O Frankenstein e a Fênix

A gênese, a morte e o ressuscitamento do jornalismo e do repórter

– O jornalismo acabou!

– Não, amigo, não acabou!

– Acabou sim. Não há mais investigação. Não é mais como era antes.

– Não acabou. Só mudou de roupa.

– Esse negócio de Mídias Sociais… Twitter, Instagram… Isso não é jornalismo.

– Amigo, a nossa profissão ainda respira. O que mudou foi o modelo de negócio… Lembra da máquina de escrever? E das bolinhas de papel amassado voando pela redação na hora do fechamento? Aquele som de teclas chocando–se contra o rolo, das duas folhas de carbono entre três laudas metrificadas?

– Lembro… Aquilo é que era jornalismo.

– Jornalismo analógico. Até que chegaram os computadores ‘tubões’ brancos… Final dos anos 80, início dos 90…

– Lembro… Que saudade…

– Sim. Vivemos a transição tecnológica. Depois veio o universo on line… A internet… E depois as mídias sociais, no início dos anos 2000…

– Sim! E aí acabou–se tudo!!

– Nós morremos com as máquinas de escrever?

– Não.

Ilustração para coluna do Ricardo França
Ilustração: André Barroso

– Pois é. Mas uma geração antes da nossa, de certa forma, morreu. Não se adaptou aos computadores. Ao silencia nas redações e ao extermínio das bolinhas de papel… Lembra? Muitos terminaram na mendicância. Outros morreram de cirrose. Houve companheiros que mudaram de profissão, como agora. Mas nós não morremos, nem o jornalismo morreu.

– Mas o que é ser jornalista agora? Um Frankenstein de mídia, marketing, instantaneidade sem alma?

– Você está muito romântico… Vamos tentar ser mais pragmáticos, amigo… Por que sobrevivemos à mudança dos anos 90?

– Porque nos adaptamos?

– Por que nos adaptamos?

– Por que éramos jovens?

– Não. Porque tínhamos o jornalismo nas veias e no coração.

– E ainda temos!

– Sim. Mas agora só isso não basta.

– Por que não basta? O que mudou?

– Tudo.

– Então o jornalismo acabou, meu velho… Acabou!!

– Não!

– Sim!

– Olha aqui. Mês escuta e para de chilique! Não estamos mais na faculdade.

– Tudo bem…

– Passamos por uma grande fase… De reformulação. Outros modelos surgem… Agências de checagem… Escritórios de investigação para empresas… Jornalismo de dados… De mega dados… Reportagens financiadas pelos cidadãos… Sem depender de anúncios e de publicidade de empresas públicas ou privadas…

– Mas e essas tais de mídias sociais… Esse negócio de ficar monitorando audiência de empresas? Checando a vida das pessoas… Isso não é jornalismo… É um ser híbrido! Um ser monstruoso híbrido e repugnante!

– Amigo, vamos aos fatos. Primeiro, é inevitável. Segundo: não há possibilidade de retrocesso. Terceiro: nenhuma empresa do mundo em suas diversas plataformas sobreviverá sem histórias de pessoas, de vida, de superação…

– E o que é isso?

– É uma possibilidade… Marketing de conteúdo… O personagem é ad eternum!!

– Mas hoje o menos é mais… A notícia fast food é um hamburguer mais um saco de batata frita…

– Mas esse feijão com arroz quem prepara ainda é o repórter!

– Eu era um repórter…

– Você ainda é um repórter! Um repórter lacrimejante, mas um repórter. Capaz de se indignar. De questionar. De descobrir personagens, de contar histórias…

– Mas por que então fui demitido?

– Por que, às vezes, para uma árvore crescer, é necessário cortar a mais velha. Manter a manada da nossa espécie… Os métodos são por demais cruéis. Eu concordo. Mas sobreviver à sangria nos torna mais fortes! E juntos, somos mais. Quer ser o meu sócio?

– Sócio? Em que?

– Em fazer feijão com arroz…

– Feijão com arroz? Pirou? Não sei cozinhar… Sequer fritar ovos eu sei…

– Feijão com arroz é fazer o velho e bom jornalismo visto por outros ângulos… Outros formatos… Vamos montar uma agência especializada em segmentos do mercado. As empresas, sejam de qualquer porte, pequenas, médias e grandes, precisam se posicionar. Precisam de conteúdo…

– O tal marketing de conteúdo?

– Isso! Você entendeu, finalmente!

– Mas como faríamos isso?

– Simples. Basta pensar diferente daquilo que nos foi ensinado e que praticamos, para passar a pensar igual ao que temos que aprender sem esquecer o que nos ensinaram e que praticamos…

– Me dá um tempo para entender esse emaranhado de complexidade?

– Não. Não temos tempo a perder. Tá vendo aquele bonde que está passando ali, sobre os arcos da Lapa?

– Sim… O que tem ele?

– É o bonde da história…

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