O difícil período do “Beijo Amordaçado”

Por Solidário, por Carla Giffoni

Publicado em 13 de Fevereiro de 2017

Em tempos atuais tem sido recorrente algumas vozes se levantarem em favor da ditadura militar. Essas pessoas esquecem ou então não viveram o período que alicerçou vidas e calou não só artistas de diferentes áreas, mas estudantes, operários ou qualquer um que levantasse a voz contra o status quo. O livro “Beijo amordaçado”, do jornalista Cláudio Ferreira, mostra a realidade dos anos de chumbo e o quanto esse período interferiu na teledramaturgia brasileira.

Este não é o primeiro livro do jornalista. Ele é autor de obras que têm o tema sobre televisão: “A dinâmica dos reality shows na televisão aberta brasileira”, “Cerrado em close – história dos primeiros anos da TV em Brasília”, sendo que em “Qualidade na TV – 10 anos da campanha Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania” ele foi responsável pela organização.

Cláudio Ferreira nasceu no Rio, mas há muitos anos vive na capital federal. É formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília e desde 1986 já trabalhou em importantes veículos em Brasília, como os jornais Correio Braziliense, Folha de São Paulo e Gazeta Mercantil, além de na TV Record, TV Globo e Radiobrás (atual EBC).

Desde novembro de 2004, Ferreira é funcionário concursado da Câmara dos Deputados.

Ele fez um concurso específico para jornalistas e trabalha na TV Câmara e na Rádio Câmara.

Nessa entrevista feita por e-mail, Cláudio Ferreira conta como foi escrever seu último livro, a pesquisa que fez no Arquivo Nacional localizado em Brasília, as dificuldades e os fatos curiosos que conseguiu levantar entre as mais de 150 caixas de material que pesquisou.

SolidáRio – “Beijo amordaçado”… o nome do livro surgiu como?

Claudio Ferreira – foto de divulgação

Ferreira – No decorrer da pesquisa, fui percebendo que os beijos eram especialmente visados pelos censores, principalmente nos anos 60 e 70. Um censor chegou a cronometrar a duração de um beijo e pedir que ela fosse reduzida. Como eu acho que o beijo é um dos símbolos das telenovelas, quis usar a palavra no título. Tentei várias combinações, mas acho que "amordaçado" foi a palavra que mais traduziu a presença da censura na vida cultural brasileira.

SolidáRio – Você já tem outros livros publicados sobre televisão, mas nenhum teve como tema a dramaturgia. Por que escolheu o tema de novela para fazer a pesquisa neste período? Como surgiu a ideia?

Ferreira – Sempre prestei muita atenção às telenovelas como telespectador e como estudioso de televisão. Um amigo foi fazer uma pesquisa no Arquivo Nacional e me deu a dica de que lá havia um acervo sobre a censura na televisão. Minha ideia inicial era abordar a televisão como um todo. Quando tive acesso ao índice do material, vi que, só sobre as novelas, havia 157 caixas de documentos. Então resolvi focar neste gênero.

SolidáRio – Quanto tempo levou a sua pesquisa no Arquivo Nacional de Brasília?

Ferreira – Fiquei uns seis, oito meses indo ao Arquivo Nacional, em Brasília, duas ou três vezes por semana, conciliando a pesquisa com o meu trabalho na TV Câmara. O material deles sobre censura é muito grande, engloba também teatro, cinema, música etc. Para minha sorte, o acervo é muito organizado, e os funcionários, muito prestativos: antes de terminar uma manhã de pesquisa, eu já pedi a caixa de documentos que iria examinar nos próximos dias e, quando voltava, o material já estava separado para mim.

Além disso, o acervo das novelas está organizado por ordem cronológica, o que foi bem interessante, para ir vendo como a Censura atuou ao longo do tempo, entre 1964 e 1988.

SolidáRio – Como analisa a diferença entre a atuação da censura no período de Getúlio Vargas (quando a censura foi instituída) para a censura pós-64? Na época do Estado Novo havia a censura nas rádios, que também tinham novelas…

Ferreira – Não tenho conhecimento profundo da censura na Era Vargas, mas imagino que os procedimentos não eram muito diferentes. A grande diferença é que, no pós-64, os militares tinham consciência do alcance da televisão, e o rádio já não era tão importante. Em vários momentos, os censores se manifestaram preocupados com os atores mais populares das novelas, como a Regina Duarte, porque sabiam que o público iria prestar mais atenção nos personagens feitos pelos atores mais conhecidos.

“Cerca de 70% dos cortes feitos nas novelas não tinham cunho diretamente político, mas seguiam a linha pela moral e os bons costumes”

SolidáRio – O que mudou na atuação da censura após o Ato Institucional nº 5?

Ferreira – A censura endureceu depois do AI-5. Além disso, a partir de 68 a juventude, em todo o mundo, começou a protestar com mais assiduidade, exigindo transformações sociais, pregando a liberalidade de costumes etc. Os documentos da Censura mostram uma preocupação muito grande com este período, sempre sob a justificativa de preservar a juventude e a família brasileira.

SolidáRio – O que lhe chamou mais a atenção, devido ao absurdo da situação, quando fazia a pesquisa no Arquivo Nacional?

Ferreira – Em primeiro lugar, me chamou atenção que cerca de 70% dos cortes feitos nas novelas não tinham cunho diretamente político, mas seguiam a linha pela moral e os bons costumes. Outra revelação que os documentos me trouxeram: eu pensava que as emissoras de TV mandassem scripts e capítulos gravados para a Censura e recebessem o material de volta com os cortes. Descobri que, além deste procedimento, a partir de um certo período os censores tinham uma sala reservada para eles, nas emissoras, para assistirem aos capítulos gravados. Acho que devia ser mais assustador receber um censor na emissora do que simplesmente mandar o material e recebê-lo de volta com os cortes a serem feitos.

SolidáRio – Como as novelas na década de 70 não eram exibidas simultaneamente em todo o país, tinham que passar pelo crivo de cada censor, houve alguma situação de uma novela ter sido aprovada numa cidade e rejeitada em outra?

Ferreira – Até 1969, quando começou a transmissão via satélite, as fitas com os capítulos das novelas tinham que ser mandadas para cada emissora local para ser transmitidas. Neste período, o mesmo capítulo passava pela Censura de cada estado onde iria ser exibido, e às vezes acontecia de ser liberado para um horário em um estado e para um horário diferente em outro. A partir da transmissão via satélite, mesmo as novelas não sendo exibidas simultaneamente, os departamentos estaduais de censura já não interferiam tanto.

SolidáRio – Era um censor em cada cidade do país – afinal são cerca de cinco mil municípios – ou em cada estado?

Ferreira – Pelo que pude apreender da documentação, havia departamentos regionais de censura nas maiores capitais do país, não dá pra saber se em todas. Era só onde havia uma emissora local de televisão que, naquele tempo, ficava majoritariamente nas capitais, e nem todas as capitais tinham emissora própria.

SolidáRio – Que tipo de informação os autores eram obrigados a fornecer para a novela ser aprovada? Que nível de detalhamento a sinopse deveria ter?

Ferreira – A sinopse deveria ser muito detalhada, algumas tinham 50 páginas, porque, no decorrer da novela, os censores sempre acusavam os autores de estarem fugindo do que tinham escrito na sinopse. Além disso, a emissora mandava a lista de atores/personagens, alguns tinham até a descrição dos cenários e das locações ao ar livre que seriam utilizadas. Normalmente, bem antes da estreia da novela, a emissora enviava à Censura a sinopse e os 10 primeiros capítulos. Era com base neste material que a Censura definia para que horário a novela estaria liberada.

SolidáRio – No total, quantas novelas passaram pelo crivo da censura nesse período? “Vale Tudo” foi a última?

Ferreira – Não contei o número de novelas, mas foram 24 anos de censura. Nos anos 60 as novelas eram mais curtas, depois foram ficando mais longas, mas imagino que foram por volta de 200, 250. A Censura acabou em 5 de outubro de 1988, e Vale Tudo estava sendo exibida no horário das 21h. Tanto que a censura a Vale Tudo para neste dia; a novela não foi toda examinada, continuou depois já sem a Censura funcionar.

SolidáRio – Como analisa a justificativa dos censores sobre o veto ser dado para não afetar a moral e os bons costumes?

Ferreira – Eu imagino que havia uma orientação geral para defender a criança, o jovem e a família brasileira, por mais abstrato que isso possa parecer. E acho que muitos censores acreditavam mesmo que estavam fazendo o bem para o país ao retirar da novela referências a aborto, suicídio e outros assuntos incômodos, podando as manifestações referentes a sexo etc. Eles representavam a parcela mais conservadora da sociedade brasileira, que era conivente com o golpe militar e temia umaameaça comunista e uma revolução nos costumes.

SolidáRio – O mundo, e não apenas o Brasil, tem vivido uma onda forte de conservadorismo. Como analisa essas atitudes em comparação aos anos passados? Corremos o perigo de a censura ser instituída outra vez?

Ferreira – Acredito que não haja mais espaço para uma censura institucional, do estado. Mas esses grupos conservadores podem, sim, pressionar as emissoras para que se retirem conteúdos que eles consideram ofensivos. E as próprias emissoras às vezes se antecipam a possíveis reclamações do telespectador e não deixam ir ao ar conteúdos polêmicos. Temos uma onda de conservadorismo perigosa para a sociedade brasileira, que se manifesta sem problemas através das redes sociais, tem comportamentos radicais nas ruas, demonstra ódio e preconceito de diversas maneiras. Essa parcela da população pode influenciar o que é transmitido pela TV, porque também são consumidores e podem pressionar os anunciantes a não patrocinarem certos programas.

“A censura é uma parte nefasta da história recente do Brasil”

SolidáRio – A censura era também a novelas latino-americanas que fossem exibidas no Brasil. Quais novelas sofrem esse tipo de ação?

Ferreira – Todas as novelas mexicanas e venezuelanas exibidas principalmente pelo SBT. As regras eram as mesmas usadas para examinar as novelas brasileiras, mas, em geral, havia menos cortes, provavelmente porque os dramalhões latino-americanos nunca tocaram em assuntos polêmicos no que se refere a moral e bons costumes.

SolidáRio – Que tipo de justificativa continha nos pareces dos censores para vetar uma novela, nacional ou estrangeira?

Ferreira – Em relação às estrangeiras, não me lembro de nenhum documento vetando a novela integralmente. No Brasil tivemos o caso clássico de "Roque Santeiro", vetada em 1975 depois de ter cerca de 30 capítulos já gravados. Os censores faziam dezenas de cortes em cada capítulo, praticamente inviabilizando a exibição da novela. Outra novela, Despedida de Casado, abordava a separação de um casal. A Censura achou o tema inadequado – o divórcio ainda não tinha sido aprovado no país. Não adiantou a TV Globo explicar que estava tendo a assessoria de um especialista, que iria abordar a separação de casais de uma maneira equilibrada, até científica. Quando os censores liam a sinopse e os 10 primeiros capítulos e detectavam vários temas que, segundo eles, eram impróprios, sugeriam o veto total à exibição da novela.

SolidáRio – Que fatos curiosos as emissoras e autores eram obrigados a fazer na hora da negociação com o DCDP?

Ferreira – Os documentos mostram que autores e diretores das novelas eram chamados a Brasília para negociar diretamente com as autoridades. A autora Janete Clair, por exemplo, participou de várias reuniões no Ministério da Justiça antes de suas novelas irem ao ar. Imagine como era constrangedor um autor parar de escrever a novela e vir a Brasília negociar com representantes de uma ditadura? Pelos documentos, estas negociações eram sempre difíceis: alguns cortes eram revertidos, outros eram mantidos,e os censores recomendavam a autores e diretores que dessem um novo rumo à trama da novela.

SolidáRio – O livro cita outras referências bibliográficas. Por que você as buscou?

Ferreira – Quis fazer uma introdução que contextualizasse a censura nas telenovelas em relação à censura em geral. E também foi importante destacar que outros países latino- americanos, como a Argentina, que passaram por ditaduras no mesmo período, também tiveram uma Censura atuante.

SolidáRio – A novela de Gilberto Braga que teve Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg se beijando na boca (Babilônia) sofreu grande rejeição do público. Você acredita que hoje o público faz o papel do censor?

Ferreira – Acho que o público se manifesta quando acha que um conteúdo é inadequado para ele. Só que é sempre uma parcela da população, não representa o todo.

Assim como tem o grupo que rejeitou o beijo das duas atrizes – e acho que o preconceito foi duplo, por serem duas mulheres e por serem idosas – teve muita genteque comemorou o beijo de Félix e Carneirinho em "Amor à Vida" como um passo à frente nos direitos do grupo LGBT e no combate à intolerância. Nunca haverá unanimidade nestes assuntos mais polêmicos. O que seria prejudicial, na minha opinião, seria as emissoras se pautarem somente pela opinião de um dos grupos, não pensando na audiência como um todo.

SolidáRio – Pretende dar continuidade à pesquisa? Afinal, são mais de 150 caixas de material de novelas. Já tem ideia para um outro livro?

Ferreira – Ainda sobraram os documentos da Censura referentes a outros gêneros de programas de televisão, como humorísticos, séries, minisséries. Mas não sei se vou continuar. Acho que o trabalho sobre as novelas pode estimular outros pesquisadores a fazer novos trabalhos sobre estes programas de TV, ou sobre música, teatro, cinema. A censura é uma parte nefasta da história recente do Brasil, mas acho que, infelizmente, temos que remexer nestes arquivos para que a população que não viveu este período o conheça a fundo, e não surjam mais nas ruas propostas absurdas como a volta da ditadura, como já vimos em manifestações populares.

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Carla Giffoni: Jornalista, escritora e roteirista. Atuando há 20 anos como jornalista nas Editorias dePolítica, Polícia, Economia, Cultura e Cidades, em revistas, jornais, sites e emissora de TV, entre eles: Tribuna da Imprensa, Revista Menorah, repórter do Portal de Notícias SolidáRio, TV Bandeirantes (BM), jornal A voz da Cidade, Rádio do Comércio. Colaboradora do roteirista José Carvalho no filme “Vidas partidas”; colaboradora do roteirista Doc Comparato para o projeto “Peritos da Verdade”. Pós-graduada em Jornalismo Cultural e em Roteiro para Cinema e TV (UVA); graduada em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo – e também em Letras/Formação de Escritor (PUC-RJ).
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