Materiais sofisticados trazem o requinte no Carnaval

Diego Ventura explica que ao longo dos anos seu pai foi aprimorando a produção, fazendo com que as penas dos perus se transformassem em produtos mais luxuosos e refinados. Foto: Jorge Paim

Do Solidário, por Carla Giffoni

Publicado em 23 de Fevereiro de 2017

Chega o Carnaval e todo ano o público é impactado com a beleza do desfile. Não é à toa que os quesitos fantasias, alegorias e adereços são itens muito valorizados na hora de se julgar uma escola de samba, principalmente se ela for do Grupo Especial, onde estão as mais poderosas e tradicionais agremiações do Rio e também de São Paulo. Mas de onde vêm esses materiais que brilham, embelezam e trazem um glamour encantador? Como esse material é  produzido?

A família Ventura trabalha desde 1999 com materiais mais requisitados e disputados no mercado carnavalesco: boás, plumas, penas e franjas, que são utilizados para que o acabamento seja refinado e perfeito. O patriarca, Paulo Ventura – conhecido como Paulo Barbudo – começou a trabalhar com esses materiais ainda quando era proprietário de uma loja no Mercadão de Madureira. O estabelecimento era voltado para atender datas comemorativas como Carnaval, Páscoa, Natal etc. Diego Ventura, seu filho, conta que naquela época havia muita procura por boás e franjas, mas o produto era extremamente escasso. Então, Paulo Barbudo decidiu fabricar a mercadoria requintada, nascendo daí o Ateliê Ventura, que passou a atender as escolas de samba dos Grupos de Acesso e Especial e também os Blocos de Bate-bola – grupos de foliões que saem nas ruas do subúrbio, Zona Oeste e Baixada Fluminense, com os rostos cobertos por máscaras e roupas muito elaboradas e criativas.

Paulo Barbudo começou a produzir os boás, plumas, penas e franjas. Oriundos das penas de peru, são artigos que valem ouro para escolas de samba quando querem ir para a avenida todas trabalhadas no luxo e na ostentação. As penas de algumas partes do peru são utilizadas na confecção de boás, que são feitos de maneira artesanal. A parte mais nobre da ave é o pescoço, e os boás que utilizam essas penas muito delicadas são considerados o ‘crème de la crème’. As penas das asas, mais duras, também são muito utilizadas e procuradas, apesar da a classificação em qualidade e densidade não é tão alta como as penas do pescoço da ave. Já as penas do peito do peru são utilizadas exclusivamente nos boás e tem uma cotação

intermediária. De qualquer maneira, não importando a parte do peru que será utilizada, este é um material disputadíssimos pelas escolas de samba dos Grupos Especial e de Acesso, nas quais há um investimento maior para a confecção das fantasias, alegorias e adereços. Diego lembra que já se tentou utilizar espuma no lugar das penas do peru, mas o produto final ficou muito aquém do esperado, comprometendo a qualidade. “Nada substitui a pena de peru.

Quando tentaram utilizar a espuma o efeito foi desastroso, porque só a pena de peru, quando enrolada, dá o aspecto final de pelo”, argumenta.

Diego, que comanda o Ateliê Ventura desde que seu pai faleceu em 2013, explica que a confecção das penas que se transformam em boás, plumas e franjas é feita de maneira artesanal, utilizando para isso somente linhas, agulhas, barbantes, cordões e máquinas de costuras, e até o tingimento é biodegradável – são utilizados apenas água e sal para se obter as cores. O ateliê conta com oito costureiras para a realização dos trabalhos. Diego explica, ainda, que ao longo dos anos seu pai foi aprimorando a produção, fazendo com que as penas dos perus se transformassem em produtos mais luxuosos, refinados e diferenciados. “Meu pai viajava todo ano para o exterior buscando inovações. Ele ia para África, China, Europa ou então para Nova York com este objetivo: buscar novidades em como trabalhar com a pena do peru para assim melhorar o produto. Eu sigo seu exemplo. Além disso, as inovações implantadas por meu pai foram principalmente no tingimento, que passou a ser biodegradável. Os corantes antigos utilizados poluíam o meio ambiente. De nada adianta produzir beleza se o meio ambiente e o homem acabam sendo prejudicados. Meu pai sempre dizia isso”, arremata.

Diego conta que o patriarca da família sempre teve cuidado com os clientes: “Meu pai tinha como regra atender as escolas de sambas de uma forma que garantisse a exclusividade. Por exemplo, ele só atendia uma agremiação do Grupo Especial e uma escola do Grupo de Acesso por carnaval. Já com os grupos de bate-bolas nosso objetivo é atender um maior número possível, porque assim estamos incentivando o carnaval de rua de maneira efetiva”. 

Uma escola de samba sempre compra, no mínimo, 500 peças de boás. O produto, por ser requintado e artesanal, tem um custo elevado, e somente agremiações de grande porte conseguem ter caixa para investir. “No Carnaval de uma grande escola, eles compram no mínimo cinco mil boás e cinco mil franjas”, contabiliza Diego.

O valor unitário de um boá não é caro, gira em torno de R$ 80 a R$ 100. Contudo, como o gasto deste material é grande numa escola de samba para que o efeito visual seja volumoso e requintado, o investimento é alto.

Ateliê Ventura atende não apenas as escolas de samba e os grupos de bate-bolas do Rio. Segundo Diego, eles já trabalharam com entidades que participam do Festival de Parintins, festa popular realizada no Amazonas, agremiações carnavalescas de Uruguaiana e chegaram até a exportar para a Argentina.

Com a crise, Diego explica que teve que buscar saídas para que o trabalho não ficasse comprometido e as vendas caíssem. “As escolas antes comprovam à vista, e hoje a venda é feita com carta de crédito. Por isso, desenvolvemos um produto mais compacto; não há perda no brilho, nem nas cores, mas o volume é um pouco menor”, explica.

Com esta inovação, a queda de 40% nas vendas que ocorreu entre o Carnaval de 2016 e o de 2017 está conseguindo ser revertida. “Com o produto mais compacto, as vendas voltaram a subir. Ficamos elas por elas. O importante para nós é continuarmos seguindo os ensinamentos do meu pai, que sempre disse: não sou o melhor no que faço, mas faço o meu melhor, buscando o aprimoramento e uma melhor qualidade sempre”, garante.

Diego segue trilhando os passos dados pelo patriarca, mas também quer deixar suas pegadas para outros seguirem. “Meu pai sempre dizia que buscava a qualidade ao invés da quantidade. Hoje buscamos aprimorar o produto para que a qualidade e a quantidade andem juntas, sem esquecer que elas só valerão se o meio ambiente for efetivamente preservado”, afirma.

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Carnaval - As penas do peru são utilizadas na confecção de boás, que são feitos de maneira artesanal. A parte mais nobre da ave é o pescoço. Foto: Jorge Paim
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