QUE TIPO DE YOUTUBER VOCÊ QUER SER?

Diogo Nery - cofundador da Inova Colab

Criada em 14 de fevereiro de 2005, a plataforma de vídeos youtube completará 13 anos no mês que vem. O seu lançamento estremeceu a internet e despertou o interesse do mercado e grandes marcas. Independente do amadorismo das produções, o internauta encontra de tudo, e é aí que a plataforma se revela como um imenso mercado de nichos.

Começo modesto, mas revolucionário

Quando o designer Chad Hurley e os programadores Steve Chen e Jawed Karim registraram o domínio youtube.com. , nessa época, eles nem sabiam direito qual seria o resultado do site, visualizações, etc. Eles achavam até que seria uma plataforma mais privada, para você só hospedar vídeos e mandar para pessoas próximas, só que não.

Desde o primeiro vídeo postado “Man at zoo”, em que Jawed Karim fica impressionado com os elefantes (https://youtu.be/jNQXAC9IVRw), as postagens na plataforma começaram a crescer. Desta forma, os gastos começaram subir, especialmente com servidor e banda. Tamanho crescimento não daria para acomodar tanta gente e ainda no fim de 2005, o YouTube começa a receber os seus primeiros investimentos que melhora um pouco a situação financeira do negócio.

O crescimento dos inscritos na plataforma foi o suficiente para chamar a atenção da internet e também das marcas. A Nike foi a primeira a aproveitar a nova plataforma com um vídeo histórico em que Ronaldinho Gaúcho calça suas novas chuteiras e acerta chutes no travessão.

No seu primeiro ano de vida o Youtube já tinha 2 milhões de visualizações por dia em todo o site e 200 mil usuários registrados. Detalhe: tudo era bem limitado, já que a plataforma não aceitava uploads maiores que 100 megabytes.

No ano seguinte, a plataforma era a sensação entre os internautas e não parava de crescer. Isto chamou a atenção da Google, que até aquele momento usava o bem inferior Google Videos. A compra é anunciada em outubro de 2006 por 1,65 bilhão de dólares 

As novidades eram lançadas a cada ano como o vídeo de 480p, versão mobile, youtube live, que foi importantíssimo durante a “Primavera Árabe” para mostrar os protestos nos países onde a censura é muito forte.

No ano de 2012 a plataforma muda o algoritmo de ranqueamento e classificação dos vídeos nas sugestões para você e na página inicial. Ele passa a privilegiar não a quantidade de visualizações, mas sim de tempo que as pessoas passavam assistindo. E, quanto maior o vídeo, mais tempo você passava na frente da tela.

Youtubers brazucas

Ao longo dos anos, a plataforma vem gerando centenas de youtubers, alguns se tornaram muito famosos como Whindersson Nunes e os irmãos Lucas e Felipe Neto.

Segundo a coordenadora de inteligência digital da agência Approach, Fernanda Castelo, quando a mídia tradicional destaca os youtubers com milhares de seguidores, ela reduz a internet aos velhos conceitos de mídia e celebridades. Fernanda destaca que Whindersson e Felipe são exceções, pontos fora da curva.

Quem representa a realidade da criação de conteúdo atual é a “classe média da internet”, formada por blogueiros, youtubers, instagrammers etc. de médio porte, especialistas em determinados temas, que mobilizam uma comunidade segmentada em vez de uma audiência massiva. Eles podem nunca virar uma febre, mas mantém um trabalho consistente ao longo dos anos. Os criadores de nicho têm características bem diferentes das “webcelebridades” e são fundamentais para a consolidação de um ecossistema digital horizontal.” afirma.

Apesar das críticas em torno do conteúdo criado pelas “webcelebridades”, os vídeos usam de estratégias muito bem pensadas para atingir seu público-alvo e gerar receitas. como exemplo, Whindersson e Felipe contam estórias que falam do seu dia a dia revelando os altos e baixos que todo mundo vive, fazendo com que o internauta se identifique com ele. Por mais infantil que possa parecer, um rapaz se banhando numa banheira de Nutella o vídeo gerou uma enormidade de visualizações.

O solidário entrevistou o cofundador da Inova (aceleradora de canais no youtube), Diogo Nery,, que faz uma análise deste vídeo que foi um fenômeno.

Quem é o cara que com vídeo de “banho de Nutella” está realmente ganhando tanto dinheiro? E se ele está ganhando, como ele conseguiu isso? Nesse caso claro estamos falando do Lucas Neto, irmão do Felipe Neto, ou seja, não é uma pessoa comum e sim alguém que trabalha e entende YouTube desde seu início no Brasil. Não que eu ache que o vídeo de alguém mergulhando na Nutella seja um entretenimento de alta relevância, muito pelo contrário, mas existe uma inteligência por trás. Se parar para pensar que grande parte do público do Lucas Neto é infantil e que isso seria um sonho de criança e que assistem o mesmo vídeo incansavelmente, além de ser o público-alvo da marca Nutella, então vale pensar que esse conteúdo não foi gratuito, certo? A questão é que canais grandes ditam tendências, o que nos leva a um segundo ponto.

Quando um canal grande faz um vídeo como esse, ao gerar um conteúdo para uma marca, ele tem o valor agregado devido à quantidade de inscritos e reverbera na rede”

 Como profissional de mídia social, Diogo encara isso como uma leitura de ondas. E já que a internet é interação em comunidade,a questão é saber como dialogar.

Eu preciso entender como utilizar aquela informação que está em alta, seja de uma forma banal ou inteligente. O próprio Harlem Shake foi uma viralização altamente monetizada tempos depois na rede e hoje se tornou um clássico. E não passa de um monte de caras dançando de um jeito esquisito, certo? A Nutella segue pelo mesmo caminho. O problema desse tipo de conteúdo “quanto mais louco, melhor” é que às vezes o louco demais leva situações constrangedoras ou até mesmo perigosas. Esse ponto que é preciso estar alerta e evitar problemas ou perda de público.” – afirma.

Tendências e novos modelos de negócio

Sobre tendências no youtube, Diogo afirma que, sem dúvida, são os canais de nicho e que nem precisam ser grandes, basta estarem preocupados com a pesquisa de roteiro e com sua autenticidade. “As pessoas estão atrás de identificação e no YouTube tem público para todo mundo e se você se mantém firme produzindo toda semana, seu público vai crescer, mesmo que devagar, mas com solidez, porque que se o internauta o segue é porque gosta do seu jeito de ser. Somando tudo isso a um roteiro bem pesquisado e elaborado, aos poucos, seu canal passa a ganhar relevância. E com dez mil inscritos você já consegue bons resultados.

Em 2017, Whinderson Nunes lotou teatros, inclusive no exterior e Felipe Neto publicou seu livro contando sua trajetória de sucesso. Produziram com frequência, conseguiram um bom histórico e volume de vídeos, que migraram a monetização do virtual para o mundo real.

O mercado vem se estabelecendo dessa maneira e se mostrando bastante eficaz porque no início você começa negociando com empresas pequenas assim como seu canal, e conforme seu crescimento vai acontecendo, suas negociações vão se mostrando cada vez mais relevantes e mais rentáveis. Esse modelo vem se mostrando apenas eficaz, como também reinventando a venda de livros e o teatro, renovando público.” – analisa Diogo

Há produtores de conteúdo que usam o financiamento coletivo para se manter, como por exemplo “Jovem Nerd”, que apresenta vídeos sobre quadrinhos, séries de TV, cinema e tecnologia e “O Mundo 2º Ana Roxo”, em que a atriz conversa com sua parceira de trabalho, Tati Fadel, sobre os mais variados assuntos da nossa sociedade: política, comportamento, ética. Num de seus vídeos, ela fala sobre a desmonetização do seu canal, cujo título é: “Por que o canal não é nosso empreendimento?” Vale a pena conferir este link: https://youtu.be/9aO2rKvysjw

Mesmo com mais de 20 mil inscritos no seu canal, para Ana, viver em função do mercado é cruel e ELA é taxativa em não aceitar qualquer tipo de patrocínio para seus vídeos. Sua proposta do financiamento coletivo continuado na plataforma Padrim, lhe garante uma renda mensal em torno de R$ 1.500,00.

Eu estou tentando viver com dignidade e trazer conteúdo de qualidade em detrimento dessa plataforma que viraliza a idiotice. Por isso fui atrás de outras formas de sustentar o canal, porque não me interessa fazer um vídeo mergulhada numa piscina de macarrão pra viralizar, nem diminuir a qualidade do conteúdo  e muito menos ficar a mercê de comentar as tretas (polêmicas) da semana. Me poupe.” – afirma

A sala de aula não é mais a mesma

Eles filmam a minha aula, fotografam, eu só peço o crédito” diverte-se a professora de Psicologia Social Rita Cristina de Souza Santos.

Hoje em dia o celular, o youtube viraram ferramentas de estudo e difusão de conhecimento, tanto nas universidades como nas salas do ensino fundamental. A escola municipal Malba Tahan, em Irajá, os alunos promoveram uma oficina para ensinar os professores a produzir e editar vídeos. De acordo com as professoras desta unidade, o método de ensino pra esta garotada não é atrativo e estes alunos que têm seus canais no youtube acabaram incentivando uma mudança na sala de aula.

Nos trabalhos de campo dos alunos da professora Rita Cristina, o audiovisual é uma ferramenta essencial na coleta dos depoimentos. O audiovisual traz um rico material que nem sempre está nos livros. Para ela, os canais científicos no youtube trazem conteúdo numa linguagem simples, mas com um lastro acadêmico. As postagens dos alunos ajudam na difusão de teses que antes ficavam na biblioteca da faculdade, desta maneira, o intercâmbio entre alunos de outras localidades se intensificou. Ela também destaca que a academia não pode ficar conversando apenas entre seus pares. A nova geração que trabalha na área da saúde em campanhas contra doenças produz vídeos com a participação da população.

Para mim, as redes sociais, o youtube são um grande laboratório da mente humana, o que é preocupante é a propagação de coisas maléficas e a discussão de temas polêmicos sem reflexão, de maneira rasa”.