Alimentos Orgânicos em alta no Brasil

Feiras especializadas em alimentação mais saudável fazem sucesso em número crescente de cidades. Foto: Fábio Gonçalves

Do Solidário, por Saulo Andrade e Carla Giffoni

Publicado 21 de Novembro de 2016

No mundo inteiro cresce a conscientização do consumidor, na busca por uma alimentação cada vez mais saudável e menos industrializada. Estudos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura e da Federação Internacional de Agricultura Orgânica apontam que os norte-americanos e os europeus são os povos que, por enquanto, mais consomem alimentos orgânicos. Eles deixam, por ano, para o setor, mais de US$ 31 bilhões e US$ 29 bilhões, respectivamente, movimentando uma economia que impacta diretamente na qualidade de vida humana.

Dados do Mercado Nacional de Orgânicos destacam que, na última década, a produção desse tipo de alimento cresceu mais de 300%. Com dez anos de atuação, o Projeto Organics Brasil atende 77 empresas produtoras de alimentos orgânicos do país. 58% delas, micro e pequenas. A regulamentação do setor começou a vigorar em 2011, com a criação do selo nacional obrigatório, advindo da Lei dos Orgânicos (http://goo.gl/SuTWkM).

No entanto, em nenhum país do mundo os orgânicos representam mais que 5% da produção de alimentos. Mesmo assim, pode-se considerar que, neste segmento, há uma conjugação significativa entre geração de emprego, renda e sustentabilidade. Exportando matérias primas como açúcar; óleos de dendê; vegetais; castanha de caju; sucos de frutas; açaí; mel; erva-mate; frutas tropicais congeladas; café; preparações capilares; própolis e cachaça, o projeto Organics Brasil fechou o ano de 2015 com um faturamento de US$ 160 milhões. Em 2016, a meta é crescer entre 10% e 15%.

Para o coordenador executivo do projeto, Ming Liu, o contínuo processo de regulamentação possibilitou que o setor se preparasse para o reconhecimento, pois o consumidor se conscientiza da necessidade de produtos seguros e que fazem bem à saúde. Em sua avaliação, criaram-se condições para que o mercado global de orgânicos fature cerca de US$ 80 bilhões. “É um valor pequeno, se comparado aos números das empresas gigantes do agronegócio. No varejo, as grandes redes e as mais especializadas de pequeno porte estão em demanda crescente, em especial por produtos frescos, processados e de maior valor agregado”, explica Ming.

Feiras especializadas em alimentação mais saudável fazem sucesso em número crescente de cidades. Foto: Fábio Gonçalves

A auxiliar de cozinha Mônica Maciel consome orgânicos há mais de 20 anos. Ela lamenta que, quando começou a consumir estes tipos de produtos, era obrigada a se deslocar até Botafogo, no Rio, porque não havia locais de venda na sua própria cidade, Niterói. Mônica ressalta que, onde mora, ainda não há uma efetiva teia de comunicação entre produtores locais. “É importante esta modalidade de consumo, porque colaboramos com os pequenos produtores do entorno de onde vivemos. Isso fortalece a microeconomia, que é o pulmão do estado”. Atualmente, Mônica adquire seus alimentos numa feira que funciona aos sábados, no Campo de São Bento, em Icaraí, bairro da Zona Sul da cidade. A Coordenadoria de Economia Solidária da Prefeitura de Niterói – órgão responsável por este segmento -, destaca que um mapeamento completo de produtores orgânicos do município está sendo preparado.

Feiras especializadas em alimentação mais saudável fazem sucesso em número crescente de cidades. Foto: Fábio Gonçalves

Outras duas consumidoras de alimentos orgânicos são a aposentada Maria Terezinha Barbosa e a comerciante Maria da Glória Campos. Dona Terezinha, que mora na Glória, Zona Sul do Rio, conta que seu primeiro neto tinha muitas alergias e vivia gripado. Foi quando sua filha decidiu alimentá-lo, do primeiro ao segundo ano e meio de idade, exclusivamente com produtos orgânicos. “A alergia dele sumiu e a saúde melhorou muito. Não precisamos mais levá-lo ao médico. Depois que a crise econômica se intensificou, o meu neto começou a comer alimentos comuns. Agora, o segundo, de onze meses, alimenta-se de orgânicos desde que começou a ingerir papinhas: nunca teve problema de saúde ou qualquer alergia”, conta a aposentada.

Glória, que mora no Catete, também colhe os frutos de uma alimentação mais saudável. Apesar de pagar mais caro, ela buscou nos produtos orgânicos uma melhor qualidade de vida para seu pai, de 87 anos, que tem Alzheimer. A comerciante conta que já viveu essa experiência quando a mãe teve câncer e estava se tratando com quimioterapia. “Vale a pena. Agora, com a descoberta da doença do meu pai, achei também melhor que comesse orgânicos, principalmente frango e ovos. Ele adora carne e não consegue viver sem esse tipo de alimento”, frisa Glória

 

Custos de produção nem sempre são repassados ao consumidor

 

Apesar de beneficiar a saúde, comparativamente aos alimentos “comuns”, que contêm agrotóxicos e são mais facilmente encontrados nas gôndolas dos supermercados, os produtos orgânicos ainda saem mais caros ao consumidor. Isso ocorre porque os custos de produção para a alimentação orgânica são maiores e eles podem se diferenciar por setor: primário (agricultura) ou secundário (indústria e processamento). Ambos estão diretamente integrados. De acordo com a Organics, a diferença destes custos vem diminuindo, à medida que novos produtores se certificam e os produtos acabam sendo ofertados em maior número. E isso vem ocorrendo anualmente no Brasil.

Coordenador e fundador de duas feiras do Circuito Carioca de Feiras Orgânicas – as de Ipanema e Tijuca – Fiora Serafini coordena, também, a feira do Campo de São Bento, em Icaraí, Niterói. Em cada uma delas, ele é representante da Associação de Agricultores Biológicos do Estado do Rio de Janeiro (ABIO), entidade do movimento social da agricultura orgânica que – organizando 400 produtores no estado – pertence majoritariamente a agricultores familiares.

Cobrando preços inferiores aos praticados nas unidades convencionais, nas feiras de Serafini o processo produtivo dos produtos orgânicos não é necessariamente mais caro, porque os trabalhadores atuam em grupos. Segundo ele, cinco produtores, juntos, trazem um volume e uma variedade maior por feira, barateando consideravelmente o frete, facilitando a vida do produtor e favorecendo a rotatividade da produção. “Cada um pode realizar uma feira diferente, sem os tirar da terra. Eu saio um dia e faço uma feira e, no dia seguinte, o meu colega faz o mesmo. As feiras convencionais vendem geralmente a unidade da alface a mais de R$ 2,50, R$ 3, e nós, a preços 30% inferiores aos encontrados no mercado. Do início ao fim de nossas feiras, vendemos ela por até R$ 3, porque partimos da premissa do respeito ao ser humano, tanto na produção como na venda”, enfatiza.

Feiras especializadas em alimentação mais saudável fazem sucesso em número crescente de cidades. Foto: Fábio Gonçalves

De acordo com Serafini, 90% dos produtores orgânicos são associados à ABIO; já os outros 10% restantes – aproximadamente – têm uma certificação por auditoria, permitida também pela legislação brasileira, mas que sai mais cara e serve, fundamentalmente, ao agronegócio. Somadas, a produção do Circuito Carioca e da feira de Niterói contabilizam, em números atuais de venda direta do produtor ao consumidor, R$ 12 milhões ao ano.“Atualmente, estamos comercializando quatro milhões de alfaces. Isso remete a uma área de produção agroecológica, certificada no estado do Rio, que aumentou em 20 vezes”.

 

ABIO auxilia na certificação de produtores 

 

A Associação de Agricultores Biológicos do Estado do Rio de Janeiro dispõe do Sistema Participativo de Garantia, um dos formatos de certificação que obedece à legislação brasileira. Realizando um trabalho de fiscalização ao longo de todo o processo certificatório e tratando de questões administrativas de arquivamento e orientações técnicas. Reconhecida pelo Ministério da Agricultura, trata-se de uma facilitadora para cada grupo de feirantes de produtos orgânicos da economia solidária.

 

Circuito Carioca de Feiras Orgânicas

 

O decreto de criação do Circuito Carioca de Feiras Orgânicas estabelece que a venda seja direta do produtor ao consumidor, com certificação e supervisão feita pela ABIO, sempre de acordo com os marcos da economia solidária. Um dos fundamentos do circuito é que o produtor deva pertencer ao Estado do Rio de Janeiro. Quando se abre uma nova unidade, estabelecem-se critérios de aprovação, priorizando-se grupos formais ou informalmente organizados, que já tenham participado ou não de outra feira, no objetivo de ampliar as oportunidades de participação. Pode haver, ainda, no máximo, dois comerciantes, não ocupando mais de 10% da quantidade de barracas: se a feira tem 30 expositores, eles não podem estar em mais de três ou, eventualmente, quatro. Atualmente, este será o critério da ABIO para auxiliar na abertura de outras duas feiras em Niterói.

 

Família unida na produção de orgânicos

 

Tem gente que faz do trabalho com a produção de alimentos orgânicos uma filosofia de vida. É o que acontece com a família Ponte. Sandra Regina da Ponte produz e vende alimentos orgânicos plantados no seu sítio, localizado no Brejal, 5º Distrito de Petrópolis, na Região Serrana do Rio. Ela, o marido e três filhos, além da nora, sobrinhas e cunhadas – dez pessoas ao todo – trabalham a terra, trazendo a colheita há quatro anos para as feiras do Flamengo e de Laranjeiras. São produtos como alface, rúcula, espinafre, brócolis, cenoura, abóbora, chuchu, mandioca, cebolinha, batata-doce, banana, milho, salsa, abacate, couve e manjericão.

Sandra conta que a família decidiu continuar o legado deixado por seu sogro, Matias Lima da Ponte, que no início da década de 1980 já descia a serra para vender produtos orgânicos na feira da Glória, a qual ajudou a fundar. “A gente tentou trabalhar para os outros que produziam alimentos orgânicos, como o ator Marcos Palmeira. Fomos empregados dele por três anos, mas depois saímos e fomos trabalhar com o meu sogro, no sítio dele. Passávamos até necessidade, porque não tínhamos pontos de vendas, a cultura orgânica estava iniciando. Sempre pensamos na necessidade de trazer às pessoas uma alimentação que contribuísse para a saúde de todos”, relembra Sandra, dizendo que sua mãe também chegou a participar, no final da década de 70, da Coonatura, que estava iniciando.

Giulia Bulhões é outra que vem do Brejal e também faz parte do clã Pontes. Ela produz, em seu sítio, mais de 50 produtos entre frutas, hortaliças e legumes orgânicos, que são trazidos para venda, há sete anos, nas feiras de Flamengo, Laranjeiras, Urca, Botafogo (Zona Sul) e também Grajaú e Tijuca (Zona Norte). “Somos nove pessoas trabalhando no sítio: eu, meu pai, madrasta e irmãos”.

Assim como sua tia Sandra, Giulia diz que a decisão da família de trabalhar com os alimentos orgânicos foi pensando em ajudar não só as pessoas, mas também o ecossistema. “O que oferecemos é um produto sem veneno, que não maltrata o meio ambiente e traz saúde para quem se alimenta. É saúde para todos: pessoas, a fauna e a flora”.

Sandra pondera que a maior dificuldade em se trabalhar com os orgânicos é a figura do atravessador, que vende mais caro. A população reclama do preço, acreditando que os produtos orgânicos são sempre muito caros. “Uma dúzia de ovos pode sair a R$ 16 com o atravessador; sem ele, pode cair para R$ 14”.

Por outro lado, Giulia destaca que plantar alimentos orgânicos traz um gasto muito maior do que cultivar produtos em cujas lavouras se usam agrotóxicos.“Numa cultura orgânica, muitas vezes a capina é feita à mão. A produção é muito menor, respeitamos o ciclo das plantações. Nas culturas não orgânicas, o trabalho é feito com pesticidas e a produção é o ano inteiro”.

Uma forma encontrada para baratear o transporte dos produtos trazidos da Serra para a Zona Sul do Rio, segundo Sandra, é trazer a colheita junto ao cunhado, que também participa das feiras de orgânicos. As produções que Sandra e Giulia trazem para as feiras do Rio têm o certificado da Associação dos ABIO. “O pessoal da ABIO foi lá no sítio, viu a terra, a produção, os alimentos gerados e concedeu o certificado”, frisa..

 

Saiba onde encontrar feiras orgânicas no Rio e em Niterói:

Niterói: Campo de São Bento, em Icaraí, aos sábados, das 7h às 13h.

Ipanema: Praça Nossa Senhora da Paz, às terças-feiras, das 7h30 às 13h.

Leblon: Praça Antero de Quental, às quintas-feiras, das 7h às 13h.

Tijuca: Praça Afonso Pena, às quintas-feiras, das 7h30 às 13h.

Jardim Botânico: Praça da Igreja São José da Lagoa, aos sábados, das 7h30 às 13h.

Copacabana: Praça Edmundo Bittencourt, no Bairro Peixoto, aos sábados, das 8h às 13h.

Glória: Rua do Russel, aos sábados, das 7h às 13h.

 

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Agronegócio afugenta trabalhadores do campo

Autor do livro “O Brasil está nu – o avanço da monocultura da soja, o grão que cresceu demais”, o economista Sérgio Schelesinger aponta que, notadamente nas regiões centro e Norte do Brasil, o agronegócio traz empobrecimento, exclusão social e territorial a comunidades rurais, mais particularmente agricultores familiares, agroextrativistas, ribeirinhos, pescadores artesanais e comunidades indígenas.

De acordo com Schelesinger, a percepção geral é que a água disponível e a atividade pesqueira nos rios estão se reduzindo por conta da monocultura da soja. No entanto, ele ressalta que ainda não há um órgão oficial que produza estes dados. “Sabemos por depoimentos de quem vive próximo às monoculturas, que o uso de agrotóxicos causa incidência de câncer, suicídio e outros problemas de saúde”, lembra.

A obra do economista destaca relatos de agricultores, dando conta das vantagens da agricultura familiar, comparativamente à monocultura da soja. Um deles é o do agricultor Antônio Valdir, da Associação dos Produtores Rurais de Santarém, no Pará. Para ele, um plantador de soja planta muitos hectares e emprega, apenas, entre dois a três funcionários. “Na agricultura familiar, a pessoa, em um hectare de terra, emprega de dez a 15 funcionários, fora a família. Tal modelo não  oferece muito retorno, pois quem produz farinha numa casa de farinha, em um pequeno espaço, com pouca coisa? Trabalham cinco, seis, sete, dez pessoas, e a soja não trouxe isso; sem contar o desequilíbrio ambiental que ela causou à nossa região”, explica Antônio Valdir..

Na opinião de Schelesinger, a produção de commodities (mercadorias como soja, trigo, café, algodão, petróleo, minério ou borracha) não permite uma justa distribuição de renda, porque, quando os seus preços caem – e eles sempre caem – os prejuízos são para todos. “É a sina de um país que não privilegia, em suas políticas públicas, atividades que melhor distribuam a renda e gerem mais emprego, como é o caso da produção familiar orgânica e agroecológica. Sem isso, não há nem crescimento nem muito menos desenvolvimento”, frisa.

O economista aponta ainda que os prejuízos sociais e ambientais são permanentes e não estão incluídos no preço dos produtos. Ainda de acordo com Schelesinger, as mudanças climáticas, causadas em grande parte por este modelo, e a própria expansão das monoculturas e do gado, vêm resultando na redução da produção dos alimentos que comemos. “Feijão e arroz, por exemplo, são frequentemente importados, e seus preços têm crescido em proporção maior do que a média da inflação.”

 

O Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos

 

Segundo dados do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal, o faturamento de agrotóxicos no Brasil cresce a cada ano, tornando o país o maior consumidor mundial. A estimativa é que cada brasileiro consome cinco litros de agrotóxicos por ano.

Em 2011 e 2012, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária fez um levantamento que constatou que cerca de 30% dos alimentos têm agrotóxicos acima do esperado. Normalmente, essa inflação se dá por dois motivos: a quantidade de agrotóxico está acima do limite máximo permitido ou então são produtos não permitidos pelo governo para serem usados nas culturas.

 

Produção orgânica

 

No país, os últimos números do Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2006, revelam que possuímos 4,93 milhões de hectares de terra voltados ao cultivo de produtos orgânicos. São 90.497 estabelecimentos; mais de 11 mil unidades de produção certificadas e 90 mil produtores. Um novo Censo Agropecuário será realizado pelo IBGE ainda em 2016.

 

 

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Carla Giffoni: Jornalista, escritora e roteirista. Atuando há 20 anos como jornalista nas Editorias dePolítica, Polícia, Economia, Cultura e Cidades, em revistas, jornais, sites e emissora de TV, entre eles: Tribuna da Imprensa, Revista Menorah, repórter do Portal de Notícias SolidáRio, TV Bandeirantes (BM), jornal A voz da Cidade, Rádio do Comércio. Colaboradora do roteirista José Carvalho no filme “Vidas partidas”; colaboradora do roteirista Doc Comparato para o projeto “Peritos da Verdade”. Pós-graduada em Jornalismo Cultural e em Roteiro para Cinema e TV (UVA); graduada em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo – e também em Letras/Formação de Escritor (PUC-RJ).
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