Mercado de produtos eróticos e sensuais fatura R$ 1 bilhão

De 18 a 23 de Abril, o Centro de Convenções Sul América, no Rio de Janeiro (RJ), vai receber o maior evento erótico do Brasil, a Sexy Fair 2017. Mais de 40 mil visitantes são aguardados no local para conhecer o que há de mais novo em produtos desenvolvidos para apimentar os relacionamentos. Na foto Paulla Aguiar, presidente da associação Brasileira de produtos eróticos.

Por Carla Giffoni e Paulo Cezar Soares

A crise política e econômica que tomou conta do país não afetou o mercado de produtos eróticos e sensuais. A primeira edição da Sexy Fair, no Centro de Convenções do Sul América, localizado no bairro Cidade Nova, bem ao lado da Prefeitura do Rio, região central, que teve início na última terça-feira e termina neste domingo, tem recebido um bom público. Afinal, ninguém vive sem sexo.

Se você pensa que uma feira de vendas de produtos eróticos e sensuais é um local de perdição e pornografia, é hora de fazer um upgrade de seus conceitos e preconceitos. Apesar da crise, que assola o país – basta lembrar que a atividade econômica teve no ano passado uma queda de 4,34% segundo o índice de Atividade Econômica do Banco Central – o mercado das empresas de produtos eróticos e sensuais teve de 2015 para 2016 um crescimento de 2,8%. Oficialmente foram R$ 1 bilhão/ano de faturamento. E a expectativa é
que em 2017 o crescimento atinja o patamar de 3,5%. Para os desavisados de plantão pode até parecer pouco o percentual de crescimento, mas o que mais traz esperança para 100 mil pessoas que trabalham no setor, direta e indiretamente, é que há espaços, e dos grandes, para um crescimento exponencial pelos próximos anos, já que 83% dos brasileiros nunca experimentaram nenhum produto erótico. Com isso, o Brasil tem hoje 30 fábricas, 50 atacadistas, 15 importadoras, mil lojas virtuais, 80 mil consultoras domiciliares e 15 mil itens de produtos que o público pode escolher para incrementar a sua relação com um parceiro.

Paula Aguiar, presidente da Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual (ABEME), explica que no território nacional são 11 mil pontos de vendas, sendo que 90% desses pontos são empresas de micro e pequeno portes.

No país há duas feiras abertas ao público interessado em comprar produtos eróticos e sensuais: a tradicional Erótica Fair, que desde 1997 acontece em São Paulo, e agora a Sexy Fair, em sua primeira edição. Há também a feira de negócios Intimi Expo. “Há muito o que fazer e o que se conquistar, e esses dados demonstram isso. Os empresários por conta disso estão inovando, fazendo bazares, participando de grêmios, estão saindo das lojas e da internet, levando o produto erótico para outros lugares em que normalmente não entrariam porque muitas pessoas ainda têm preconceito em entrar em sexy shop. Por isso, a importância da Sexy Fair no Rio de Janeiro. Um evento em que a gente quebra preconceito e mostra que o mercado erótico é para casais e não para pornografia”, garante.

Paula lembra, ainda, que eventos como a Sexy Fair devem ser vistos também como importantes para os empoderamentos sexual e da mulher, sendo uma maneira de quebrar tabus e preconceitos sobre a própria sexualidade, independente do gênero. Quem pensa que a venda de produtos eróticos e sensuais tem como maiores consumidores os homens engana-se redondamente. Em pesquisa realizada pela ABEME foi comprovado que em 2016 as mulheres representaram 65% das compras de produtos eróticos. Há duas vertentes nesse tipo de compra: as que foram impulsionadas pelas redes sociais, em que as mulheres aproveitam promoções e lançamentos, e também as vendas por catálogos. Nessa área o poder feminino é grande. Para se ter uma ideia, as mulheres dominaram completamente, respondendo por 90% das compras realizadas com as consultoras. Os produtos mais consumidos no ano passado foram estes: em primeiríssimo lugar, o lubrificante anal; em segundo, o gel excitante/vibrador líquido; em seguida, o gel retardador/prolongador da ejaculação; o anel peniano (com vibrador) ficou na quarta colocação; já as bolinhas lubrificantes ficaram em quinta; e em último lugar, a venda de lingerie sexy.

Burocracia carioca e preconceito – Em pesquisa realizada pela ABEME, o Estado do Rio de Janeiro está em segundo lugar em vendas online, perdendo apenas para São Paulo. Para Paula, esse dado é muito importante, porque o Rio não tem muitos pontos de vendas – são apenas cerca de 50 lojas, no máximo. “No entanto ele é um estado que consome muito, faz muita pesquisa online, e os casais compram juntos. O que a gente chama de loja é não só sexy shop, mas pontos de vendas de lingerie e que têm espaço para comercializar produtos eróticos. Lojas de lingerie hoje vendem géis, cremes, alguns acessórios. Existem vários tipos de lojas, que não são especificamente lojas tradicionais de sexy shop, em todo o Brasil e não apenas no Rio”, explica.

Para a presidente da ABEME, outro fator que dificulta o crescimento de pontos de vendas de produtos eróticos e sensuais é a legislação carioca. “Infelizmente fecharam muitas lojas no Rio. Há também uma legislação local que impede a abertura de loja em qualquer local. Isso é uma coisa que a cidade tem que repensar porque afinal de contas é uma demonstração de preconceito. O que o governo municipal e mesmo o público de maneira geral parecem não saber é que hoje apenas 1% de tudo o que é comercializado numa sexy shop é pornografia. A gente não vende filmes pornôs, não vendemos fotos. Vendemos é gel, cremes e acessórios. O vibrador mais vendido nesse país é um vibrador de casal, que é umnanel peniano que tem um vibrador e que só serve para ser usado entre duas pessoas. Então não existe essa questão de consolo ou de que a mulher usa o produto sozinha. Não, a mulher usa muito em parceria. Por isso digo novamente que os produtos são muito usados a dois, e a mulher precisa se conhecer, se respeitar, empoderar também no seu prazer”, enfatiza.

Informações para melhorar o desempenho sexual não faltam: a feira conta com uma vasta literatura para homens e mulheres sobre os mais variados temas no assunto em tela. A curitibana Celine Kirei, professora de artes sensuais é uma escritora conhecida no mercado erótico. Já publicou cinco livros, entre eles, Fantasias Sexuais, 50 tons de sedução. Conta que quando trabalhou como farmacêutica, na sua rotina diária com as mulheres, percebeu que poderia contribuir na questão da sexualidade, não só de mulheres, mas também de casais. E, a partir de então, começou a escrever. “A falta de libido é um dos maiores problemas das mulheres. Pode ocorrer devido a problemas financeiros, familiares e estresse”.

Também curitibano, Carlos Kadoski é autor – entre outros livros – de Potência Sexual Masculina – Pompoarismo,a ginástica do kama sutra. “ São exercícios que ajudam o homem no seu desempenho sexual. O pompoarismo é praticdo em vários países. E muito popular na China”, frisa Kadoski, que é professor de história e dedicado à pesquisa e ao estudo da sexualidade humana. Pós-graduado em orientação sexual, aprimorou seus conhecimentos na França e na Alemanha.

O idealizador do evento: Osmar Gil é empresário e proprietário da Exitus, empresa responsável pela primeira edição da Sexy Fair. Para tirar a feira do papel e vê-la concretizada em mais de dois mil metros quadrados do Centro de Convenção, Osmar Gil teve que suar muito e usar todo o seu poder de convencimento, aprendido com anos atuando na publicidade. O preconceito e a burocracia são entraves constantes em feiras com esse tipo de temática.

Osmar tem experiência: foi um dos idealizadores e realizadores da Hot Fair (Feira Quente), que aconteceu nos anos de 2011, 2012 e 2013. Depois a feira parou porque o Rio Centro, onde era realizada, ficou fechado para atender a Copa do Mundo e as Olimpíadas. “O objetivo da Sexy Fair é levar entretenimento, mas não é só isso. Nossos trabalhos têm um fundo social envolvido, com a abertura de fóruns de palestras e debates. Para isso, elaboramos várias atividades, como palestras sobre a sexualidade dos portadores de necessidades especiais, empoderamento feminino, concurso Deusa Plus Size, que visa a quebrar tabus e a imposição de um padrão de beleza, e o concurso Miss Transexy, para valorizar a classe LGBT”, explica.

No último dia, Érica Rambalde falará sobre o mercado erótico; e Alyne Meirelles e Tati Presser falarão sobre “Para além de todos os mitos e tabus: as preocupações na era digital com os adolescentes – sua iniciação sexual”. As palestras acontecem sempre a partir das 16h20 e seguem até às 22h.

Quem for ao evento poderá desfrutar de várias atrações, como shows de strippers, o Castelo do Fetiche, show de Tequileiros e até um touro mecânico no formato de um pênis, que é a sensação entre as mulheres, que se divertem tentando não cair. “As mulheres têm mente mais aberta ao encarar o brinquedo, subindo no touro mecânico em formato de pênis. Elas levam tudo na brincadeira”, conta. Na verdade, a presença feminina na feira tem sido algo constante, 70% do público.

Osmar diz que a feira foi pensada para oferecer entretenimento para todos os gêneros.

“Em quase todas as atrações da feira há a ala LGBT. Todo dia tem um stripper no LGBT destinado para esse público. Só vai entrar quem quer nesse tipo de show. Quem entra sabe o que vai encontrar ali”, argumenta. Diferenças e semelhanças: Osmar explica que a diferença entre a Hot Fair e a Sexy Fair está basicamente no fato de que o evento deste ano tem mais nomes de peso cantando na boate – antes só havia DJs. Além disso, na Sexy Fair o cunho social está muito mais forte e presente do que antes, com palestras e debates, distribuição de camisinha. Osmar conta, ainda, que teve a ajuda da escritora e psicóloga Tatiana Presser na escolha de nomes para participar da feira. “Tatiana foi um anjo bom em minha vida. Sou empresário e publicitário e o que sei é fazer eventos, organizar, ver segurança, elaborar propaganda, ver a limpeza, isso é comigo. Mas não entendia muito a fundo do ramo erótico. A Tatiana Presser e seu marido, o humorista Nizo Neto, estão nisso há algum tempo. Fui apresentado a eles pelo pessoal da Intimi e da Paula Aguiar. O primeiro contato que tive com o casal foi na Hot Fair, eles ministrando palestras, mas não efetivamente na organização comigo. Então agora fizemos uma ação em conjunto: Tati organizou toda a parte de palco, e o Nizo organizou o stand-up da feira. Agradeço muito ao casal por isso”, diz.

Osmar ainda está estudando a possibilidade de levar a Sexy Fair para outros estados, mas ele esbarra na questão burocrática. “Estamos fazendo essa primeira edição, nesse novo formato, e vamos estudar sobre a possibilidade. Precisamos também pensar na questão burocrática para levar uma feira com essa temática para qualquer cidade. Tudo depende da boa vontade do prefeito. Quando se chega num lugar, não sei se o prefeito vai querer proibir o evento porque acha que isso tudo é uma baita sacanagem. Até é necessário explicar que não é nada disso, pois o preconceito é muito grande”, finaliza.

 

Feira Erótica
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Feira erótica no Rio de janeiro - De 18 a 23 de Abril, o Centro de Convenções Sul América, no Rio de Janeiro (RJ), vai receber o maior evento erótico do Brasil, a Sexy Fair 2017. Mais de 40 mil visitantes são aguardados no local para conhecer o que há de mais novo em produtos desenvolvidos para apimentar os relacionamentos. Foto Fábio Gonçalves
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Carla Giffoni: Jornalista, escritora e roteirista.
Atuando há 20 anos como jornalista nas Editorias dePolítica, Polícia, Economia, Cultura e Cidades, em revistas, jornais, sites e emissora de TV, entre eles:
Tribuna da Imprensa, Revista Menorah, repórter do Portal de Notícias SolidáRio, TV Bandeirantes (BM), jornal A voz da Cidade, Rádio do Comércio. Colaboradora do roteirista José Carvalho no filme “Vidas partidas”; colaboradora do roteirista Doc Comparato para o projeto “Peritos da Verdade”. Pós-graduada em Jornalismo Cultural e em Roteiro para Cinema e TV (UVA); graduada em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo – e
também em Letras/Formação de Escritor (PUC-RJ).

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