O “Projecto Bíblia” de Gutemberg, as startups e as Universidades

Diante das mudanças impostas pelos avanços tecnológicos e da transição da sociedade analógica para a consolidação de um modelo social, econômico e produtivo calcado em bases digitais, impõe-se à Academia a necessidade de se repensar. Encontrar um modelo de ensino que aproxime os corpos docente e discente junto ao mercado de trabalho; criar um ecossistema cuja “fauna” reúna, na sala de aula e em laboratórios (usinas de criação), empresários, investidores, estudantes de áreas afins, e professores qualificados. Esse é o desafio.

Essa realidade, faz parte do cotidiano acadêmico de Universidades do Vale do Silício, na Califórnia, em Palo Alto e Santa Clara, no sul da baía de São Francisco, nos Estados Unidos Elas criaram um novo conceito de modelo de ensino fundamentado na aproximação do mercado com a Academia – a partir da criação de empresas iniciantes em inovação digital – que ainda está em fase de amadurecimento no Brasil.

Centenas de anos antes da geração que criou o Facebook, o YouTube, o Instagram, o Google e o Twitter, o exemplo de Johannes Gutenberg (1452-1455), “pai” da tipografia e da Imprensa, nos ensinou que a 'Pedra de Roseta' está na inovação. Tecnologia, inovação e empreendedorismo, em solo acadêmico. Mas, para isso, é preciso mudar as metodologias de ensino-aprendizagem.

A invenção de Gutenberg foi concretizada cerca de 500 anos antes da criação do primeiro computador integrador numérico eletrônico (ENIAC)  (Electronic Numerical Integrator and Computer), desenvolvido em 1943, durante a II Guerra Mundial. Em 1971 o mundo assistiu ser enviado o primeiro e-mail.

As mídias sociais começam a serem “desenhadas” em 1969, e ganham força na década e 90. O desenvolvimento dos aplicativos de novos serviços, faz com que empresas, setor público, terceiro setor – e empreendedores – tenham a necessidade de posicionar suas empresas e instituições, produtos e serviços, num universo cada vez mais virtual, para sobreviver e realizar suas missões. E no qual o consumidor tem papel preponderante: voz ativa nas redes.

A lição que vem do Vale do Silício e de Palo Alto é um modelo que está sendo seguido por empreendedores de diversos países: as startups. Empresas criadas por estudantes que têm, em seu processo de implantação, o apoio financeiro de investidores e de empresas- “anjos”.

Hoje, no Brasil, existem cerca de 10 mil startups. Mercado empreendedor que está em expansão. Levantamento da Associação Brasileira de Startups (ABStartups), demonstram que o número de empresas em estágio inicial no Brasil, chegou a 4.151 ao final de dezembro de 2015, um crescimento de 18,5% em seis meses. Os setores de Educação, Tecnologia, Saúde, Transporte/mobilidade e Serviços Financeiros são os cinco que mais geram investimentos.

Pesquisa realizada pelo  GVcepe Centro de Estudos em Private Equity e Venture Capital em parceria com o GVcenn Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV/EAESP, e realizado pela Fundação Getulio Vargas, demonstra que o Brasil possui um mercado consolidado de aceleradoras. Quarenta delas em atividade.

O estudo revela que até janeiro de 2016 foram aceleradas cerca de 1.100 startups no País. Os investimentos variam de R$ 45 mil a R$ 255 – num total aproximado de R$ 51 milhões. Segundo o levantamento, existem cerca de 230 aceleradoras em atividade em todo o mundo. No Brasil, a grande maioria delas está no Sudeste. Elas investem nas startups com a intenção de serem sócias no negócio.

Por outro lado, os dispositivos móveis (mobile) tornaram-se campeões de acessos na internet, superando os desktops: 50% do tempo de navegação hoje é realizado via smartphones. O mercado migrou de vez da era analógica para a era digital e abriu caminho para a inclusão à web e para a portabilidade. E para um mercado consumidor e de trabalho que já não tem mais o céu como limite. O caminho do sucesso passa pelos aplicativos.

Entre as premissas de um novo projeto pedagógico de um curso de Pós-Graduação, cabe à Universidade criar times de trabalho discentes sob orientação acadêmica em interação com parceiros externos, para desenvolver habilidades de Liderança, Estratégia, Inovação e Tecnologia, Ética, Negociação, Sustentabilidade, Marketing, Varejo, Vendas e Empreendedorismo em ambientes presenciais e digitais.

A  Academia tem responsabilidade crucial nesse processo: formar profissionais com essas habilidades. Contudo, para isso, precisa se reformar. É necessário gestão em comunicação e marketing com ênfase em empreendedorismo, inovação e tecnologia.

Modernizar as grades curriculares, capacitar seu corpo docente, criar e alimentar canais da Universidade com o mercado. Trabalhar disciplinas e cursos cada vez mais integrados na busca de uma formação sistêmica. Isso na Graduação e na Pós-Graduação.

O desafio é criar um ecossistema acadêmico que traga para a convivência com o corpo docente e discente, nas dependências da universidade, representantes de empresas públicas, privadas e do terceiro Setor no desenvolvimento prático de projetos, serviços e produtos.

E de novas empresas startups, com perfil inovador ancorado em plataformas tecnológicas e digitais. Disponibilizar roteiros metodológicos facilitadores de criação de novas empresas tendo a startup como embrião. Aprender a habilidade de identificar e criar parcerias com investidores-anjo e empresas aceleradoras.

Os avanços e as inovações  tecnológicas no ambiente corporativo e seus impactos na sociedade de consumo; bem como a necessidade de aperfeiçoamento que os profissionais de diversas áreas passaram a ter para se imporem numa sociedade digital; a academia passa a ter um papel crucial neste cenário.

O modelo político-econômico que se descortina não apenas no Brasil, mas de forma cada vez mais globalizada, por outro lado, exige, da mesma forma, que o profissional desenvolva habilidades empreendedoras. E inovadoras. Para se formar um profissional com a expertise desse 'novo mundo' – que já faz parte da nossa realidade – faz-se necessário mudar as metodologias de ensino-aprendizagem.

É imperativo a construção de processos acadêmicos cada vez mais integrados, dinâmicos, inovadores, e que se aproximem do universo corporativo, ao mesmo tempo em que forma profissionais empreendedores. A mudança de paradigma se dá não apenas com projetos pedagógicos que reúnam disciplinas em eixos de interdisciplinaridades verticais e transversais, mas que reúnam na mesma grade curricular saberes e conhecimentos de habilidades diversas, mas afins.

Capacitar o discente para que ele possa empreender e montar seu próprio negócio. Proporcionar aos alunos uma reflexão crítica sobre as tendências da gestão da informação em mídias digitais. Isso vale para estudantes e profissionais de diversas áreas do conhecimento, como Jornalismo, Publicidade, Economia, Administração, Direito, Tecnologia da Informação, entre outras.

Gutenberg levou cerca de três anos para desenvolver o “Projecto Bíblia”.  A obra, de 1.282 páginas com 42 linhas cada, em dois volumes, permitiu a reprodução em massa do Antigo e o Novo Testamento. Está na hora de as Universidades no Brasil escreverem a “bíblia” de um novo tempo. A Academia, o profissional e as corporações que insistire em tentar sobreviver, ainda num mundo analógico, estão fadadas ao fracasso.