MEMÓRIA

Posso falar com você?

– Agora não. Estou ocupado. Tenho que terminar de lavar esta louça.

– Posso falar com você?

– Já falei que não. Espere um pouco, já tomou café?

– Posso falar com você?

– Certo. Acho que a louça pode esperar. O que tem a dizer?

– Posso falar com você? Você veio do mundo dos mortos, do Vale dos Suicidas, para morrer no meu lugar.

– Como assim, não me reconhece?

– Pensa que não o tenho observado? Você é o único vivo nesta casa. Estamos todos mortos.

– Não. Não vim do Vale dos Suicidas, e vocês estão vivos, iguais a mim. Estamos vivos aqui.

– O que você quer da gente?

– Não quero nada de vocês. Estou aqui de passagem. Logo irei embora.

– Você vai morrer em meu lugar?

– Não. Quando o que nos é inevitável me acontecer irei morrer por mim. Não por você, nem por ninguém. Nossas mortes nos pertencem. A minha morte é somente minha.

– Me dá um cigarro?

– Não tenho cigarro.

– Me dá um cigarro?

– Já disse que não tenho cigarro, não fumo.

– Preciso de um cigarro, não consigo pensar sem um cigarro. – Me dá um cigarro?

– Amigo, por que não vai descansar?

– O cigarro me ajuda a conversar com o Exército. Quando saí de lá, perdi a memória.

– Qual é a importância do Exército para você?

– O Exército é a minha memória.

– Entendo.

– Tá vendo aquele muro, daquela casa, todo pintado, com diversas cores, em mosaico?

– Sim, estou, passei por ele quando vim para cá. É um bonito painel.

– Tá vendo aquela cor, no centro das cuvas?

– Sim. É cor laranja.

– Não! Aquela cor sou eu. Fui eu quem pintou o muro. Ele não existia antes de eu chegar.

– Compreendo…

– Aquela cor está em expansão. Ela está crescendo e ocupando o espaço das outras.

– Me parece estática.

– Não. Ela está em movimento. Está aumentando de tamanho. Ela é a minha memória. Quando ela crescer totalmente e tomar o muro por inteiro, lembrarei do meu passado no Exército.

– O Exército deve ter sido marcante em sua vida.

– Sim, eu fui do Exército.  Marechal, em Minas Gerais.

– E hoje, de onde você é?

– Eu moro na Casa.

– Sim, eu moro com você.

– Você veio do Vale dos Suicidas.

– Não. Eu não vim do vale dos Suicidas. E também não servi ao Exército. Portanto tenho certa limitação para compreender o seu mundo.

– Me dá um cigarro?

– Já disse que não tenho cigarro e pelo que sei, você tem hora certa para fumar.

– Sabe…?

– Diga…

– É preciso esquecer da gente para sermos uma nova pessoa.

– Você esqueceu de você?

– Não. Eu fui do Exército. Só não tenho a memória do meu estar no Exército. E sou a tinda que expande no muro.

– Onde você está agora?

– Estou com você, no Vale dos Suicidas. Estou morto e todos estão mortos, e você vai morrer por mim, não vai?

– Não. Não irei. Irei morrer por mim. Mas antes tenho que terminar de lavar a louça.

– Vou até o muro.

– Sim, ele é o seu espelho.

– Ele é a minha memória. 

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