Projeto Apadrinhar acolhe crianças afastadas do convívio familiar

Por Solidário, de Edison Corrêa

Publicado em 02 de Março de 2017

Um ato de amor. Assim é a definição do juiz Sérgio Luiz Ribeiro para o Projeto “Apadrinhar – Amar e Agir para Materializar Sonhos”, desenvolvido pela 4ª Vara da Infância, da Juventude e do Idoso da cidade do Rio de Janeiro, do qual é responsável. Cerca de 200 crianças e adolescentes retirados do convívio familiar, de catorze instituições de acolhimento da capital fluminense, já estão atendidos. Existente desde 2014, foi vencedor na categoria “juiz” no 12º Prêmio Innovare, que premia boas práticas voltadas para a melhoria da Justiça no país. “Objetivamos criar laços de afeto entre a sociedade e as crianças/adolescentes que vivem em acolhimento institucional ou familiar, com esperanças remotas de reinserção familiar ou de adoção, para que se desenvolvam de forma saudável, com amor, consciência e cidadania”, explicou Sérgio no lançamento da nova campanha de apadrinhamento do projeto, lançada no último dia 20 de fevereiro no Tribunal de Justiça do Rio (TJ/RJ), que pretende dobrar os atendimentos.

 

Menores atendidos têm poucas chances de adoção

A maioria dos atendidos tem mais de sete anos de idade, fase em que a chance de adoção é muito remota. Qualquer pessoa ou empresa que queira colaborar com o desenvolvimento de um ou mais jovens ou das entidades conveniadas com o projeto podem participar. Não há restrições quanto ao estado civil dos candidatos. A participação no projeto não tem relação com processos de adoção. Quem não quer ou não pode assumir a guarda ou uma criança, mas deseja partilhar tempo e afeto, tem no apadrinhamento afetivo uma grande oportunidade. Mas alguns requisitos são exigidos dos participantes: ser maior de idade; ser 16 anos mais velho que a criança ou adolescente apadrinhado; não ter demandas judiciais envolvendo criança ou adolescente; não ser dependente químico; aceitar o acompanhamento da equipe técnica do programa; e cumprir as regras estabelecidas pela instituição conveniada e pelo Projeto Apadrinhar.

 

Famílias podem escolher três tipos de acolhimento

O projeto engloba três tipos de apadrinhamento: o provedor, o prestador de serviços e o afetivo. O primeiro oferece o suporte material às instituições de acolhimento, com a doação de objetos, materiais de construção, limpeza, higiene, pagamento de mão de obra, reformas no espaço físico, etc. O prestador de serviços permite a prestação de serviços gratuitos às instituições de acolhimento, de acordo com as áreas de formação ou de interesse das madrinhas e dos padrinhos. O afetivo possibilita a assistência afetiva e educacional à criança ou ao adolescente, estabelecendo vínculos e possibilitando o convívio fora das instituições de acolhimento. Participam do projeto, dentre outras, o Abrigo Evangélico de Pedra de Guaratiba, a Ação Social da Paróquia Nossa Senhora da Lapa (Senador Camará), a Minha casa – Sociedade Civil de Amparo ao Menor (Campo Grande), a Associação Obra de Assistência à Infância de Bangu, a Casa do Menor São Miguel Arcanjo (Santa Cruz) e a Família Acolhedora 8ª CAS/ CREAS – Aldaíza Sposati (Realengo).

 

Conhecimento mútuo, ensinamentos e construções

Depois de conhecer o Projeto Apadrinhar no início deste ano, Joice Biral e Pierre Borges apadrinharam a pequena Fernanda, de 11 anos, que mora em uma instituição de acolhimento com seus dois irmãos. Há alguns meses, eles se encontram todos os fins de semana e carinho não falta nessa relação. “Não gerar um filho não significa que se tenha qualquer impedimento de se gerar amor. Ao contrário, há pessoas que nos provam que o amor que elas criam não tem limites, preconceitos e nem se extingue com qualquer frustração”, afirmou Joice, que, aos 43 anos não tinha filhos e sonhava, junto a seu marido, ter uma experiência familiar compartilhada. Com a nova família, Fernanda realizou sonhos: conheceu o mar, pisou na areia e comemorou aniversário, cercada de amigos. Joice e Pierre são padrinhos e apoiadores, exemplos certos em uma vida jovem e cheia de percalços. A história desse trio começa a ganhar formas e a vida da menina já deixou de ser tão vazia. “Tem sido um processo de conhecimento mútuo, de ensinamentos, desconstruções e construções”, afirma Joice, que já pensa em dar prosseguimento ao processo de adoção da menina.

 

Pequenas lições nas estórias cotidianas

Outra história vencedora foi do engenheiro Marcelo Santos, que já colaborava com a instituição “Vivendas da Fé”. Ao saber, junto com sua esposa, Gisele Santos, da possibilidade de apadrinhamento, conheceu Marric, de 12 anos, um menino tímido e comportado que hoje possui uma grande relação de amizade com o casal. Há alguns meses, eles têm passado os finais de semana com o adolescente, acompanhado seu desempenho escolar e suas histórias pessoais. Juntos, eles já foram ao cinema, fizeram um piquenique, jogaram vídeo game, almoçaram e passearam diversas vezes. “Hoje, temos uma ligação bastante intensa. Pelas informações que recebemos do abrigo, ele gosta muito de nossos encontros e fica ansioso pelos finais de semana”, contou Marcelo. Um dia, Marric deu a Marcelo uma lição fundamental nesta relação. Quando eles passavam por uma praça repleta de cães, viram um cachorro alegre e saltitante. Ao observarem com mais cuidado, perceberam que o animal era paraplégico e usava rodas no lugar das patas traseiras. O menino então, depois de algum tempo de reflexão, disse a Marcelo: “mesmo com toda a dificuldade, ele é feliz!”.

 

Compartilhamento da felicidade familiar

Outros a terem uma experiência enriquecedora ao participar do projeto foram Elisângela e Alexandre Ramos. Há alguns meses, o casal descobriu no Projeto Apadrinhar a possibilidade de dividir com uma menina que vive em uma instituição de acolhimento, o amor que sobrava em sua casa. E eles descobriram um segredo: o amor compartilhado se multiplica e transforma vidas. Michele, aos 14 anos, teve a oportunidade de perceber como pode ser pacífica a vida em família, ao conviver com padrinhos capazes de transmitirem exemplos e valores. “Foi amor à primeira vista”, relembrou Elisângela, ao contar sobre o momento em que conheceu a jovem. O casal não esperava que a afilhada fosse uma menina tão amorosa, obediente e gentil, apesar de todas as experiências difíceis pelas quais passara. Aos poucos, a adolescente tem se tornando mais do que uma amiga. “Ela parece já fazer parte de nossa família”, constatou a madrinha, relatando que a participação neste projeto “tem sido uma experiência fantástica”. Ela recomenda a outras famílias a entrarem no Apadrinhar. “Seria muito bom se outras pessoas pudessem também descobrir, com nosso exemplo, a alegria de poder compartilhar felicidade”, completou. 

Serviço:

Projeto Apadrinhar

Informações: (21) 3470-9800

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Projeto Apadrinhar - Foto: Pauty Araújo
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