Milton Temer: “O PT não será alternativa se não fizer uma autocrítica”

Milton Temer - Foto Divulgação

O Partido dos Trabalhadores (PT), que governou o país de 2003 a 2016, quando a então presidente Dilma Rousseff passou por um processo de impeachment, precisa fazer uma autocrítica e uma reflexão de sua própria atuação se quiser voltar a ser uma alternativa política no Brasil.

A opinião é do jornalista Milton Temer, atualmente filiado ao PSol e que concedeu esta entrevista ao portal SolidáRio Notícias. Ele sabe o que diz. De 1988 a 2003, atuou pelo PT, sendo inclusive deputado constituinte de 1987 a 1991. Depois, como deputado federal pelo mesmo partido, foi uma das vozes mais atuantes contra o governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso nos anos 90. Após discordar da política econômica no começo do governo Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003, decidiu deixar a legenda e ajudou a fundar o Psol, em 2006.

Naquele ano, candidatou-se ao governo do estado do Rio de Janeiro pela legenda. Quatro anos depois tentou se eleger senador, em um pleito no qual obteve mais de 500 mil votos.

Temer também faz uma reflexão da esquerda nacional, que passa por um dos momentos mais complicados de sua história e também do atual afastamento do governo de Michel Temer das áreas sociais, onde Lula e Dilma foram tiveram uma estreita relação.

SolidáRio: Quais podem ser os rumos da esquerda brasileira hoje?

Milton Temer – Primeiro é necessário determinar o que é esquerda no Brasil, hoje. Para mim, ela é hegemonizada pelo segmento mais combativo dos movimentos sociais – MTST/ Povo Sem Medo -. Sem a mesma representatividade social, e capacidade de mobilização, vêm os partidos com combatividade e independência – PSOL, PCB e PSTU. Vale também registrar uma parte da base social do PT. Seus rumos? Difícil definir, porque a esquerda encontra-se muito mais numa atitude reativa do que propriamente de iniciativas. Outro dado importante é a falta de coordenação programática. No meu modo de ver ela só encontra alternativa na incorporação de uma perspectiva anticapitalista, mesmo em seus movimentos táticos.

SolidáRio: Por que grande parte da população perdeu a fé na esquerda?

MT- Porque na grande oportunidade que lhe foi dada, através da vitória de Lula em 2002, a conciliação de classes e um pacto conservador de alta intensidade se impôs ao caráter transformador que se esperava do governo. Com isso, no inconsciente coletivo, foi fácil inculcar que são todos a mesma coisa, quando chegam lá.

SolidáRio: Desde as manifestações de 2013, criou-se um desgaste na política nacional, afastando os jovens. Como reverter esse quadro?

MT – De saída, dando um tempo nessa idéia de que jovem é sempre um segmento progressista. Jovem não é classe. Assim como idoso. Em todos os níveis de idade houve deserções ou acomodações à espera de tempos melhores. Como houve também uma explicitação de direita até então sempre disfarçada.

SolidáRio: Ainda existe viabilidade no PT enquanto partido político, após os escândalos políticos?

MT- Mais do que pelos escândalos, o PT não será alternativa enquanto não fizer autocrítica da brutal guinada ideológica e programática por conta de chegar ao Planalto pensando em “governo para todos”. Quem governa para todos, geralmente está traindo a base social que o elegeu.

SolidáRio: Em sua opinião, o que levou o governo atual em se afastar das área sociais, diminuindo os investimentos nesse setor?

MT-O governo atual nunca esteve próximo de áreas sociais se por isso se entender setores populares. É um governo instalado por um golpe conduzido pelos maganos do grande capital, através da mobilização escancarada que a Globo implementou.

SolidáRio: Há ainda espaço para um governo que ainda leve em consideração a questão social à frente das políticas econômicas?

MT- Prefiro dizer que a política é a determinante na condução do processo. Quanto à economia, ela só poderá voltar a ser tema com umi governo democrático. No atual, só se trata de “ambiente de negócios”. O que tem a ver com os interesses do capital e não com o mundo do trabalho.

SolidáRio: Como reaproximar a população de suas reivindicações?

MT-  A população nunca se afastou de suas reivindicações. O governo golpista é que se propos a não leva-las em conta, com seu pacote de contra-reformas