No Panamá uma história esquecida e pouco divulgada

Mário Augusto Jakobskind - Arte Rafael Sarrasqueiro

A morte do ex-ditador do Panamá, Manoel Antonio Noriega, remete a uma série de questões que se perderam no tempo. No final de 1989, militares norte-americanos invadiram o Panamá e bombardearam o bairro de San Miguel provocando um número incalculável de vítimas.  Tudo ficou por isso mesmo, até porque os meios de comunicação deram muito pouca divulgação ao fato, centrando-se apenas na figura de Noriega, acusado de envolvimento com o tráfico de drogas.

Em nada adiantaram as inúmeras solicitações, inclusive do ex-Procurador da República dos Estados Unidos, Ramsey Clark, no sentido que se investigasse com rigor o bombardeio que resultou em vítimas entre a população civil.

Na divulgação da informação sobre a morte de Noriega praticamente nenhum órgão de imprensa destas bandas lembrou a ocorrência que entrou para a história do Panamá e da América Latina como mais uma agressão feita pelas Forças Armadas de um país, os Estados Unidos, que desde sempre consideram a região como quintal ou pátio traseiro.

Não se trata aqui de julgar a figura de Noriega, que cumpriu pena nos Estados Unidos, na França e a mais recente no seu próprio país. O governo de George Bush pai queria demonstrar na ocasião que os Estados Unidos realizaram a invasão para combater o tráfico de drogas em que Noriega era acusado de ter vínculos.

Não adiantou muita coisa, porque apesar da deportação e prisão do acusado, o tráfico de drogas no Panamá continuou e houve posteriormente acusações de que integrantes da cúpula governamental continuaram os vínculos a todo vapor.

É preciso lembrar todos esses fatos, que continuam não sendo divulgados pelos meios de comunicação, que ao longo dos anos simplesmente reproduziram versões divulgadas insistentemente por vários governos dos Estados Unidos.

Quanto a Noriega propriamente dito vale também lembrar que apesar de ter prestado serviços á Central de Inteligência Americana (CIA) a partir de um determinado momento passou a se indispor com as exigências norte-americanas. Tal fato, segundo analistas independentes preocupava mais o governo Bush do que as acusações sobre vínculos com o tráfico. Mas para ordenar a invasão teria que ter um pretexto diverso do que simplesmente afirmar que Noriega tinha saído do controle norte-americano.

Como prova da validade dessa observação, assinalam analistas independentes, o governo norte-americano silenciava sobre o vínculo de Noriega com o tráfico de drogas quando o então ditador não incomodava com seus posicionamentos. A partir do momento que Noriega tentava se desvencilhar dos seus apoiadores ocorreu a invasão.

Na época, o jornal Tribuna da Imprensa foi um dos poucos órgãos de comunicação destas bandas a colocar em suas páginas tais questões divulgadas também por órgãos alternativos nos mais diversos rincões. Quem tiver interesse nessa questão pode consultar edições do referido jornal editado no Rio de Janeiro e para tanto deve se dirigir à Biblioteca Nacional.