O JULGAMENTO

– Olá, amigos. Vocês queriam falar comigo?

– Sim, jornalista. Pode sentar nesse banco.

– Mas está escrito em vermelho nele: ‘banco dos réus’. Por que eu deveria sentar nele?

– Ao longo do processo você terá ciência dos autos.

– Autos? Processo? O que está havendo dessa vez, Queijadinha?

– Meritíssimo, o réu tem que se manter em silêncio e só pode se manifestar quando for requisitado.

– A reclamação é pertinente, Sra. Linfática. O réu tem que se manter calado durante o julgamento do mérito.

– Eu não estou entendendo nada. Isso é kafkiano…

– Senhor juiz, manda esse jornalista calar a boca?!

– Pedido aceito. Jornalista, cale a sua boca!

– Meritíssimo, eu como advogado de defesa estou largando essa causa nesse momento!

– Mas porquê, Capivara? E quem irá me defender?

– Primeira testemunha de acusação. Pode começar o seu relato!

– Mas peraí, de que estou sendo acusado?

– Meritíssimo, ele ainda não calou a boca!

– Protesto aceito, Dona Linfática. Jornalista, cala esta boca!

– Bom, senhor juiz, na semana passada quando eu passei por ele no corredor da Casa ele olhou para mim. Então ele percebeu que eu estava na casa, coisa que eu não havia revelado para ninguém até então.

– Ohhhh!

– Meu Deus! Que abuso!

– Peço ao júri para não se manifestar por enquanto. Sr. Diazepam, por favor, pode voltar ao seu lugar. Que venha a segunda testemunha de acusação!

– Senhor juiz, na noite passada esse jornalista me deu ‘boa noite’, querendo me induzir a dizer o mesmo para ele. Me senti ameaçado e constrangido, pois a noite não estava sendo boa e o desespero tomou conta de mim ao ponto que o desespero me deixou desesperado.

 –  Ohhhh!!!

– Senhores jurados, por favor, mantenham a calma. Obrigado por ter colaborado com a Justiça, Sr. Kim Jong-un.  Que venha a terceira testemunha de acusação!

– Sr. Magistrado, esse jornalista descarado me chamou de Robin com a clara intenção de me humilhar, pois todos aqui sabem que eu à terças-feiras sou o Batman! E só sou o Robin às quintas-feiras…

– Meu Deus! Essa é uma acusação grave de calúnia e difamação! Que dia da semana é hoje, Batman?

– Quinta-feira, senhor meritíssimo…

– Então pode voltar ao seu lugar, Robin!

– Pode levantar-se a quarta testemunha de acusação!

– Sua excelência… O jornalista disse que a torta salgada que eu fiz para o almoço estava doce, só porque eu confundi o sal com açúcar na hora de temperar a massa. E ele revelou isso na frente de todos me causando grande constrangimento, ao ponto de eu não conseguir ser mais quem eu era desde a semana passada. E agora, ‘quando eu estou aqui, não vivo mais esse momento lindo…’!

– Mas que vergonha, como você pôde fazer isso com o ‘Rei’??

– Pode se pronunciar a quinta testemunha!

– Seu juiz, ele me ‘passou’ um ‘zap’!

– Seu jornalista canalha, tarado, sem vergonha! Você ‘passou’ um ‘zap’ na Dona Novalgina??

– Excelência, acho que está havendo um grande equívoco aqui…

– Cala a boca! Já falei!

– Dona Novalgina, vá fazer exame de corpo delito no seu Iphone!

– É smartfone doutor… Pré-pago… Depois do que aconteceu não consigo mais sequer olhar para o meu smartfone. Estou completamente arrasada, violentada, devassada, escancarada, arrom…

– Já entendi, Dona Novalgina. Já entendi. Vai tomar um copo d’água. Vou dar uma pausa de 15 minutos para que o júri faça as suas considerações e deliberações finais…

– Mas meritíssimo, eu não tenho testemunha de defesa???

– Cala essa boca! Peço ao corpo de jurados que apresentem a decisão sobre o destino desse infeliz!

– Está nesse envelope, seu juiz…

– Deixa eu ver… Hummm… Certo… Pegaram pesado. Gosto assim… Hummm… Seu jornalista safado, pelos crimes de…

– Um momento, senhor juiz! Trago um habeas corpus para o jornalista a pedido do Dr. Freud’splica.

– Enfermeiro Juvenal… Eu já estava anunciando a sentença…

– Infelizmente o psiquiatra entrou com uma representação no Supremo e conseguiu adiar este julgamento até que ele leia os autos do processo. Jornalista… Me ajuda a distribuir esses tarjas-pretas para os integrantes deste ‘Tribunal da Inquisição’. Você vai ‘responder’ em ‘liberdade’… É só colocar essa tornozeleira de barbante…

– Juvenal, você merece um abraço!

– Tudo bem. Jornalista… Mas olha lá… Nada de ‘passar’ um ‘zap’ em mim!

– O seu celular é Iphone ou smartfone?

– Iphone. Por que?

– Então fica tranquilo. Não vai ‘rolar’ ‘zap’ não. Os Iphones não fazem o meu tipo…