abraços. Ok?

– Tá, mãe! Minha mãezinha linda! Minha mãezinha linda! Minha mãezinha linda!

– Você quer parar de ficar fazendo alarde?!

– Mãe, você está me tolhendo. Você é muito possessiva! Se continuar assim, não vai ganhar presente no domingo!

– Mas domingo é Dia das Mães! Como assim não irei ganhar presente???

– Tá vendo? Você é uma mãe interesseira! Quer saber? Não quero ser mais ser o seu filho!

– Ok. Então volta a ser arquétipo da sua mãe terceirizada e da madrasta hinduísta.

– Mãe, eu tava brincando de fazer malcriação… Me coloca no colo e conta uma história para eu dormir?

– Olha, filho, sua mãe agora vai arrumar a casa, tá?

– Mas mãeeeee…

– Para de fazer chilique! Respeita a sua mãe!

– Tá mãe… Te amo!

– Também te amo, meu filho…