Pires

Ilustração André Barroso

Ele é um pires. Um pires que não faz parte de nenhum conjunto. Não tem como família nenhum bule de café, nenhuma xícara, nenhum açucareiro. Não é sequer par de um pequeno bule de leite. Não tem ninguém para lhe fazer companhia.

É um pires bonito. Não excepcional. Isso não. Mas é um simpático pires, que está ali na feira hippie, dessas que vendem quinquilharias antigas.

Um pires solitário, com ar de quem não foi criado na ‘pós-pós-mudernidade’.

Nasceu num mundo em que o conceito de design sequer tinha sido pensado. Um mundo artesanal, em que o bonito era bonito e pronto. A feiura não era nunca considerada como sendo bela, e as pessoas carregavam certezas absolutas que mudavam instantaneamente.

Branco, com pequenos detalhes dourados, esses aspectos lhe dão um jeito de nobreza decadente. Não é um pires feminino, desses que as mulheres da elite econômica usam ao se reunirem com as amigas para tomar chá e falar das últimas modas na Europa, enquanto a guerra campeia nas ruas.

Não, ele certamente não é um pires que se sirva para esses fins.

Quem sabe com seus ares de aristocrata empobrecido não tenha sido par de um conjunto cujo dono fosse um grande intelectual? São conjecturas, ninguém tem certeza se são verdades ou mentiras. Mas olhar aquele pires, tristemente solitário, faz qualquer pessoa levantar suas suspeitas. Afinal o que aconteceram aos seus pares?

Quem foi seu dono?

De onde vem?

Para onde vai?

Perguntas que fazem parte da natureza do homem.

O pires não dá respostas. Mas é possível imaginar sua existência solitária, seu jeitão encalhado a olhar quem passa, com a certeza de que dificilmente será comprado.

Se ainda fosse um prato!

Mas não. É apenas um simples pires, com um passado desmemoriado.

Ninguém falará: “Getúlio Vargas bebeu nesse pires”. Ou “Princesa Isabel comeu nesse pires”.

Triste é a sina de quem é pires na vida.

Quem nasceu para ser par, mas a existência lhe fez uno.

Quem poderá dizer seu destino?

Será vendido?

Ficará encalhado?

Ou algum gato mais desavisado passará por ali, esbarrará nele e o levará ao chão?

Mil pedaços quebrados. Fragmentos de uma história que ninguém contou, perdendo- se entre os paralelepípedos da rua.

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Carla Giffoni: Jornalista, escritora e roteirista. Atuando há 20 anos como jornalista nas Editorias dePolítica, Polícia, Economia, Cultura e Cidades, em revistas, jornais, sites e emissora de TV, entre eles: Tribuna da Imprensa, Revista Menorah, repórter do Portal de Notícias SolidáRio, TV Bandeirantes (BM), jornal A voz da Cidade, Rádio do Comércio. Colaboradora do roteirista José Carvalho no filme “Vidas partidas”; colaboradora do roteirista Doc Comparato para o projeto “Peritos da Verdade”. Pós-graduada em Jornalismo Cultural e em Roteiro para Cinema e TV (UVA); graduada em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo – e também em Letras/Formação de Escritor (PUC-RJ).
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