O mago das cores

Foto Pauty Araujo

Por Daniele Fernandes e Manoel Tupyara

O carnavalesco Max Lopes ganhou notoriedade no carnaval carioca. Profissional de raro talento, começou no mundo do samba como passista dos Acadêmicos do Salgueiro, na década de 1960, escola da Tijuca, onde morava, bairro da Zona Norte do Rio. Com 14 anos fugia de casa e ia para o morro do Salgueiro sambar. Ficou na escola porque era moda, uma referência à época. Tornou-se aderecista.

Com passagens por diversas escolas de samba – Mangueira, Imperatriz Leopoldinense, Unidos de Vila Isabel, Grande Rio, entre outras – foi aluno do carnavalesco Fernando Pamplona, precursor de toda a revolução no brilho do carnaval carioca. Trabalhou com a carnavalesca Rosa Magalhães, e também na casa do primo do ex-governador de São Paulo, Lauro Sodré confeccionando adereços do enredo Festa para um rei negro, para o carnaval de 1971.

Ex-aluno do Colégio Militar, estudou Artes Decorativas na Escola de Belas Artes, curso que não concluiu. Saiu no último ano. “ As pinturas dos quadros não tinham nada a ver comigo”- diz. Resolveu direcionar sua vida para shows e carnaval.

Uma das maiores obras assinadas por Max Lopes foi em 1984, quando a Estação Primeira de Mangueira trouxe o enredo Yes, nós temos Braguinha, uma homenagem ao grande compositor de marchinhas do carnaval. Neste ano, o sambódromo do Rio de Janeiro foi inaugurado, e a escola foi a primeira vencedora do novo palco e aclamada como Supercampeã. Título que nenhum carnavalesco possui: primeiro campeão do sambódromo.

Na sua opinião, para uma escola ficar bem classificada tem que escolher bem o samba, aquele que casa com a escola. “Não adianta escolher aquilo que você quer; tem que ter um consenso. Confluir com o corpo da escola” – explica o carnavalesco, que hoje trabalha na Escola de Samba Acadêmicos de Santa Cruz.

Vários críticos da área questionam o porquê em escolas de médio e pequeno porte ele não tem resultados satisfatórios. Max responde: “Na Vila Isabel o problema foi o samba errado. A escolha do morro foi o que eu queria; a diretoria optou por outro samba por questões políticas. O resultado foi o boicote na Avenida. O enredo de 1996 – A heroica cavalgada de um povo, que retratava a cultura dos pampas, foi o mesmo problema: escolheram o samba errado” – relembra. “Nas escolas de grande porte as possibilidades são maiores em todos os níveis. A escola é muito maior, há mais patrocínios. As de pequenos porte nos proporciona mais sabedoria e maior criatividade. No último ano que fiz a Unidos de Viradouro. o enredo foi O alabê de Jerusalém. Sofri um enfarto agudo, quase morri. Fiquei na UTI um mês e meio e fui obrigado a repousar naquele ano. Mas, mesmo assim, consegui trabalhar e, com o pessoal dos barracões, aprontamos tudo em 30 dias” – revela.

Max prossegue na sua análise e frisa que é preciso contar uma história para o povo entender e assimilar culturalmente. Não adianta falar sobre cultura americana. Isso não é Brasil. A festa é brasileira. Ressalta que a nossa cultura está em segundo plano e isso reflete no carnaval. A anticultura é que está predominando. Max Lopes luta para que seja preservada a autenticidade do samba, mas diz que está sozinho nessa batalha.

O carnavalesco, que realizou uma revolução no quesito das cores e que nem sempre foi alvo de críticas agradáveis, fala como fez a transformação, até então impossível pelos seus colegas de arte. “Usei o rosa bebê, o verde água e o lilás. A escola mudou completamente. A partir daí fui chamado de o Mago das Cores”. Ele concorda com os colegas sobre a dificuldade em harmonizar as cores da escola. “A Mangueira é uma escola extremamente tradicional, não é uma coisa muito fácil trabalhar com o verde e rosa”. Diz que tem o hábito de observar a característica da escola para enxergar o enredo que vai desenvolver. Gosta de fazer história que tenha começo, meio e fim. Não adota clichê e dá o exemplo da Estação Primeira. Frisa que não está criticando, mas está vendo a verde e rosa com um enredo – Com dinheiro ou sem dinheiro eu brinco – que é a cara da União da Ilha do Governador. “A Mangueira é uma agremiação de peso, de enredo pesado, não pode ser enredo de brincadeirinha” – assegura.

Portela – Max Lopes lembra que no seu primeiro ano na Estação Primeira de Mangueira, no enredo A Seiva da Vida, um dos conselheiros não gostou e não aceitou. Alegou que aquilo não era o cara da verde e rosa. Sem pestanejar, Max colocou o projeto na pasta e falou que estava indo embora porque a cara dele era aquela. À época, o Elmo José dos Santos, presidente da Mangueira, pegou-o pelos braços e pediu para que voltasse. Explica que não misturou o verde com o rosa. Abriu o setor com verde e dourado. E esmeralda com turquesa. Depois fez dois tons de rosa, em seguida tons de verde com outro azul; depois rosa com vinho. Neste ano ela veio do décimo lugar para o segundo, com a diferença de um décimo do primeiro colocado. Para Max a escola foi roubada. Deveria ter vencido.

Elogiou o enredo da Beija-Flor de Nilópolis. Diz que a escolha foi feliz, pois faz um protesto muito bem feito. Sobre a Portela, que tem como carnavalesca a Rosa Magalhães, foi monossilábico – “ Não sei. Tenho dúvidas se é a cara da escola, uma maneira diferente de expor. Não sei se é bom para a Portela. A escola tem a sua raiz e não adianta mudar, modernizar. Pode ficar bonito, mas não é a Portela” – garante.

A respeito da escola da águia, revela que o seu maior desejo é fazer um carnaval para a azul e branco de Madureira e Oswaldo Cruz. “A razão é que ela tem certa tradição e isso não pode ser esquecido. O símbolo da águia me atrai muito. Espiritualmente o meu símbolo é uma águia, e nunca tive a chance de fazer a Portela”. Disse que o ex-presidente da azul e branco, Marcos Falcon, assassinado em setembro de 2016, cogitou para levá-lo para a Portela, pois achava que o seu estilo barroco era a cara da escola. “Na época em que fiz Liberdade! Liberdade! para a Imperatriz, a Portela não aceitou o enredo. Achou que era fraco, que era coisa de bloco, que eu estava me oferecendo para fazer. Aí, fiz a Imperatriz, tirei dez em trabalho plástico, com as alegorias. Mas foco muito na raiz. Sou o único a pensar assim. Hoje vejo um passista masculino rebolando mais que uma mulher. Na minha época era passista malandro. Hoje é tudo rebolando igual a uma mulher”- compara Max Lopes.

Foto Pauty Araujo

De todas as escolas de samba que já rubricou enredos antológicos, a que mais o marcou foi a Mangueira. Reconhece que no começo foi difícil, pois fez o que outros não fizeram, como misturar azul com verde, mas que depois foi uma conquista.

Max relembra o enredo da Imperatriz Leopoldinense de 1977- Viagens fantásticas às terras de Ibirapiranga. A escola foi rebaixada, mas garante que o desfile foi lindo. Mas o presidente Luizinho Drumond brigou com uma pessoa e tiraram pontos da escola por conta dessa desavença com o jurado. Em função disso a Imperatriz desceu. Mas no ano seguinte subiu, tendo como Max como carnavalesco, com o enredo – Vamos brincar de ser criança.

Cigana – Ao comentar sobre o enredo O seu cabelo não nega, de sua autoria, revela o que poucas pessoas sabem. Um golpe político que houve nos Acadêmicos do Salgueiro. O presidente Osmar Valença, ao assumir a escola, destituiu todo mundo e deu o enredo para a Imperatriz Leopoldinense. O título oficial do enredo era: O teu talento não nega, que falava sobre a vida do compositor Lamartine Babo. No enredo de 1984 pela Mangueira, que expressa a biografia do compositor Braguinha, diz ter feito uma retaliação. “Quis narrar sobre o protagonista em foco, o que não pude historiar do Lamartine. Daí nasceu o enredo – Yes, nós temos o Braguinha.

Ao falar da Unidos de Vila Isabel garante que nada que está sendo feito hoje tem a ver com a escola. “A Vila é tradicional, é samba de raiz, samba no pé, casa de bamba. Fala que quem assina o enredo costuma dizer que o povo quer ver show. O carnavalesco não tem que se limitar ao lápis e papel. Tem que ter conhecimento do que está fazendo e onde ele está entrando para poder ser safo. Cada escola tem a sua raiz, cada escola tem a sua maneira de ser” – assegura.

Ao passar pela Imperatriz Leopoldinense, disse amá-la. Ao assinar Liberdade! Liberdade! a escola foi muito singular com ele, teve a liberdade de fazer o que queria. No ano seguinte ficou em segundo lugar com o enredo Terra Brazilis, que ele acredita ter tido conteúdo para a vitória. Certo jurado afirmou que o sapato de uma das alas estava fora dos padrões. “Foi uma maneira de alijar a escola do bicampeonato” – lamenta.

Na Unidos de Viradouro quando fez o enredo A magia da sorte chegou, em 1992, uma cigana já falecida em visita ao barracão, professou: “Fogo! Vai pegar fogo alguma coisa. Você vai ver o que é. Fiquei nervoso porque o barracão era velho. Naquele ano perdemos tudo no Pavilhão de São Cristóvão que desabou, perdemos a quadra. Foi um carnaval feito em um mês e dez dias. A derrota da Viradouro não se deveu ao fogo, e sim porque fechou o portão do sambódromo por 13 minutos. Com isso ela perdeu 13 pontos e ficou em sétimo lugar. A Liga considera esse trabalho um dos mais bonitos do sambódromo” – garante. Max ressalta que o incêndio na alegoria não foi técnico e sim criminoso. Afirma que tacaram fogo, mas não quis revelar o nome do suposto responsável.

O carnavalesco, que possui senso de humor, lembra as cenas cômicas que ele presenciou não só no barracão, como também na avenida. “Uma delas foi na Mangueira, no enredo a Seiva da vida. Era a história do cedro do Líbano. Deu problemas com a diretoria porque ela não aceitava a cor vinho no enredo”. Mas explicou: “Não! O vinho é uma cor decorrente do rosa e não é bem vinho. É fuxia”. Depois que Max falou o nome raro da cor, todo mundo gostou e não criou mais problemas.

Outra situação engraçada aconteceu na Mangueira, no enredo Os dez mandamentos. “A bateria vinha de faraó e existia um grupo liderado por Ivo Meireles que não queria a fantasia, porque era saia. A Mangueira é bateria de homem; não bota saia”. Max então, questiona. “Como vou botar um faraó de calças, se não existia calças naquela época? Nem mulher usava calcinha, nem homem cueca”. Dito isso, tomou a decisão de reunir a bateria inteira e colocou um modelo para vestir a roupa. Perguntou aos ritmistas: “Quem é devoto de São Jorge?” Todos se manifestaram como devotos do guerreiro. “São Jorge usa o quê? Minissaia! Não é nem toga, é minissaia. Não é o guerreiro que defende vocês? Vocês não veem de saiote, vocês veem de toga, porque na época faraó era assim”. Quando o modelo entrou todos ficaram de pé aplaudindo. Mas Max já tinha convencido a bateria para usar a toga.

Foto Pauty Araujo

Outro exemplo de comicidade foi na Unidos de Vila Isabel, conta o carnavalesco: “Um componente calçava nº 52 e deram para ele um sapato nº 34. Ele cortou os sapatos de todos os lados, mas foi impossível calçá-lo. Cortou calcanhar, na frente… era um negro enorme, vestido de branco. Eu tive uma ideia: peguei uma lata de tinta branca, enfiei o pé dele na lata de tinta, e ele carimbou um bom pedaço, mas ninguém viu que ele estava sem sapatos. E foi desfilar assim pintado: o pé de branco” – relembra.

Max Lopes e Fernando Pamplona são os únicos carnavalescos que têm depoimentos no Museu da Imagem e do Som. O motivo são os enredos de cunho culturais. Max é um artista que se preocupa com o futuro. Diz que a festa está de um modo geral se modificando para um lado péssimo. Para ele a autenticidade do samba não acaba porque a bateria segura o ritmo. “As Escolas de Samba têm tópicos que respeito muito. É a bateria, a velha guarda, que segura a história da escola, as baianas, que não valem pontos, mas são as almas das escolas, e os passistas, que são o samba no pé. Isso é o que ainda segura a raiz do samba” – ensina.

Na sua opinião, o tempo dos desfiles é muito irrisório para um contingente de 4.000 e 5.000 pessoas, uma correria. “Com isso o samba está perdendo a cadência”. Exemplifica que para marcha tem dois tempos. O samba tem quatro; se correrem muito os quatro tempos vão virar dois. “Ai o samba fica marcheado” – assegura.

Explica que as escolas têm que desacelerar o aspecto show, montar o show sem esquecer a raiz. Por isso, admira a verde e rosa. Chama Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues de ícones, uns verdadeiros heróis, “Não tinham o poder que se tem hoje, os recursos, e nem boa remuneração financeira”- revela.

Mas Lopes não é só artista do carnaval: entrou para o balé folclórico da Mercedes Baptista e virou feiticeiro da congada de Xico Rei, dançando pelo grupo.

Ao encerrar a entrevista conta que o artista em atividade que mais chama sua atenção é o Leandro Vieira. Admira a Rosa Magalhães: classifica-a como detalhista. “As escolas têm que dar condições de trabalho aos carnavalescos. É muito fácil dizer que o cara é ruim, não fez. Vai saber por que ele não fez. Nem toda escola do grupo especial dá condições plena de trabalho ao artista”. Palavra de Max Lopes, O Mágico das Cores.

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